No segundo dia de FLIP (leia o primeiro post aqui), teve um painel simplesmente incrível com a participação do poeta marginal Charles Peixoto, da jornalista Eliane Brum e do humorista Gregorio Duvivier. Eles discutiram a importância da palavra para a reinvenção do mundo e do cotidiano. Foi uma hora e meia de pura gargalhada e reflexão, tudo misturado com boa narrativa e bom gosto. São dois poetas que cultivam a prosa e uma prosadora que cultiva a palavra poética para mostrar que as fronteiras entre os gêneros literários não importam – ou só importam ao serem cruzadas. Uma verdadeira lição de poesia marginal! Rimos e nos emocionamos com as leituras! Venham conhecer um pouquinho mais.

Charles Peixoto estreou em 1971 com Travessa Bertalha 11, cem exemplares impressos em mimeógrafo. Formou, ao lado de Chacal e outros poetas, um núcleo de destaque da poesia marginal carioca, de inspiração hippie e psicodélica. Integrou o grupo performático Nuvem Cigana, pelo qual lançou Creme de Lua em 1975. A partir dos anos 80, dedicou-se a escrever roteiros para a TV e passou 26 anos sem publicar. Em 2011, retornou com a coletânea Sessentopeia pela Editora 7 Letras e, na FLIP de 2014, lança o volume de obra reunida Supertrampo, também pela Editora 7 Letras.

Supertrampo reúne (e relê) a obra do poeta desde o primeiro livro, invenção juvenil de tantos frutos, passando pela mais recente criação de quem já ultrapassou a primeira volta do relógio e indo além, com poemas esparsos recolhidos da imprensa e outros inéditos, para deleite de velhos e novos leitores.

charles peixoto flip 2014

A dicção dos marginais dos anos 70 se deixa ver também na produção contemporânea. É o caso de Gregorio Duvivier, elogiado pela crítica por suas duas primeiras coletâneas de poemas, A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora pela Editora 7 Letras e Ligue os pontos da Editora Companhia das Letras. Colunista do jornal Folha de São Paulo, Duvivier é ator e roteirista do Porta dos Fundos.

Ligue os pontos mostra que, para além da prosa humorística, o tratamento lúdico das palavras pode render poesia de qualidade. Refinada no curso de Letras da PUC-Rio – e elogiada por autoridades como Millôr Fernandes, Paulo Henriques Britto e Ferreira Gullar -, a escrita poética de Duvivier tem foco na importância descomunal dos momentos insignificantes do cotidiano.

gregorio duvivier flip 2014

A seu lado, Eliane Brum apresenta seu primeiro livro “puramente literário”. Conhecida por suas reportagens sobre “a vida que ninguém vê”, título de seu livro de estreia pela Editora Arquipélago, e por suas colunas na imprensa, atualmente no jornal El País, em 2014 Eliane lançou Meus desacontecimentos pela Editora LeYa, sobre o seu apaixonamento pelas palavras.

eliane brum flip 2014

De quantos nascimentos e mortes se constitui uma vida? De quantos partos uma pessoa precisa para nascer? Com quantas palavras se faz um corpo? A menina que flertava com a morte conta como foi salva pela palavra escrita. Em cada página, personagens fantasticamente reais incorporam-se: a irmã morta, que era a mais viva entre todos; a avó, comedida em tudo, menos na imaginação; a família que precisou de uma perna fantasma para andar no novo mundo; as tias que viravam flores para não murchar. Como repórter e escritora, Eliane sempre questionou a forma como cada um inventa uma vida e cria sentido para seus dias. Em Meus desacontecimentos, conta como ela mesma se arrancou do silêncio para virar narrativa. Neste itinerário de dentro para dentro, a autora percorre-se com delicadeza, mas sem pudor. Oferece-se ao leitor nua. Quase em sacrifício.

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