UM CLÁSSICO DE TERROR? NÃO!

 Neil Gaiman está entre os autores mais aclamados de todos os tempos. Ele é o responsável por tramas incríveis, como Coraline, Deuses Americanos, Os Filhos de Anansi e muitos outros. Estes dois primeiros foram, assim como Stardust, obras de Gaiman adaptadas para as telas. A mais recente delas, Deuses Americanos, ganhou uma série de sucesso no Amazon. E como foi confirmado recentemente, Gaiman está prestes a ter mais uma trama sua adaptada, dessa vez pela Netflix. Sandman vem aí, em uma série que promete mexer com o público desde os primeiros episódios. 

OS QUADRINHOS

Embora seu sucesso na literatura seja o mais conhecida, foi nos quadrinhos que a popularidade de Gaiman desparou. Com Sandman, o autor entrou para a história das HQs e começou a ser chamado de gênio. No final da década de 80, edições de O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal faziam sucesso nas bancas. Pensando nisso, a DC Comics buscava novos roteiristas para deslanchar ainda mais sua popularidade. O objetivo inicial era uma reivenção dos universos já existentes em suas publicações. Por consequência, Sandman se tornou um ícone dos quadrinhos e da literatura do gênero. 

Em 1987, a DC Comics publicava Orquídea Negra, feita em parceria de Gaiman e Dave Mckean. A futura da Vertigo, espaço dentro da editora criado para os quadrinhos adultos, deu a Gaiman a oportunidade que ele precisava. Ao autor foi dada a chance de reinventar um personagem que já existia no universo da DC. 

O SANDMAN DE GAIMAN

The Sandman já foi usado algumas vezes ao longo da história. Originalmente, o título foi aplicado a duas publicações da DC que não tinham relação alguma uma com a outra. O nome do personagem era Wesley Dodds, um detetive de 1939. Já em 70, o nome voltou a aparecer, mas dessa vez como um super herói criado por Joe Simon e Jack Kirby.

O Sandman de Neil Gaiman foi desenvolvido com embasamento em ambas as publicações. Entretanto, diferente das duas, o personagem foi fundamentado em mitologia, história, literatura e cultura popular. Basta olhar para os três personagens para ver a diferença no Sandman que estamos falando.

OS SETE PERPÉTUOS

A história de Gaiman é centralizada em um dos Sete Perpétuos, uma espécie de entidade considerada acima dos Deuses. Como o nome já diz, eles são sete: Morte, Desejo, Sonho, Desespero, Delirium, Destruição e Destino. Apesar de seu poder, os Perpétuos carregam títulos presentes com frequência no cotidiano de todo ser humano. São irmãos imortais  vivendo separadamente em um reino, construído com base em suas características individuais. Sandman tem enfoque em um deles, Sonho, que carrega o nome de Morfeus. 

O Deus dos Sonhos, como já diz seu nome, é o responsável pelos sonhos de todos que têm a capacidade de sonhar. Na história de Gaiman, ele foi aprisionado no lugar de uma de suas irmãs, a Morte. Buscando sua fuga, ele passa anos quieto, sem aparecer e/ou dar uma dica de suas intenções. Quando finalmente consegue sua saída, o mundo não é mais aquilo que ele deixou para trás, pelo contrário. Seus objetos de poder não estão onde ele deixou, assim como muitos outros elementos. 

OS PERSONAGENS

Sonho foi criado, de acordo com Gaiman, por ser dono de um reino ao qual vamos todas as noites na hora de dormir. Morte foi a próxima a ser criada, afinal, se o Sonho é irmão da Morte, o contrário também poderia ser real. Gaiman pegou seu Destino emprestado da DC, mas o adaptou para sua história. Nela, inclusive, ele segura um livro que contém todo o universo em suas páginas. Algo que certamente iria dar trabalho nas mãos erradas. 

Desespero é o que fica por trás dos medos, aquele que mais é temido. Não é difícil imaginar o motivo, visto que não é bom sentí-lo.  Desejo é masculino e feminino, tudo aquilo que queremos, tudo aquilo que desejamos. Cabe a cada um pensar se ele é algo bom ou ruim. Delírio mistura a loucura, a alegria, o prazer. É o responsável por aquilo que ninguém faz, por aquilo que ninguém diz. Por fim, Destruição é aquele que foi embora. Não é possível termos algo novo, sem que ele esteja presente, mas não é possível que ele esteja presente, sem termos algo novo. 

A REPRESENTATIVIDADE

Sandman tem, entre muitas qualidades, seu pionerismo na representação feminina e LGBT nas histórias em quadrinhos. Enquanto muitos ainda taxavam o assunto como tabu, Gaiman o abordou de maneira criativa, original e, principalmente, natural. Os personagens gays e transexuais da época eram vistos, em sua maioria, como vítimas da AIDS.

Quando Gaiman criou Wanda, uma mulher trans filha de uma família extremamente religiosa e conservadora, mostrou ao mundo uma realidade necessária. O mesmo aconteceu com Fox Glove, uma cantora que sente a obrigação de esconder seu relacionamento com sua parceira Hazel. A história ainda traz Hal, o zelador de um prédio que encontra seu verdadeiro eu em performances como Drag Queen! 

Sandman pode remeter ao Homem de Areia, cuja fama não faz jus a imagem do personagem da série. Enquanto o primeiro sopra areia no olho de crianças, o segundo apenas pega a ilusão ao movimento de fechar os olhos. 

 

E então, todos ansiosos para Sandman, na Netflix?