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No último dia 23 de maio, após um hiatus de 10 anos, a série ‘IN TREATMENT‘ chegou com sua quarta temporada na HBO.

Uzo Aduba protagonizará o novo ano do show que contará com 24 episódios de 30 minutos cada.

A HBO nos concedeu uma entrevista exclusiva com o showrunner, Joshua Allen que nos deu mais detalhes sobre a produção, principalmente de como surgiu a ideia para ‘IN TREATMENT e como foi atraído para o projeto’: “Tenho uma relação muito complicada com a terapia, porque venho de uma família e de uma cultura em geral que acha que é uma coisa, entre aspas, de que as pessoas não precisam. O meu contato com saúde mental era de ver alguns filmes em que colocavam pessoas em camisa de força, como em Um Estranho no Ninho e Ratched.

Só quando eu me mudei para Nova York tive uma perspectiva diferente da saúde metal e vivi as minhas próprias lutas contra a depressão e a ansiedade. Então, sei por experiência própria como pode ser importante contar com algum tipo de intervenção terapêutica e, sinceramente, como isso pode salvar a sua vida. Não é preciso chegar a uma situação grave para se dar conta de que é preciso se entender melhor, e talvez tomar alguma medicação.

Eu sou fã das três temporadas originais da série. Vi cada uma quando estreou. Então, quando surgiu a oportunidade, parecia coisa do destino.”

Allen também nos falou sobre como é trabalhar com a HBO em comparação à outros trabalhos: “É o mundo sonhado para trabalhar porque – odeio falar assim, vai soar muito artístico – eles te dão sinal verde e interferem o mínimo possível. Eles confiam nos criadores, nos roteiristas e nos produtores para fazer o que sabem. E se você chega e diz “Eu preciso muito disso”, eles respondem “Ok, nós vamos ver se podemos conseguir”. Eles têm um compromisso com a qualidade e um rigor incomparáveis.”

O showrunner comentou a escolha de Uzo Aduba como protagonista: “Nós entramos em contato com ela porque, quando estava pensando na personagem, queria que fosse em uma direção diferente. E pensei o que aconteceria se em 2021 a terapeuta fosse uma mulher negra em Los Angeles. Não estava com a Uzo em mente porque imaginei que ela estaria muito requisitada. Ou seja, ela era um sonho para mim, mas eu nem me permitia sonhar.

Desenvolvemos a personagem sem pensar nela. Quando começamos a conversar sobre quem queríamos, o nome dela continuava aparecendo, mas pensávamos “sem chance de ela estar disponível”. Mas ela estava. Mesmo assim pensamos: “com certeza ela não vai se interessar”. Só que ela se interessou. Os astros se alinharam assim. Sou extremamente grato a ela. Tivemos muita sorte de poder contar com ela.

Estamos falando de uma pessoa que eu vi pela primeira vez na Broadway há dez anos. Ela fazia Godspell, e isso foi inclusive antes de Orange Is the New Black. E eu pensava: “Olha, ela topou isso, está fazendo, prende a atenção e faz da melhor maneira possível”. Ela é uma pérola como ser humano.”

E complementou dizendo como foi trabalhar com um elenco tão talentoso: “Foi um sonho. Tínhamos um cronograma de produção com prazos muito apertados, o que significa que havia um tempo limitado para gravar cada episódio de 30 minutos. E é tudo diálogo. Não tinha essa de “ok, agora vamos passar meio dia em externas filmando um desastre de avião”. Eram pessoas falando. Foi como fazer teatro todos os dias.

Tivemos a sorte de poder atrair e reunir um elenco de atores com muita experiência em teatro: o John Benjamin Hickey, a Liza Colón-Zayas e o Anthony Ramos. Contávamos com essas pessoas que podiam decorar aqueles diálogos todos e fazer takes longos, e estávamos sob essa pressão de gravar os episódios muito rápido.

Um dia estávamos filmando com o John Benjamin Hickey e a Uzo e, naturalmente, íamos cortar em algumas partes, e o John sabia disso, mas ele e a Uzo estavam muito compenetrados e continuaram a cena. E a nossa diretora foi tão inteligente que deixou fluir e eles fizeram o episódio todo em um take só. Meia hora de uma vez. Foi o take mais longo que eu já presenciei na vida. Houve uma ovação da equipe técnica. Foi como ir ao teatro, uma delícia.”

A produção executiva de ‘IN TREATMENT’ é assinada por Jennifer Schuur, conhecida por inúmeras séries de sucesso e ganhadora de diversos prêmios. Allen explica para nós como foi a experiência e como se conheceram: “Eu a adoro, e a nossa história tem muitos anos. Nós nos conhecemos quando trabalhávamos em um programa para a CBS chamado Hostages, que só durou uma temporada. Mas continuamos amigos e mantivemos contato. Ela tem uma relação de muitos anos com a HBO. A minha relação com eles é um pouco mais recente. Decidimos fazer o projeto juntos e o bom é que, independente da nossa amizade, também entendemos a maneira de contar uma história do mesmo jeito. A nossa sensibilidade é a mesma.

