Hoje é o Dia do Soldado Constitucionalista e feriado no Estado de São Paulo. Meu esposo, muito apaixonado pelas histórias da antiga São Paulo  e militar, tem muito apreço por esta data e nos trás aqui um relato e explicação sobre as razões do feriado e o que se tornou conhecido como os principais fatos da Revolução Constitucionalista de 1932. Um pouquinho da nossa história recente, pesquisada com muito carinho!

“Senta A Pua”, “Paulistas ás Armas!”, “Ouro para o bem de São Paulo”, “MMDC”, “Levante Militar”. Todos esses adjetivos são correspondentes ao feriado de 09 de Julho, que veio para comemorar o dia do Soldado Constitucionalista e, que também e homenageia os heróis da revolução de 32.

Essa grande revolta, ou movimento, aconteceu entre os meses de Julho e outubro de 1932 como resposta a revolução de 1930, que colocou no poder o Presidente Getúlio Vargas, derrubando o seu antecessor, Washington Luis . Com isso, acabou  a liberdade que os Estados possuíam (mas essa historia fica para outra oportunidade, hoje estou aqui escrevendo somente para homenagear esses heróis anônimos). Eu sou um grande entusiasta desta fase recente do nosso País, os acontecimentos que narrarei, são fatos que pesquisei na internet, ouvi de pessoas que conviveram com os combatentes e um pouco do que aprendi, pois apesar da pouca idade, tive a sorte de conhecer um ex-combatente, morador aqui da minha cidade, chamado Senhor Eurico, que pôde me contar algumas historias incríveis, algumas até engraçadas sobre as batalhas.

Seu Eurico foi um morador ilustre aqui de São Bernardo do Campo – SP. Faleceu já bem velhinho, mas antes de partir teve seus feitos reconhecidos, recebeu títulos e medalhas diversas, além de ser reconhecido como cidadão São Bernardense, sendo homenageado na Câmara Municipal com honrarias e tudo mais. Eterno combatente e muito fervoroso, tinha a revolução estampada no peito e contava com muito orgulho a sua saga durante o levante. Bastava perguntar-lhe algo sobre as batalhas que se ganhava uma aula de história! Apesar de não se envolver em nenhum confronto muito perigoso, ele pegou em armas, foi para o front e se fez disposto a morrer pelo bem de seu País.

A Revolução de 32 também ficou conhecida como revolução Paulista, porque começou aqui no estado de São Paulo o movimento que culminou com as batalhas em campo. Certa vez, perguntei ao seu Eurico se ele carregava armamentos pesados com alto poder de fogo.Ele deu uma risada gostosa e disse: “Claro que não! A gente ia com a cara e a coragem. Todos tinham armas, porém nossa maior aliada era a MATRACA“. Para quem não sabe, a matraca é um equipamento usado como subterfúgio para enganar o inimigo.Tratava-se de uma manivela, acoplada a uma roda dentada que, quando girada, reproduzia o som de uma metralhadora. Então, durante os combates, quando a munição já ia ficando escassa, entrava em cena a MATRACA. Alguns soldados começavam a girar a manivela e o som produzido dava a impressão de que o pelotão era bem maior. Não sei dizer se essa era uma prática comum, porém segundo o senhor Eurico, por várias vezes o resultado foi satisfatório!

O Estado de São Paulo, principalmente com a força da cidade de São Paulo, entrou na guerra sozinho, sem o apoio do resto do País e combatia o exército de aliados de Getúlio, os chamados Getulistas, que contava com a força de vários Estados brasileiros, mas São Paulo seguiu firme em seu propósito.

Como medida de emergência se criou o programa Ouro para o bem de São Paulo, onde quase todos os paulistas doaram suas joias para o Estado, visando fazer dinheiro para armar o exército e manter os combatentes no front alimentados e amparados. Esse programa teve alguma rejeição e, até hoje, se duvida que todo ouro fosse realmente revertido para a causa, porém fez grande diferença para o moral dos homens.

