Levanto-me cedo, no dia 30 de maio; não consigo dormir em função da série de acontecimentos que vinham ocorrendo, durante minha hospitalização. Tenho muito o que fazer, além do comercial que rodei, não pude recusar o convite para almoço na casa de Vanessa. Mas outro compromisso importante me aguardava, preparar a crônica da semana para o “Estadão”, e isto era para o dia seguinte. Descrevo aqui uma grande coincidência, não sei se fui levado pela minha inquietação, ou se foi mesmo uma premonição que me fez escolher um relato que se passou aqui mesmo em São Paulo. A sombra da cobra foi publicada no jornal de Porto Ferreira (SP), inaugurando esta minha coluna.

Mas, na realidade, o que me fez escrever este relato foi uma coisa que até hoje, com mais de 51 anos de carreira, me faz rir; é quando se fala de inspiração: coisa de artista. Não é fácil, acreditem, contar com a inspiração para cumprirmos a obrigação de escrever um roteiro, um conto ou crônica com dia e hora marcados para entrega. Já pensou se eu fosse depender dela para tudo o que eu faço? Graças a deus, minha mente nunca me deixou na mão, é claro que minha vivência também ajuda, e muito. Este dilema sempre mexeu com minha cabeça. É claro que muitas coisas eu escrevi inconscientemente, quase que psicografando textos, mas isto é um assunto para uma matéria específica. Mas a procura desta tal fonte de inspiração já me fez testar diversas fórmulas para escrever, todas em vão. O que sempre aconteceu é que o início sempre me é dificultoso, mas assim que escrevo as primeiras palavras, só paro com o assunto finalizado. Após a enxurrada de palavras ter secado, passo a limpo o que acabei de escrever. As vezes chega a criar um calo na mão, de tanto escrever, pois em função das unhas tenho que inclinar a mão. Mas voltemos ao tema, quando quis escrever sobre a dor, experimentei todos os tipos dela, nos dentes, ouvidos, a dos olhos me acompanha a mais de 10 anos, fraturas, operações, implantes de dentes, etc … E ainda assim , não consegui terminar a matéria.
O mesmo ocorreu quando quis fazer um relato sobre o medo. Já estive em cemitérios, no meio de tiroteios, em aviões no meio de tempestades (tenho pavor!) E nada. Outro fracasso foi quando tentei descrever a tristeza, mesmo vivendo em meio a ela, o álcool também não me ajudou, só me deixou mais deprimido. É claro que também acolhi a alegria como tema mas, apesar do júbilo que me cercava, foi debalde. Está mais do que provado, a única maneira que consigo escrever é sob pressão! Sempre em cima da hora, sendo cobrado, e não importa o assunto. Sou levado pela obsceção, e premido pela necessidade de cumprir prazos. Meus nervos ficam em frangalhos após a missão cumprida, mas durante o processo de criação, tenho a impressão de que sou possuído pelo “demo”, e minha obrigação é feita. E foi assim que consegui escrever, não só este relato, mas outros 4 temas nesta manhã de domingo. Agora vou para o centro da cidade, e acredito que hoje termino a gravação do comercial.
Pensamento: ao procurar por inspiração, procure primeiro saber se você não é a própria inspiração.