Então, nesse cronograma tão apertado, em que precisávamos dar o máximo para escrever 24 episódios e gravar tudo, desenvolvemos uma maneira rápida de escrever entre nós. Eu acho que foi importante para os dois. Foi como na época dos nossos pais, em que na família um podia falar pelo outro, e, se a sua mãe dissesse não, você nem se atrevia a perguntar ao seu pai, porque pai e mãe eram uma frente unida. Nós procuramos que fosse o máximo possível assim, porque simplesmente não dava tempo de fazer de outro jeito. Às vezes não podíamos ter longas discussões sobre o que fazer com uma ou outra coisa. Tínhamos que dar autoridade um ao outro para tomar essas decisões em nome de ambos. E acho que deu certo.”

O entretenimento fortemente prejudicado durante o período pandêmico. Muitos filmes e series foram adiados, séries canceladas… No entanto os que resistiram tiveram que otimizar seu tempo para fazer o melhor em um curto período. Alen contou quanto tempo demorou para escrever e filmar ‘IN TREATMENT’, e se ao longo dos episódios, temas atuais, como o COVID-19 e George Floyd seriam abordados: “Começamos a desenvolver e a diagramar os episódios no fim do primeiro semestre do ano passado. Então, George Floyd já tinha acontecido e estávamos em plena pandemia. Depois tivemos um período intenso de escrever o roteiro, mais ou menos em setembro. E começamos a gravar em novembro. Começamos a gravar antes de todos os roteiros estarem prontos. Eu venho da televisão, onde isso é o padrão. Então, se considera um luxo poder ter todos os roteiros escritos e revisá-los antes de gravar. Não tínhamos esse luxo. Foi como um Juggernaut, mas conseguimos.”

Racismo, privilégio branco, ignorância, tristeza , sexualidade e sexismo, são temas abordados em ‘IN TREATMENT’. Joshua Allen, nos explica a importância da inclusão desses temas nas sessões de terapia: “Foi muito, muito importante. É de fundamental importância porque todo mundo quer se ver refletido nos meios de comunicação que consome. Talvez eu não me veja como um personagem, mas, se o personagem fala sobre sua experiência relacionada ao sexismo e eu tive uma experiência parecida, então não importa se a pessoa que estou vendo na tela não se parece comigo fisicamente. Mas espiritualmente, psicologicamente eu me identifico, e posso me ouvir no personagem. Da mesma maneira que procuramos registrar um amplo espectro de seres humanos nos papéis, também procuramos fazer isso com relação ao que as pessoas estão sentindo psicologicamente, e como as pessoas vivem suas dores no mundo.”

E já que tocamos no assunto COVID, o showrunner explica se a doença afetou ou não a produção de alguma forma: “Sim. Quando começamos a conceber a nova temporada já estávamos em plena pandemia, então ela influenciou de algum modo o que estávamos fazendo. Nós criamos um cenário no qual sabíamos que podíamos controlar as variáveis. Tínhamos um programa de testes de Covid muito rigoroso. Todo mundo que entrava em contato com os atores tinha que fazer o teste três vezes por semana. Havia EPIs [equipamentos de proteção individual] em todos os lugares. Fizemos tudo que era possível para garantir que todos nós estávamos seguros e que poderíamos realizar o nosso trabalho da melhor maneira possível. Nas férias de Natal de 2020, quando os casos estavam começando a aumentar seriamente aqui em Los Angeles, tivemos alguns atrasos mínimos, mas depois voltamos ao cronograma e conseguimos. Fizemos um cronograma e cumprimos, o que me orgulha.”

O roteiro de ‘IN TREATMENT’ é muito inteligente e muito próximo da nossa realidade, seria esse aspecto intencional? “Fizemos isso intencionalmente. Sabíamos que a Dra. Brooke Taylor só teria três pacientes. Então pensamos em como tornar esses três pacientes o mais diferentes e diversos possível. Porque queríamos que o máximo de pessoas se identificasse com a série. Este foi um dos desafios maiores, já que só tínhamos três pessoas. Logo no início decidimos que queríamos ser fiéis ao fato de que muitas pessoas agora vivem de maneira virtual.

Um dos nossos roteiristas, Chris Gabo, teve uma experiência semelhante à do personagem que o Anthony interpreta. Concebemos o Eladio como um assistente de saúde domiciliar durante as restrições sanitárias da pandemia, com empregadores muito ricos. Ele não podia ficar indo ao consultório da terapeuta, então fazia a terapia de maneira virtual. Isso nos deu a oportunidade de explorar que níveis de conexão e desconexão aconteciam com as pessoas em ambientes virtuais. Ele é um dos personagens mais próximos da Brooke emocionalmente, mas existe uma distância imposta pela tela do computador. Então, nos divertimos explorando isso.”

