Cada vez que eu paro para escrever a coluna de livros, acontece uma competição dentro de mim para decidir quem será o autor preferido da vez… Desta vez sorteei Saramago e fiquem certos que a escolha tem seu fundamento! =) José de Sousa Saramago foi classificado em seu pós-vida como “escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português” ~ ufa…! Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1998 e o Prêmio Camões – Prêmio literário mais importante da língua portuguesa. Eu amo esse cara e serei eternamente grata por sua literatura! 😉

“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores (…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias…”

Saramago foi conhecido por utilizar o estilo oral, utilizava frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional, os diálogos dos personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros. Por isso, dizem que os leitores que realmente se acostumam com sua forma de escrita e passam a gostar do autor, experimentam uma leitura extremamente prazerosa devido ao ritmo envolvente dos diálogos que se aproximam à eloquência oral do povo português.

ensaio sobre a cegueira

O Ensaio sobre a Cegueira

Romance publicado em 1995 que foi explicado aos olhos de Saramago da seguinte forma: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

É de conhecimento de todos que Saramago era um crítico em constante movimento. Como assim? Ele não se limitava a criticar temas subjetivos muitas vezes escolhidos por autores famosos por não afetar nichos sociais que podem se sentir ofendidos. Saramago dizia “na cara” o que pensava sobre a raça humana e todos os seus feitos. Em Ensaio sobre a Cegueira ele faz uma intensa crítica aos valores da sociedade, e ao que acontece quando um dos sentidos vitais falta à população. São demonstradas através da obra intensa e sofrida de Saramago, as reações do ser humano às necessidades, à incapacidade, ao desprezo e ao abandono. Leva-nos a refletir sobre a moral, costumes, ética e preconceito através dos olhos da personagem principal, a mulher do médico, que se depara ao longo do livro com situações inadmissíveis, mata pela preservação e depara-se com cenas bizarras da humanidade.

ensaio sobre a lucidez

O Ensaio sobre a Lucidez

Romance lançado em 2004 como sendo uma “continuação independente de Ensaio sobre a Cegueira”. Saramago não faz questão de esconder sua intenção alegórica, fazendo o jogo de claro-escuro penetrar em impasses contemporâneos. O livro aborda o pós-trauma de uma população, a válvula de escape para protestar sobre aqueles que realmente detém o poder no mundo. É desenvolvida aqui uma crítica mordaz às instituições do poder político: sob a democracia, podem estar vetores de natureza autoritária – lúcido é quem os enxerga.

Entram em cena os mesmos personagens de Ensaio sobre a Cegueira, expandindo as críticas da miséria humana ao liberalismo e autoritarismo contraditórios na democracia. O melhor do livro é a demonstração desumana de como os governantes costumam agir em um momento de desespero e de falta de controle do povo. Uma vergonha para a nossa sociedade atual e uma abertura de olhos para aqueles que ainda conseguem ver atitudes animalescas e hipócritas como normais.

Nota: O paralelo sobre o meu post sobre o Rafinha Bastos de ontem deve ser feito. Leiam Saramago e depois voltem para discutir sociedade, valores, moral e ética. Não tenham em mente apenas exemplos expostos na internet e nos programas humorísticos atuais. Distrações são distrações, mas não devem ser confundidas com conteúdo válido para a humanidade.

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