Se tem uma coisa que eu acho muito piegas é alguém virar pra mim e dizer “tal filme me fez pensar sobre a vida”. Não que eu duvide de tal poder – nós nerds sabemos bem quantos filmes já nos fizeram pensar sobre tudo e que até nosso caráter foi formado por algumas obras. Por filmes, obras, músicas (ouvir Beatles na adolescência me ajudou a resolver questões muito complexas pra mim na época, por exemplo). Mas a frase dita soa cafona mesmo. No entanto, acabei de assistir Whiplash e estou sendo obrigada a dizer que o filme está me fazendo pensar um pouco.

Antes de tudo, falemos sobre a sinopse do filme: jovem sonha em se tornar o melhor baterista de jazz de todos os tempos e para isso, precisa passar pelos métodos agressivos de um professor de música renomado. Fim. Basicamente a história é isso, mas conforme começa o filme, você começa a entender que não é SÓ isso. É uma história que envolve sonhos, persistência, obstáculos, pressão, sacrifícios, etc. Filminho água com açúcar? Olha com o um enredo desses tinha tudo pra ser mesmo, mas é aí que você começa a analisar o protagonista Andrew (Miles Teller) e o professor demoníaco Terence Fletcher (o incrível J.K. Simmons, que deve levar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) e vê que tem muito, mas MUITO mais mensagem pra ser absorvida do que o simples e óbvio “não desista dos seus sonhos”.

Whiplash

Até porque, a julgar pelo final do filme, não dá pra entender se afinal de contas ele realizou o sonho de ser uma lenda do jazz ou se desistiu depois de mais uma sessão de tortura psicológica e dessa vez, em público, mesmo tendo mais uma vez passado por cima das adversidades. Esse é um dos pontos mais legais do filme no geral: não toma um partido, não impõe uma regra, não te diz se o que acontece é certo ou errado. E não diz se o menino chegou lá ou não. Fica tudo a cargo da sua interpretação. Fica a cargo dela também julgar se os métodos do Professor Fletcher são questionáveis ou não.

Eu tenho que dizer que fiquei bastante incomodada com duas coisas, uma de cada lado: do lado Andrew, achei um pouco exageradas as cenas em que as mãos dele sangram enquanto toca bateria nos momentos em que precisa praticar mais depois de tomar uns esporros do Fletcher. Sim, claro que ensaios são extremamente duros e difíceis – especialmente se você está obcecado em ser o melhor naquilo – mas achei um pouco demais. Pelo lado de Fletcher: achei algumas coisas bem exageradas também nos seus métodos. A tortura psicológica a qual ele submete Andrew e seus outros alunos (a história do Sean me deixou bem chocada) é algo bem incômodo de se assistir em alguns momentos.

Whiplash 3

Porém conforme o filme de desenrola, você começa a perceber que o jeito durão do professor é só uma forma de incentivar o jovem baterista, certo? Bom, não dá pra afirmar. Eu pelo menos não consegui concluir se o jeito psicopata do Fletcher era sadismo puro ou mesmo o jeito doido dele descobrir novos talentos. O fato é que dá pra ter bastante pena do Andrew e admirar muito sua persistência mesmo quando até eu já tava aqui pedindo pra ele deixar essa história de música pra lá.

Whiplash no geral é muito bem executado – aquele tipo de filme que eu adoro, simples e bem feito. Ótimo roteiro, direção (aqui vale um destaque especial pro diretor Damien Chazelle, que é praticamente um calouro e conseguiu fazer um excelente trabalho), interpretações incríveis. Não vou entrar no mérito da questão musical que vi bastante gente ligada à música criticar. Não é um filme musical e talvez nem sobre a música. É um filme sobre limites, sonhos (por mais piegas que possa parecer), sobre persistência, afinco, assédio moral, etc. Assistindo ao filme, às vezes dá a impressão que se pra se conseguir algo que se queira muito é necessário passar por um sofrimento insano mas ainda assim, não foi sobre isso que fiquei  pensando quando subiram os créditos.

Fiquei pensando mesmo em ingenuidade. Em como as pessoas são ingênuas quando estão atrás de algo e o quanto ficam cegas. E o quanto são traídas, muitas vezes por si mesmas quando focam tanto em um objetivo. A ingenuidade pode ser uma coisa bem louca mesmo.

Indicações Whiplash

NOTA 5

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