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A última vez que uma produção que trouxe Era Uma Vez no título foi lançada, foram inúmeras as indicações ao Oscar. Era Uma Vez Em…Hollywood foi um verdadeiro sucesso que chegou aos cinemas e conquistou a academia. Agora, chegou a vez da Netflix levar sua própria Era Uma Vez diretamente para as indicações ao Oscar, com Era Uma Vez Um Sonho. Igual ao seu outro colega de nome, o filme é baseado em uma história real, a vida de J.D. Vance, renomado autor norte-americano. Ao lançar o livro que dá nome ao filme, ele não imaginava que sua vida chegaria aos bestsellers entre 2016 e 2017. 

O livro de memórias de Vance conta um pouco da história de sua família, o que pode ser explicado pelo subtítulo da obra, Memórias de uma família e de uma cultura em crise. O autor nos conta os primórdios de sua infância e adolescente no interior, no melhor sentido que a palavra “caipira” poderia ter. O título original da trama, inclusive, seria Elegia Caipira, em tradução livre. O grande sucesso da obra se deu ao fato de que Vance expõe da melhor forma possível, o que os maus hábitos, costumes e tradições podem fazem com uma família. Sua mãe, vivida no filme por Amy Adams, era viciada em drogas e álcool, resultado em comportamentos violentos e destrutivos em suas crises. 

Era Uma Vez Um Sonho

Embora tenha feito uma passagem breve pelas salas de cinema, foi na Netflix que o filme atingiu seu apogeu. Após descobrirmos os quase 120 minutos de filme, podemos coloca-lo com facilidade na lista de apostas que o streaming terá para o Oscar 2021. O filme conta da forma mais orgânica possível, através de personagens sem maquiagem e com roupas simples, a história de uma família. Além de contar a história de um grupo de pessoas tradicionalistas, é mais um filme norte-americano que fala sobre os Estados Unidos, o que sabemos que a academia adora. Ao somarmos a atuação estupenda de Amy Adams e Glenn Close, temos a receita perfeita para uma estatueta na prateleira do diretor Ron Howard

A familia de J.D. Vance era uma grande família rural disfuncional em sua mais pura forma. Por se tratar de uma história real, o diretor precisou respeitar seus limites e acontecimentos, dando apenas uma pincelada cinematográfica na história.  A produção nos leva ao passado e ao futuro, com o protagonista sendo interpretado por Owen Asztalos, quando adolescente, e Gabriel Basso, enquanto adulto. Tudo o que o garoto sempre quis foi seguir uma vida normal, mas o ambiente familiar que o cercou quase acabou com todas as suas possibilidades de ser alguém. Ele foi agredido e humilhado pela própria mãe, que se rendia ao álcool, drogas e sexo sempre que podia. 

Amy Adams

Ela merece um parágrafo próprio dentro do texto. Adams interpreta Bev, a mãe de J.D e compartilha com Glenn Close, que vive a avó Mamaw, diálogos dignos de aplausos. Bev nunca conseguiu se dar bem com a mãe, culpando-a por todos os erros de seu passado e de sua vida. Enquanto adulta, ela apenas se tornou uma nova versão do que tanto desprezava em sua progenitora. A mãe ateou fogo no próprio marido, que a agredia. Bev por sua vez, se joga nos braços do primeiro que a oferecer um teto para dormir. 

Adams está em uma de suas melhores atuações no cinema, senão a melhor delas. Seu olhar perturbado, o cabelo bagunçado e as expressões da atriz são fundamentais para entendermos a complexidade de Bev. As nuances de sua personalidade não chegam nas palavras, mas sim no olhar e na forma como ela protagoniza cada cena. Adams é a grande protagonista aqui, na frente e por detrás das câmeras. Ao lado de Glenn Close, que também merece uma indicação como Atriz Coadjuvante, elas prendem o público desde o primeiro minuto e ao final queremos apenas ver mais cenas das duas mulheres juntas. 

Era Uma Vez Um Sonho é um drama, mas acima de tudo, é um conto, uma história sobre uma família que não conseguiu se construir. Sob o olhar de J.D. Vance, o autor e vítima do resultado familiar, conhecemos um pouco mais dos efeitos que os laços entre parentes podem ter na vida de uma pessoa. Ele foi criado em um ambiente tóxico, que se reflete em suas explosões de violência e autodepreciação.  

Era Uma Vez Um Sonho está disponível na Netflix.