Apesar de ser uma série dramática séria, há alguns momentos divertidos, tal escolha também foi intencional? “Os episódios do Collin. Tivemos muita sorte de contar com um roteirista brilhante, o Zac, que escreveu todos os episódios sobre ele. Nós nos divertimos muito porque não necessariamente estávamos rindo de alguém como o Collin. Simplesmente lhe estávamos dando mais visibilidade, e acho que o humor veio da desconexão entre a sua falta de autoconsciência e a sua autoimagem de pessoa totalmente consciente de si mesmo. Ele é uma pessoa que diria “Eu sei exatamente quais são os meus problemas. Não se preocupem. Está tudo em ordem. Eu sei porque, quando morei em Venice, nos anos 90, também era um lugar barra-pesada. Então eu sei o que vocês estão vivendo”. Ele se acha muito consciente de si mesmo e claramente não é. E por isso sentimos essa vergonha alheia e disso também sai muito humor.”

Uma grande curiosidade foi o processo criativo por trás da Dra. Brooke: “Sim. Trabalhamos com uma assessora que é psicoterapeuta e está na ativa. Aprendemos muito com ela e fizemos muita pesquisa por nossa conta. Acho que o sucesso da Brooke é esse: ela tinha que ser uma terapeuta brilhante e perspicaz, mas também tinha que ser uma personagem cativante na televisão. Então, às vezes o desafio era ter as duas coisas, cumprir esses dois objetivos.

Para o personagem do Collin, por exemplo, a ideia da Brooke era atender aquele paciente de maneira voluntária. Ela achava que isso seria excelente e a maneira de devolver algo à sociedade. Então ela se dirige à Agência Federal de Prisões para oferecer seus serviços como terapeuta de maneira voluntária. Eles acham ótimo, selecionam o paciente e essa pessoa acaba sendo ele.

Ela tem que lidar com essa ironia primeiro, e depois ver o que ele traz para ela, porque uma coisa que queríamos destacar era que a Brooke é uma terapeuta diferente. Ela não fica ali sentada analisando sem emoção. Quando há um momento em que sente que é adequado comentar algo da sua própria vida, ela faz isso. Às vezes essa vulnerabilidade tem seu preço, mas ela sente que vale a pena porque, se os pacientes a virem como outro ser humano, vão se abrir mais. Eu acho que por isso precisávamos de uma assessora. Não podíamos correr o risco de as pessoas verem e pensarem: “Hum, não. Terapia não funciona assim”. – Conta Joshua Allen.

Afinal, o nós fãs poderemos esperar desta temporada: “Eu acho que eles podem esperar a mesma ideia, o mesmo formato e a mesma intensidade. O mesmo turbilhão de emoções, os mesmos temas, temas sociais que surgem, mas em uma nova embalagem. Procuramos manter pelo menos uma sutil conexão com a temporada anterior. Não imaginamos uma série In Treatment totalmente nova, em que o Dr. Paul Weston nunca existiu. Pelo contrário. Ele existe neste ecossistema, a Brooke está muito baseada nas três primeiras temporadas. Esta é, sem dúvida, a quarta temporada da mesma série. É como se reimaginassemos mantendo algumas estruturas fundamentais.”

E para finalizar, Allen disse o que gostaria que os espectadores levassem dessa história: “Queremos que as pessoas ampliem sua compreensão do que significa fazer terapia e do que se pode obter. Durante muitas décadas, a descrição da terapia na mídia, em filmes e na televisão foi de certa forma limitada, digamos assim: de que só um tipo de pessoa faz terapia, um tipo de pessoa que mora em determinado lugar e tem um determinado nível econômico, tem esse ou aquele aspecto. É preciso ampliar essa ideia porque há pessoas que precisam de terapia. Não é para pessoas que estão “loucas”. Não é para pessoas que pagam 300 dólares por hora para falar da mãe. É para todo mundo, e há diferentes meios de acesso para todos. Não é algo que se deva encarar como “torci o tornozelo, então vou ao ortopedista”. É uma busca da vida toda porque enquanto você estiver vivo terá uma psique. E tudo bem cuidar dela.”

A quarta temporada é ambientada em Los Angeles e apresenta três pacientes que buscam a ajuda profissional de Brooke para enfrentar diversos aspectos da vida moderna. Questões como a pandemia do coronavírus e recentes mudanças sociais e culturais compõem o pano de fundo do trabalho da terapeuta, enquanto ela lida com complicações em sua vida pessoal.

Serão exibidos dois novos episódios consecutivos aos domingos e às segundas-feiras, às 22h e às 22h30, na HBO e na HBO GO.