A Starzplay pode ter em suas mãos uma das séries mais bem desenvolvidas do ano. P-Valley conta a história do dia a dia de mulheres negras, dançarinas em um clube de strip. Localizado no Sul do país, o lugar recebe todo o tipo de mulher negra, nas mais diferentes situações pessoais. Baseada na peça de Katori Hall, Pussy Valley, o título perdeu seu primeiro nome para ganhar uma aceitação maior em meio ao público, além de respeitar as políticas rigorosas do entretenimento.

O seriado mostra a que veio logo nos primeiros minutos. De uma forma nunca antes vista, o cenário aqui é o universo profano e criticado dos clubes de strip, especialmente aqueles onde as dançarinas são todas negras. Lidando com as dificuldades tradicionais que a vida lhes impõe, ser uma mulher negra nos Estados Unidos multiplica ainda mais. Para manter suas famílias alimentadas e salvas, essas mulheres precisam usar seus corpos e aguentar vulgaridades vindas de homens nojentos e abusivos.

A trama

A história gira em torno de Autumm (Elarica Johnson), uma mulher misteriosa que chega ao clube pedindo emprego. Seu passado é revelado em flashbacks, mas o sucesso que faz dançando no poledance começa a incomodar algumas meninas. Ela aparece na The Pynk fugindo de alguma coisa em seu passado e logo é acolhida por Uncle Clifford (Nicco Annan), o dono do lugar. Clifford é do gênero não binário e enfrenta os desafios diários da intolerância e não aceitação em lugares públicos. Clifford cuida de suas meninas acima de qualquer coisa e protege Autumn do que quer que seja.

Uma das principais dançarinas da casa é Mercedes (Brandee Evans), cujos clientes fixos pagam uma bolada por ela. Quando os problemas financeiros começam a surgir, porém, Mercedes percebe que chegou a hora de pendurar os saltos. O tempo avança e a pequena cidade do Mississipi se torna palco de uma série de disputas, mistérios e desigualdades entre a população: negros descriminados, moradores do interior esquecidos, não-binários buscando reconhecimento e strippers tentando ganhar a vida. P-Valley dá uma aula de integração, resiliência intolerância e preconceito, mas acima de tudo, da luta por uma pequena qualidade de vida.

P-Valley

O trabalho dos atores é incrível. Para entender a trama e o objetivo da série, precisamos criar empatia para com cada personagem em tela. As dificuldades vem de todos os lados e muitos dos problemas enfrentados ali são inimagináveis por boa parte do público. Enxergamos um pouco fora de nossa bolha de segurança a partir do momento que entendemos a veracidade na trama. P-Valley pode até ser fictício, mas está longe de ser fantasioso.

As performances no pole são um show a parte. Brandee Evans, por exemplo, era uma professora de inglês antes de entrar no universo do entretenimento. Vê-la em cima do palco ou nas salas fechadas do clube é surpreendente, pois a atriz entrega um trabalho incrível. É possível esquecer o fato de que ela não é uma dançarina profissional, bem como todas as outras meninas do Uncle Clifford. Algumas ali passam por abuso, agressões físicas e verbais, além de todo um estresse no dia a dia. E mesmo assim, seguem lindas e maravilhosas sob um salto. Que série!

O grande destaque da série fica por conta de Nicco Annan. Quem vê a mulher poderosa liderando um clube de stripp, não enxerga a pessoa descriminada que precisa tirar as unhas para ser aceita em uma fila de banco. Clifford é uma pessoa guerreira, uma verdadeira mãe para suas meninas e também um gangster, tudo ao mesmo tempo. Clifford é um indivíduo não-binário que comanda um lugar predominantemente hetero e precisa fazer isso dar certo. E faz.

P-Valley chega no próximo dia 12 de julho ao Starzplay.

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