Antes de ler o segundo capítulo de nossos contos RPGistas, que tal ler o primeiro para acompanhar melhor a leitura? Leia aqui A melhor maneira de morrer – Capítulo 1 – Yabu! Esta é sobre Tsuruchi Enishi!

 

Enishi encontrava-se ali, sentado em sua cadeira de Daymio. “Daymio dos Tsuruchi. Eu, Enishi. Quem diria?” dizia pra si mesmo ali, sentado com seus próprios pensamentos. Enishi sempre foi audacioso, impetuoso, ficou conhecido em toda Rokugan por sua honra inquestionável, por sua habilidade ímpar com um arco, por seus reflexos terem lhe permitido derrotar um experiente Kakita em um duelo e por enfrentar todos os perigos com alegria estampada no rosto.

 

Desde que substituíra seu tio Nobumoto no comando dos Tsuruchi, Enishi tem apresentado uma mudança de postura. Está mais adulto, maduro, escolhe bem as palavras que sai de sua boca, pois sabe que todos os Tsuruchi estão sob sua responsabilidade agora. Mas Enishi não reclama. Karma, pensa ele, mas um bom karma. Sente falta de suas aventuras, nunca quis e tampouco se imaginou ser Daymio, mas não pode negar que muitas coisas boas lhe aconteceram nesse período, como o seu casamento com Izumi. Uma das mais lindas damas Doji que ele viu em sua vida. Uma esposa exemplar, perfeita. Antes Doji Izumi, agora Tsuruchi Izumi, e ela provou sua lealdade à nova família deixando de vestir o azul da Garça e parando de tingir seus cabelos de branco. Mas as cores do Mantis, o verde e o preto de suas novas vestes não combinam com seus lindos olhos azuis.

 

Enishi é interrompido de seus pensamentos por um servo, que entra em sua sala e se prostra de cócoras com a testa encostada no chão.

 

– Enishi-sama! – Disse o servo.

 

– Sim, o que houve Takatsu? O que lhe trás assim, esbaforido em minha sala? Responda! – Ordenou o Daymio.

 

– O senhor tem visita…

 

Enishi riu. – Ora, mas o que tem demais numa visita?

 

– Senhor, é um ronin que deseja vê-lo. Atende pelo nome de Yabu, e está vestido todo de branco!

 

“Yabu? Aqui? E vestido de branco?” pensou Enishi. “Então finalmente o dia do acerto de contas chegou. Ele veio pagar pelas mortes de Kido e Kazuki.”

 

Enishi, por um momento esqueceu-se do servo que aguardava ansioso uma resposta sua em relação ao visitante inesperado e sua mente voltou no tempo, bem antes da morte de Kido, a época em que ele vivia entre os Kakitas, aos cuidados de Kakita Rekai.

 

Enishi, um jovem aspirante a bushi que por um acordo entre o clã da Garça e o Mantis foi muito jovem viver no país da Garça. Sempre foi um homem que prezava muito sua honra e era um dos poucos samurais que tratavam os heimins, servos não-samurais com algum respeito e bondade. Um dia ele presenciou um jovem Kakita maltratando um pobre camponês e não deixou por menos. Avançou em direção ao jovem disposto a dar um basta naquela covardia. O jovem, que se chamava Kakita Yabu não gostou de ser importunado e os dois iniciaram um rápido embate, que terminou com Enishi caído com a lâmina da katana de Yabu sobre seu rosto. Yabu resolveu punir Enishi por aquela intromissão inoportuna e fez um talho em seu rosto, um corte vertical que ia de sua testa até sua bochecha, passando por seu olho esquerdo quase o cegando. Enishi jurou vingança contra Yabu e os dois viraram inimigos. Como Enishi era um refém Mantis aos cuidados da Garça e qualquer coisa que o ameaçasse pudesse colocar todo o acordo em risco, Yabu foi rapidamente punido pelo seu ato e Enishi permaneceu intocado até o dia de sua volta ao Mantis. Mas um jurou ao outro que ia morrer pela lâmina de sua espada.

