Apesar de pesquisadores das mais diversas áreas passarem anos e anos tentando desenvolver métodos para detectar a confiabilidade das pessoas a partir de gestos e outros sinais de linguagem corporal, nenhum deles até hoje conseguiu chegar a alguma conclusão com suporte empírico. O objetivo, e a tentação, claro, será conseguir dizer, sempre, a partir de alguma expressão não falada, que alguém está mentindo. Algo como um sorriso falso ou um olhar, talvez. Mas a realidade é que qualquer expressão pode ser ambígua. Por exemplo: se a pessoa se coça atrás da orelha enquanto fala, ela pode estar escondendo alguma coisa. Ou pode estar com uma coceira.

Parece uma missão impossível detectar se alguém está ou não mentindo de fato, né? Não para David Desteno e seus amigos. Para o professor de psicologia da Universidade Northeastern (EUA), e autor de “The Truth About Trust: How It Determines Success in Life, Love, Learning, and More (Hudson Street Press, 2014)”, é preciso olhar para um conjunto de pistas para tirar conclusões sobre as intenções das pessoas.

Pistas como gestos que, segundo ele, juntos podem revelar com mais precisão se alguém está sendo verdadeiro ou não. No vídeo abaixo, DeSteno explica sua pesquisa e identifica quatros dos gestos mais importantes que podem nos dizer alguma coisa sobre trapaças. Olha só:

O EXPERIMENTO

DeSteno convidou algumas pessoas aleatórias para visitar seu laboratório. Todas elas passaram por uma conversa de 5 minutos cheia de perguntas para conhecer melhor cada participante. E, depois, participaram de um jogo. Para ter uma visão clara de todo os movimentos, ele instalou 3 câmeras na sala, em diferentes ângulos. E teve uma sacada: para saber se a linguagem corporal realmente nos dava algumas informações extras, metade desses convidados passaram pela mesma conversara, só que em uma sala da bate-papo online, usando apenas a linguagem escrita.

O JOGO

Depois, os participantes foram separados sob o pretexto de que iriam participar de uma brincadeira em que dinheiro vivo estava em jogo. Cada um deles recebeu 4 moedas que valiam 1 dólar para si, e 2 dólares para seu parceiro. O objetivo do jogo era decidir quantas moedas cada um queria trocar com seu parceiro. Isso deixava os participantes com as seguintes opções:

Não dar nenhuma moeda, esperando que o parceiro de jogo lhe desse todas. A trapaça resultava em ficar com todo o dinheiro da partida. Matematicamente: um acabaria com 12 dólares, e seu parceiro, com nada; Mas, caso os participantes confiassem um no outro, ambos trocariam todas as moedas e os dois acabariam o jogo com 8 dólares cada, ao invés de 4. Enquanto observavam as trocas, DeSteno e seus colegas decodificaram quatro gestos específicos que, quando feitos em conjunto, previam um comportamento não confiável. São eles:

Tocar as mãos; Tocar o próprio rosto; Cruzar os braços; Se afastar da mesa (algo como encostar as costas na cadeira). Quanto mais um participante expressava esses gestos, menos ele era confiado na partida. O curioso é que as pessoas não sabiam  conscientemente que estavam fazendo, ou interpretando, esses gestos. Mas estavam. E para ter certeza de que essa comunicação não verbal estava acontecendo mesmo, DeSteno e sua equipe contaram com a ajuda de Nexy, um robô desenvolvido no Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA).

E então começou a segunda fase do experimento. Todos os participantes passaram por uma segunda rodada de conversas com perguntas e jogaram o mesmo jogo, agora com o robô. Com metade dos participantes, ele fazia os gestos que enumeramos acima, e com a outra metade, agia de forma mais neutra. O resultado foi exatamente o esperado. Os participantes que conversaram com Nexy enquanto o robô se comportava com gestos “não confiáveis” disseram esperar menos moedas na troca, e menos ainda queriam dar ao robô.

E tem mais. Além de verificar os sinais de falta de confiança, esse experimento também mostrou que a tecnologia conquistou nossas mentes, e que estamos estamos dispostos a atribuir intenções morais a ela, desde que demonstre qualquer expressão emocional. Harvard Business Review

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