TEMPO: Explicando as metáforas do novo filme de M. Night Shyamalan
Desde que TEMPO (Old) de M. Night Shyamalan fora anunciado, confesso que aquela ponta de curiosidade surgiu. O cineasta é conhecido por suas produções sinuosas e com reviravoltas que puxam nosso tapete, mas com TEMPO, algo mudou, e isso talvez tenha sido o motivo de tantas críticas negativas, o que ao meu ver não invalida em nada o longa. TEMPO tem toda a assinatura de Shyamalan, com pontas amarradas, e críticas de arrepiar.
Antes de mais nada é preciso dizer que TEMPO é inspirado em uma Graphic Novel, intitulada ‘Sandcastle‘ de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters; onde vemos uma família de férias que ao visitar uma praia privativa descobrem que estão envelhecendo rapidamente.
Dito isso, então, vamos então aos significados dos acontecimentos, com base no meu olhar da história [Com Spoiler]:
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No caminho na Van até o hotel, a conversa se remete ao tempo, seja a idade certa para determinada atividade ou até mesmo a vontade incessante de uma criança crescer para poder “fazer mais”, tal diálogo que pode soar simplório e casual, já prepara o expectador acerca da crítica principal que TEMPO aborda, a forma que todos nós lidamos com o tempo que nos é ofertado na vida.
Os irmãos Trent e Maddox brincam juntamente com uma das crianças locais. E desde uma simples atividade de perguntar aos hóspedes seus nomes e profissões, até presenciar uma briga dos pais… Tudo fará sentido mais a frente.
Ainda no ato um, conhecemos outras famílias, e vislumbramos a famigerada praia no amanhecer com uma casal que parece estar curtindo um momento íntimo. E é o próprio hotel que oferece a visita ao lugar.
De maneira incrivelmente assertiva, o roteiro já nos entrega que TODOS ali possuem algum tipo de doença, e quando chegam ao lugar paradisíaco e isolado isso fica evidente; isso porque, cada hora na praia equivale a dois anos a mais em suas vidas, acelerando todo e qualquer processo metabólico.
Logo, o tumor da mãe de Trent e Maddox cresce do tamanho de uma bola e cicatrizações são instantâneas, mas é preciso lidar com o processo de envelhecimento e tudo que vem com o tempo, e quando falo nisso penso nas doenças degenerativas que são incrivelmente abordadas, tais como a esquizofrenia, a cegueira e a surdez proveniente do envelhecimento celular, a hipocalcemia e até mesmo a hemofilia do Rapper Sedan, que já estava na praia quando as famílias chegaram.
Antes de mencionar os acontecimentos, é necessário dizer que isso acontece, pois naquele paraíso, existem minerais raríssimos que combinados promove tal fenômeno, isso descobrimos no final, quando vem a tona o porque, mas logo chegaremos lá… Continuemos então.
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O tempo para que lidemos com o mundo a nossa volta soa diferente, e não somente para as doenças dos indivíduos que mencionamos que está diretamente relacionada à morte, mas também para a vida, e neste ponto a história lança uma lupa nas três crianças.
O crescimento exponencial dos outrora pequenos, aborda principalmente o amadurecimento precoce, e o tempo que disponibilizamos de conversar com eles; isso fica claro quando Trent e Kara ficam grávidos. Crianças que cresceram anos em horas e não sabem lidar com a modificação hormonal e com àquilo que para eles parece ser uma “simples brincadeira” [Lembrou da brincadeira de médico, né?].
Aliado ao tempo, o cineasta trás outras críticas sociais que parecem não mudar ao longo dos anos. Estamos falando do racismo, incrivelmente bem retratado pelo médico Charles, que acaba assassinando Sedan após um surto; Crystal é a personificação não somente da imposição da beleza “perfeita”, como também do indivíduo que abre mão da felicidade por dinheiro, ela tem tanta escuridão dentro de si, que quando se vê velha, ela simplesmente se afasta de todos.
Mas a maior das críticas existentes em Tempo vem da “Warren e Warren”. Quando nos aproximamos do final, descobrimos que todos aqueles indivíduos ali, foram escolhidos a dedo por uma indústria farmacêutica que usa o hotel como fachada, e lhes oferece misturas especiais em suas bebidas, a fim de testar a eficácia do tempo, os colocando na praia, otimizando -por eles- o trabalho de uma vida em apenas um dia. Eles são cobaias para a criação de medicamentos; e isso abre precedentes para que enxerguemos como as grandes corporações, valorizam as vidas.
São muitas camadas existentes em TEMPO, procurei destrinchar algumas aqui, mas sinto que é um daqueles filmes que sempre podemos extrair mais a cada olhar… Mas saio deste um pouco mais transformada, valorizando mais os momentos, não permitindo que me roubem o tempo que me resta, afinal vivemos em uma eterna corrida contra o relógio. Se tem algo que TEMPO nos diz é, se permita, sabiamente e inteiramente.
Já para Trent e Maddox, os sobreviventes, mais velhos e um pouco mais sábios, o resto de suas vidas será mudado para sempre pelo que passaram, e principalmente pelo tempo que lhes foi roubado.
‘Tempo’ já está disponível nos cinemas.