 

Enishi e Yabu se encontraram novamente anos depois nas fronteiras das terras Kakita. Enishi se lembra bem daquele dia. Estava com Bayushi Kido, a jovem do clã Escorpião que se aventurou em Rokugan com o objetivo de aprimorar sua técnica como duelista. Yabu estava com Doji Kazuki, um jovem e ingênuo duelista da escola Kakita e apaixonado por Doji Izumi, que viria mais tarde se tornar esposa de Enishi. Enishi se lembra do temor que sentiu por Kido quando ela desafiou Yabu para um duelo. “Vai ser rápido, pensou Enishi. Ela não tem a menor chance…”.

 

Enishi não imaginava o desfecho daquele encontro. Kido andava com vestes estrategicamente provocantes, que realçavam seu belo corpo. No momento do duelo, suas vestes mostravam bastante da bela forma do seu corpo e isso abalou a concentração de Yabu, como já havia feito com outros adversários. Então Kido foi mais rápida e parou sua lâmina no lado esquerdo do rosto de Yabu, fazendo um pequeno talho. Enishi e Kazuki não acreditaram no que viam, mas não tiveram tempo de se surpreender, pois em questão de milésimos de segundos Yabu sacou sua espada e desferiu um corte fatal em Kido, que ainda comemorava sua vitória. Kido morreu na hora com seu abdômen aberto. Com a morte de Kido, Enishi na mesma hora decidiu desafiar Yabu para um duelo, mas Kazuki foi mais rápido e o desafiou antes. Um duelo até a morte. Yabu venceu Kazuki facilmente e o matou. Aquilo foi demais para o Kakita que quebrou sua lâmina e fugiu como um ronin. Enishi nunca mais ouviu falar de Yabu. Até agora…

 

– Mande-o entrar. – Ordenou Enishi.

 

– Senhor?

 

– Mande-o entregar sua arma e traga-o aqui. Depois ache Nobumoto e Izumi e os chame também.

 

Nobumoto e Izumi apareceram na sala logo depois e Enishi explicou o que estava acontecendo. Ambos estavam ali ao lado de Enishi aguardando. Izumi estava ao seu lado direito. Nobumoto, ex-Daymio dos Tsuruchi e atual conselheiro pessoal de Enishi estava ao seu lado esquerdo. Então a porta se abriu e ele entrou.

 

Yabu vestia um obi impecavelmente branco. Sua barba estava cerrada, seu rosto estava endurecido, mas todos ali perceberam algum vestígio de honra e dignidade naquele ronin, que mantinha os cabelos presos para trás, ainda que estivessem um pouco desgrenhados.

 

O primeiro a quebrar o silêncio foi o próprio Enishi. Falou com um sorriso nos lábios.

 

– Quanto tempo, Yabu-san! Então o esperado dia finalmente chegou…

 

– Sim. Aguardava ansioso por esse momento.

 

– Vamos caminhar nos jardins do meu castelo. – Disse Enishi com um sorriso e se levantou, acenando para que Yabu o seguisse.

 

Enishi e Yabu caminhavam pelos jardins redecorados do castelo. Passavam pela pequena ponte em arco que cruzava o lago central do jardim, com árvores que deixavam suas folhas vermelhas caírem no lago naquela tarde de outono. Adiante, pararam em uma pequena vista. Ainda era possível observar traços da arquitetura do clã Escorpião, ex-proprietários daquele lugar. O local tinha vista para as montanhas que faziam divisa com as terras dos clãs do norte e para o oceano a leste. Yabu não pôde deixar de admirar a beleza daquele jardim, onde via traços do seu clã de origem. Claro, o jardim havia sido redecorado por lady Izumi, havia nele a elegância sutil exclusivos da Garça. Yabu deu um sorriso triste diante daquela visão.

 

– Você veio todo de branco. A cor da morte. – Enishi quebrou o silêncio. – Significa que está disposto a morrer de fato.

 

– Sim, mas a minha intenção não é um duelo até a morte, Enishi-sama. – Respondeu Yabu, fazendo questão de usar o sufixo “sama”, pronome usado para se referir a um superior.

 

– Não? Então não entendo. Qual é sua intenção Yabu-san?

