Semana passada fui ao show do Metallica aqui em São Paulo. Não foi um show comum, apesar de não ter sido o primeiro da banda no Brasil, ou mesmo em terras paulistanas. O diferencial da apresentação foi ela fazer parte da turnê “By Request”, que leva seu conceito bem ao pé da letra: o set list do show é decidido pelos fãs que compram o ingresso para a apresentação.

O procedimento foi bem simples e democrático. Alguns dias depois de comprar o meu ingresso, recebi um email da organizadora com um código e um link para o site oficial da turnê. Ali me foram apresentadas todas as músicas da carreira do Metallica (que não são poucas) separadas pelos seus respectivos álbuns. Escolhi as 18 músicas a que tinha direito e então esperei o resultado final da apuração que saiu dias depois – que não me surpreendeu. Basicamente foram escolhidos os maiores clássicos da banda sem grandes inovações. Amigos meus que foram em outros shows chegaram a dizer que o set list era idêntico às últimas apresentações do Metallica no Brasil.

Metallica ingresso

O clima era de insatisfação geral. Fãs se revoltaram nas redes sociais dizendo que “brasileiro não sabe votar mesmo”, que “era uma grande oportunidade de ouvir músicas boas que normalmente eles não tocam em shows e foi desperdiçada” e “só no Brasil mesmo pra pedir pra um show repetido”. As pessoas se revoltaram e não conversei com uma só pessoa satisfeita com o set list escolhido. A única pessoa relativamente satisfeita que eu conhecia, bem, foi eu mesma.

Foi meu primeiro show do Metallica e fui bem racional: sabia que fatalmente os maiores clássicos ganhariam. Pra mim não seria problema nenhum, uma vez que sendo meu primeiro show deles não seria nada mau ouvir os grandes clássicos – levando em consideração que as minhas músicas preferidas, Sad But True, Fuel Master of Puppets são classicões. Logo, pra mim o set list list estava bem ok, com uma música ou outra que eu tiraria, mas vivemos numa democracia e no geral eu estava satisfeita com o escolhido.

Lars

No dia do show, como tem sido de praxe nesta turnê, é feita mais uma votação entre três músicas que ficaram de fora das escolhidas, uma espécie de repescagem durante o show: “The Memory Remains” e “Ride The Lightning”“The Day That Never Comes” – esta última a que eu menos queria ouvir porque não gosto mesmo. Só que ela ganhou e  com uma vantagem razoável e o mais engraçado foi que a galera (pelo menos a da arquibancada, de onde eu estava) vaiou o resultado. A primeira coisa que eu pensei (além de “que saco ter que ouvir esse lixo de música”) foi “ué, se ninguém gostou, quem votou então?”

Confesso que apesar de no meu caso ter ficado satisfeita com a maioria das músicas escolhidas, é um pouco estranho assistir um show que você já sabe exatamente as músicas que serão tocadas. Tudo bem que eu já vi dois shows praticamente idênticos do Paul McCartney mas nesse caso do  Metallica, eu (e todo o mundo) já sabia do set list e isso praticamente anulou o efeito surpresa que eu acabei sentindo falta durante o show.

James Hetfield

Depois da experiência, qual foi o balanço sobre um show interativo, algo que eu não me recordo de ter tido precedentes, pelo menos no Brasil?

O show foi sensacional apesar da chuva torrencial, da arquibancada lotadíssima e problemas menores. O Metallica ainda tem um vigor e uma energia que bandas mais novas inclusive, não tem. Tocaram os clássicos e entraram totalmente no clima da interação com o público, afinal, esse era o propósito principal do show. Só me ficou a pulga atrás da orelha: se ninguém gostou de só ter clássico no repertório escolhido, se ninguém gostou da música escolhida na hora, como ganharam? E se a moda pegar e outras bandas fizerem turnês interativas e com total pitaco do público, sofreremos com a insatisfação geral do mesmo público que vota nas músicas?

Eu gosto da ideia de outros artistas adotarem o “by request”. Claro que nem todo mundo vai sair satisfeito, mas assim é a democacia: vence a maioria e sempre vai haver reclamação de alguma parte.