O Poderoso Chefão é uma das minhas histórias favoritas, seja nos livros ou nos filmes. O clássico não se resume em ser uma história épica com personagens e atores épicos, ele foi ainda um marco na história norte-americana, uma demonstração do quão poderosa a máfia sempre foi e sempre será. Mas a própria máfia não ficou muito feliz com essa exposição toda, saiba porque.

Hoje em dia é comum que homens poderosos imitem Dom Corleone e seus trejeitos, demonstra certo status entre aqueles de cacife bem alto. Mas na época em que o filme foi lançado, a máfia não curtiu tanto assim esse papo de levar sua história para os cinemas e, se eles tivessem conseguido boicotar, Coppola não teria feito o sucesso que fez com laranjas, charutos e muito, muito respeito pelo padrinho.

O que a máfia não curtiu, na verdade, foi aquela atenção toda que o povo começou a dar à ela – é de conhecimento de todos que eles sempre viveram à margem até mesmo dos criminosos tradicionais, eles eram um mundo a parte nos Estados Unidos. A máfia italiana então declarou guerra contra o filme e parece que sua proposta irrecusável era recusável sim e, graças aos cineastras americanos, o filme continuou sendo produzido.

godfather

No início dos anos 70, The Italian-American Civil Rights League (liga ítalo-americana de direitos civis) exigiu que a Paramount Pictures engavetasse O Poderoso Chefão. Cansada de ver os italianos sendo reduzidos a bandidos cruéis, a Liga organizou comícios em toda a cidade de NY, chegando a coletar US$ 500 mil para encerrar a produção.

Dizem as más línguas que, o objetivo da Liga não era tão nobre assim como eles pregavam. A organização havia sido fundada, na verdade, por Joseph Colombo, líder da família criminosa Colombo, uma das tais “cinco famílias” do crime organizado de NY. Cansado do que considerava ser assédio racial, por parte do governo americano, Colombo criou a liga para revidar.

Quando Colombo ouviu falar sobre o filme de gangsteres que a Paramount estava produzindo, decidiu que ninguém poderia assistir a tal atrocidade e começou a guerrear. Talvez Colombo, em seu íntimo, estivesse realmente preocupado com os tais estereótipos que estavam sendo criados, ou então, talvez ele simplesmente não quisesse toda a atenção que o filme traria para os seus.

Quando todos os protestos e entrevistas na TV começaram a não ser nada efetivos, Colombo resolveu tomar ações mais intensas. Não, ninguém acordou com uma cabeça de cavalo na cama e ninguém foi assassinado friamente em uma estrada deserta quando precisava apenas se preocupar com o Cannoli. Mas teve perseguição e ameaças.

michael corleone

Tudo começou com o produtor Al Ruddy, suas janelas do carro foram quebradas e ele ainda recebeu um bilhete sobre o perigo que ele estava correndo, caso o filme continuasse sendo gravado. O executivo da Paramount Robert Evans também recebeu um telefonema intimidante, dizendo-lhe para sair da cidade ou alguém iria quebrar sua cara e machucar seu filho. Os sindicatos controlados pela máfia italiana se recusaram a deixar Coppola filmar em determinados bairros e até roubaram equipamentos de filmagem para impedir a produção. Os escritórios da Paramount em NY tiveram que ser evacuados depois que receberam ligações com ameaças de bomba, duas vezes.

Com tanta coisa acontecendo, a Paramount decidiu convocar uma reunião com os criminosos. Al Ruddy se encontrou com Joseph Colombo no Sheraton Park Hotel e os dois discutiram o que iriam fazer com relação ao filme. Para a suspresa de Ruddy, Colombo só tinha uma única demanda: As filmagens poderiam continuar desde que a palavra “máfia” não aparecesse nem uma vez no roteiro. All Ruddy prontamente acatou ao pedido da máfia organização – até porque, a palavra só estava prevista para aparecer uma vez no roteiro.

Após esta reunião, Colombo ficou estranhamente entusiasmado com a ideia de um filme sobre gangsteres e ele e seus colegas começaram a aparecer no set de filmagens para visitar o elenco e toda a equipe – principalmente para conversar com Marlon Brando. Colombo ainda usou de sua influência para controlar quem atuaria no filme. Quando menino, Gianni Russo trabalhou para o chefe do crime organizado, Frank Costello, e foi um dos caras que ajudou a negociar os termos entre a Paramount e a máfia. Por seu trabalho árduo, Colombo garantiu que ele fizesse o papel de Carlo Rizzi, genro de Dom Corleone – quando a vida imita a arte.

joseph colombo

A história de amor entre os criminosos da vida real e os da telinha terminou meio mal, no entanto. Em 28 de junho de 1971, enquanto Coppola filmava as cenas nas quais Michael Corleone acaba com seus inimigos, a poucos quarteirões de distância, um assassino atirava em Colombo. O bandido trabalhou tão duro para apagar a máfia de O Poderoso Chefão que acabou apagado por chamar atenção demais para as cinco famílias. Todos os seus comícios, protestos e entrevistas saíram pela culatra. Colombo não morreu, mas passou o resto de sua vida paralisado e acabou por falecer em 1978.

Dados históricos: KnowledgeNuts