Aos mais desavisados, Tim Burton pode ser só mais um cineasta que dirige e/ou produz filmes excêntricos, com um “quê” de terror, e que adora inserir cenários escuros, castelos, caveiras e tudo que é relacionado ao visual. Sim, ele também é, mas, existe muito mais coisas a ser analisar por detrás desta faceta monstruosa que o cineasta possui, cobrindo a verdadeira genialidade dele.

 

E o que se tem para analisar?Muitos podem perguntar… Simplesmente que, por mais que esteja disfarçado nesta faceta aterrorizante, Tim Burton investe sempre no que nos rende um bom conto de fadas, mesmo que às avessas, além de embutir nos filmes e/ou curtas, críticas à sociedade que, um telespectador mais esperto tira de letra.

 

Creio que o melhor exemplo de todos (tanto que se aplica no quesito crítica à sociedade americana) e que também se aplica ao quesito conto de fadas moderno, é o Edward Mãos de Tesoura. Este filme nos conta a trajetória de um inventor de meia idade, que queria muito produzir um ser de carne e osso. Antes de concluir sua invenção, o cientista morre e deixa no lugar das mãos, enormes tesouras. Estas tesouras, impediam, é claro, que a “invenção” do cientista pudesse levar uma vida normal em meio à sociedade.

 

No decorrer da história, a “invenção” é encontrada por uma vendedora da Avon (crítica à uma sociedade consumista que só pensa superficialmente) que acaba por levá-lo para sua própria casa. Edward, “a invenção”, se apaixona pela filha da vendedora, mas eles não podem ficar juntos, porque é óbvio, tesouras, mas, mesmo assim, esse “romance” nos rende muitas cenas de um lirismo e romantismo profundo, mesmo que eles não possam ficar juntos no final.

 

edward mãos de tesoura

 

E a crítica? Bom, desde o início, Tim Burton faz questão de mostrar a cidade no modo “American way of life”, justamente para satirizá-lo e levantar o questionamento de “até onde o ser humano é capaz de ir para demonstrar uma posição que eles não tem, mas TEM que mostrar que tem?”. Outra questão é “como se consegue montar uma vida de mentira, fingindo estar completamente feliz, sendo que por dentro, você não é e não quer, principalmente, não sendo nada daquilo que você transparece?”. Mais uma: “tanta sincronia e perfeição assim, é normal? Ou é só mais uma anomalia da sociedade?” e por fim, “será que você realmente é ruim por ser diferente? Ou isso é só mais um preconceito imposto?”. E para vocês verem como o diferente é discriminado, é exatamente isso que acontece com Edward, mesmo ele sendo um doce de pessoa, acaba por cometer o pior dos crimes da humanidade, que é simplesmente, ser diferente!

 

Um outro filme que eu acho que é uma crítica (e muito escrachada) à sociedade, é o Noiva Cadáver. Sim, ele mesmo! Sei que ele é tido como um dos filmes não muito bons de Burton (embora eu ache ótimo). Este filme vem nos mostrar, escancaradamente, como a sociedade se condiciona a realmente não transparecer ou até mesmo, ousar a ser algo diferente, por simplesmente não contradizer o que a grande maioria diz.

 

São dois mundos, os dos vivos e dos mortos, mas, o mais interessante é perceber que o mundo mais ativo, colorido e divertido é exatamente o mundo de quem? Isso mesmo, dos mortos. A superfície é um lugar muito mais fúnebre, contido, pálido e sem graça e por quê?! Ah… O povo lá no mundo dos mortos simplesmente não está mais vivo, não devem mais nada para ninguém, não está mais sob regras estipuladas. Bom… É de se pensar.

 

noiva cadaver

 

E até mesmo hoje em dia, por mais que todos digam que Tim Burton não está em sua melhor fase, ele não deixa de dar as suas pitadas irônicas (?!) com relação à sociedade, basta ver Barnabas Collins saindo do caixão, depois de 300 anos, olhando o símbolo do MC Donalds e questionando: Mefistofeles?

 

Mefistofeles

 

E sim, há muito ainda para citar, O Estranho Mundo de Jack, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Frankenwennie e etc. Cada um com sua pitada de conto de fadas ou crítica, depende da história, mas o que eu queria passar é que há muito mais para se observar em Tim Burton do que as caveiras, castelos e monstros. O autor vem sempre com críticas muito bem elaboradas e um pouco de encanto, por quê, não?

 

o mundo fantastico de jack

 

Com suas histórias que nos espantam, nos surpreendem e que nos mostram que, com o sinistro também se encanta, com o sinistro, também se encontra o belo, e mais um paradigma é quebrado.

 

Perfil Natalia

Natalia Cordeiro

Pelo nosso fantástico e glorioso, Tim Burton.
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