 

– Você sempre quis um duelo. Então eu vim aqui para duelar contigo. Mas não tenho mais intenção e nem vontade de matá-lo. Lembro-me do motivo pelo qual você e eu nos tornamos inimigos.

 

– Bom… – Yabu continuou. – Quando eu fugi naquele dia, andei a esmo por Rokugan até ser encontrado quase sem vida por uma família de heimins. Esta família me acolheu, cuidou de mim até eu me restabelecer. Esses heimins que eu tanto desprezava impediu que eu morresse. Depois descobri que me encontrava numa vila chamada Doko no mura. Uma vila onde não existia algum senhor para lhe cobrar tributos, uma vila que de tempos em tempos era assolada por criminosos e criaturas das Terras Sombrias. Não tinham proteção, tinham medo de quem vinha de fora, mas mesmo assim, apesar desse medo, me acolheram e decidiram poupar minha vida miserável. Por causa disso, concluí que as fortunas não iam me deixar morrer enquanto eu não expiasse meus crimes passados. A primeira vez que a vila foi invadida por ronins criminosos depois de minha chegada, matei três e deixei os dois restantes fugirem. A partir desse dia tornei-me o protetor desta vila, mas já estava decidido no meu coração que meu destino era um novo encontro com você antes da minha partida…

 

– Entendo. – Disse Enishi pensativo.

 

Yabu pareceu não tê-lo ouvido e tornou a falar. – Eu deixei um legado nessa vila, Enishi. Três jovens duelistas e um filho pequeno. Sua mãe morreu quando ele tinha apenas um ano de vida. Veja que minha intenção é dar continuidade a esse legado, não quero que meu nome seja apagado da história. Por isso o que proponho é o seguinte: Duelamos, se eu vencê-lo, quero voltar a Kyuden Doji para cometer seppuku diante do campeão e dos chefes de família. Se você vencer, eu cometerei seppuku diante de ti e gostaria que fosse meu kaishaku.

 

Yabu tirou dois rolos de pergaminhos do bolso e disse entregando-os para Enishi. – Um pergaminho é para ser entregue aos Doji caso eu perca o duelo. O outro é para ser entregue aos Bayushi caso eu vença.

 

– Gostaria de mudar um termo, Yabu-san. – Enishi não deu tempo de Yabu perguntar e continuou. – Se eu vencê-lo, você mesmo entregará esse pedido de desculpas à família de Kido e cometerá seppuku em Kyuden Bayushi, e eu serei seu kaishaku, será uma honra pra mim.

 

Yabu concordou. Era justo, pensou ele. Fez uma mesura a Enishi e ficou em silêncio, seus olhos e pensamentos agora voltados para as montanhas do norte.

 

Enishi o deixou apreciar por algum momento aquela bela paisagem de fim de tarde de outono e perguntou em seguida. – Só mais uma pergunta, Yabu-san.

 

– Diga…

 

– Por que agora? Por que neste dia?

 

Yabu sorriu. – É simples. Estamos no outono. Quando me for, quero cair como essas folhas de outono, que caem dos galhos porque eles não a pertencem mais. As folhas caem e dá um novo sentido a paisagem, tudo muda no outono. Até serem varridas pelo vento. Este mundo é meu galho, Enishi-san. E ele não mais me pertence. Quero cair como essas folhas, com leveza e graça, então finalmente poderei dar um novo sentido a essa nova paisagem…

 

Enishi não tinha palavras, estava totalmente surpreendido pelo amadurecimento do homem diante dele. Pela primeira vez em sua vida Enishi sentiu admiração por Yabu e reconheceu sua honra. Não disse nada, apenas assentiu com a cabeça. Ambos ficaram observando o anoitecer diante daquela vista. Quando anoiteceu Enishi quebrou o silêncio e falou.

 

– Yabu-san, essa noite será meu convidado de honra. Quero que jante comigo e minha família. Quero que tenha uma boa noite de sono para que esteja bem disposto e preparado para amanhã… – Enishi olhou Yabu nos olhos e continuou. – Ao amanhecer duelaremos.

 

– Hai! – Respondeu Yabu.

 

Os dois então voltaram ao palácio…

 

By Daniel Simões

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