Mas a guerra não se fez apenas com trocas de tiros e embates sangrentos, ela se fez também com a notícia. Corria nos jornais que São Paulo estava indo bem, que conseguia ganhar território e vencia todas as batalhas. Mas era mentira. Para quem não sabe, a informação também é munição em batalhas. Para manter o moral elevado, se noticiava vitórias onde não havia (mas mesmo nas guerras modernas essa pratica  é usada). Isso não se caracteriza como desonestidade, mas sim estratégia. Tanto é verdade que, os inimigos, ao lerem essas notícias, ficavam confusos e às vezes, até recuavam para refazer táticas, abrindo espaço para São Paulo progredir e ganhar terreno. Mas verdade seja dita, nós Paulistas lutamos bravamente e com a verdadeira honra.

Aqui na cidade, longe do barulho dos morteiros, a Revolução seguia forte, as mulheres se empenhavam em costurar as fardas, providenciar a alimentação, curar os feridos de guerra e, além de tudo, tinham a missão de manter a organização familiar funcionando. Elas ficaram sozinhas com seus filhos mais novos, pois seus maridos junto com os  mais velhos tinham se alistado, vários até como voluntários para entrar na Revolução. As mulheres que não eram casadas geralmente se alistavam para serem enfermeiras, e ajudaram muito, fazendo grande diferença para as tropas.

Ainda na cidade, os combatentes eram vistos como heróis e está ai a base deste meu artigo, sempre achei que homens assim tem muito valor, lutaram por um ideal e mesmo com inúmeras dificuldades se mantiveram firmes até o fim. Mas inicio este parágrafo para falar de uma pessoa em especial, um combatente que não foi para frente de batalha, mas se fez importante devido a sua capacidade de comando.Estou falando do General Julio Marcondes Salgado, que na época era Coronel.Este homem se fez na FORÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO, ingressou soldado e chegou a general após a sua morte trágica durante a Revolução, mas para explicar melhor, tenho que falar sobre a Força Pública. A nossa Policia Militar, na década de 30, não tinha esse nome, era conhecida como Força Pública e tinha como um de seus soldados o Senhor Julio Marcondes. A força atuava como polícia nas grandes cidades e teve muita influência contra as tropas Getulistas.

Julio se destacou entres os demais e fez carreira dentro da corporação. Na época dos embates ele já comandava um pelotão. Durante as ações, ele convocou uma junta militar para testar um canhão no quartel no centro da cidade de São Paulo, após escolher o equipamento e prepará-lo para disparar, algo deu errado e o canhão explodiu matando o então Coronel Julio e ferindo outros que ali estavam, foi uma perda grande para o Estado, perdia-se ali um grande estrategista.

Gosto muito dessa passagem, porque faz parte da minha história pessoal. Minha mãe sempre me contava toda vez que íamos ao Museu Paulista (Museu do Ipiranga), que ali dentro havia um quadro enorme, de proporções generosas, que fazia homenagem a um “primo irmão da minha Avó”, que então era meu primo de 3º grau. Como eu era muito jovem, ouvia aquilo ficava interessado, mas não passava disso. Porém quando cresci passei a pesquisar sobre o assunto, e vi que esse homem era bem mais próximo de mim do que eu imaginava. Isso ajudou a despertar em mim a vontade de espalhar a história desses combatentes e comemorar sempre o dia 09 de Julho. Por isso, aconselho a todos que quando possível, irem aos desfiles, levarem seus filhos e convidarem seus amigos a participar sempre de eventos como esses.

Apesar de termos perdido a guerra, São Paulo foi crucial para criação da constituição e o fortalecimento da democracia. Por isso, temos que glorificar nosso passado e entender nossas histórias para não repetirmos os mesmos erros.

Meu nome é Fábio Cavalcante, sou esposo da Luciana Fogo, pai da Larissa Fogo, ambas são colaboradoras do blog e me considero um pesquisador livre da história Brasileia e fã de Pizza.

Compartilhe: