Para a galera do Rio: Grupo EmpreZa no MAR!

-por , em 14/05 -
Para a galera do Rio: Grupo EmpreZa no MAR!

O Museu de Arte do Rio – MAR abriu ontem (13/05), a retrospectiva do Grupo EmpreZa. Durante dois meses, artistas do coletivo goiano passarão os dias no museu realizando performances, num processo continuo de interação entre o grupo e os visitantes, que se tornam participantes da exposição em uma experiência inovadora no Museu. Para marcar a abertura da mostra, aconteceu um serão performático com apresentação de seis trabalhos do coletivo.

Dando continuidade ao seu projeto de abrir as portas para jovens artistas que vivem fora do eixo Rio-São Paulo, o Museu de Arte do Rio – MAR recebe o Grupo EmpreZa, na exposição Eu como você. A mostra é uma retrospectiva do coletivo que há 13 anos tem se dedicado a pensar o corpo, a performance, construções simbólicas e que atualmente conta com dez componentes – Aishá Kanda, Babidu, Helô Sanvoy, João Angelini, Marcela Campos, Paul Setubal, Paulo Veiga Jordão, Rafael Abdala, Rava e Thiago Lemos.

Com curadoria do Paulo Herkenhoff e do próprio Grupo EmpreZa, a mostra será dividida em duas salas. Na primeira, que leva o nome da mostra, Eu como você, o visitante entra em contato com a documentação – registros fotográficos e filmagens – de performances antigas, que ajudam a entender a trajetória do coletivo por meio de uma generosa seleção de seus trabalhos. Já a segunda galeria, Sua vez, será ocupada pelos emprezários e emprezárias e por artistas convidados para a realização de 21 performances, num processo continuo de interação entre o grupo e os visitantes, que se tornam participantes da exposição, promovendo uma experiência inovadora no Museu.

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No dia 13 rolou um serão performático, no qual o coletivo apresentou seis performances marcantes de seu repertório: O positivo, Endemias Cotidianas, Vila Rica, Descarrego, É que esse tempo também é Corpo e Risca Faca. No manifesto Eu como Você, o Grupo EmpreZa explica sua origem e fala do desafio de apresentar seu trabalho no MAR. “Não abriremos mão da nossa natureza selvagem. A antropofagia é inerente a nós, mesmo quando ela se manifesta em suas formas mais sutis, onde o que nos serve de alimento são apenas as palavras e a presença passiva de outro corpo.”
Mais adiante, a exposição ultrapassa as paredes do Museu e se alastra pela cidade. Ao longo dos meses de exposição – que fica em cartaz até 20 de julho – o Grupo EmpreZa irá ocupar uma residência no Rio de Janeiro onde artistas convidados poderão intensificar a troca de experiências e criação de novos trabalhos. Os resultados dessa vivência poderão estar presentes dentro das salas expositivas do MAR ou espalhados em intervenções e ações pela cidade.

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Confira abaixo as sinopses dos trabalhos do Grupo:

Pra que serve a língua: Depositando sangue dentro da boca, o performer escreve com a língua, em uma das paredes do espaço, a frase Eu como você.

Impenetrabilidade: Série de fotografias com corpos em confronto aéreo. As ações foram registradas em vídeo e fotografadas enquanto eram exibidas em monitor digital, capturando assim as características particulares de uma imagem veiculada digitalmente.

Sopa de letrinhas: O performer ingere uma grande quantidade de sopa feita com macarrão do tipo “alfabeto” e em seguida regurgita todo o alimento sobre a cabeça de outro indivíduo.

Sua Vez: Duas cadeiras são posicionadas para que dois performers se sentem frente a frente e comecem a estapear um ao outro. Em movimentos revezados, os artistas acionam um típico relógio de enxadristas, localizado em uma mesa lateral, para ditar o movimento da vez.

Antropofagia: Dois performers se posicionam um atrás do outro. O artista que está atrás, pouco a pouco, começa a ingerir os cabelos do performer à frente. Partindo das pontas dos fios, o performer que ingere segue colocando lentamente os cabelos em mechas para dentro de sua boca, para então seguir com movimentos sutis de deglutição dos fios. Quando a boca do performer que ingere alcançar a nuca do outro corpo, com dois passos o performer da frente se afasta arrastando os cabelos pelo esôfago de quem o ingeriu, até os fios se soltarem completamente.

Com Oriente: Performance de longa duração na qual o artista, usando uma máscara manufaturada estilo sadomasoquista e trajando vestimenta de tecido em algodão cru, é amarrado durante 16 horas em uma cruz de madeira, que é um dos símbolos do centro histórico da Cidade de Goiás.

Requiem da Vaca: Um dos performers assume o papel de mestre de cerimônia ao promover uma espécie de “missa de réstia”. Panfletos (estilo hinários típicos das missas católicas) são distribuídos para o público presente e servem de guia para a celebração da cerimônia. Com uso de um megafone, o texto, produzido pelo Grupo EmpreZa, opera ora com a atuação individual do mestre cerimônia, ora com a participação do público total.

Endemias Cotidianas: Usando vestes brancas e de corte simples, o performer se posiciona deitado no chão. No tronco, duas chapas de metal puído – uma à frente e outra atrás, fixas com barras rosqueadas – comprimem seu corpo mantendo seu rosto sempre virado para o lado. Na chapa metálica que fica na parte da frente se vê um crânio real de um animal de médio porte. No chão, uma série de ossos ressecados de vários bichos. O performer se levanta e, em seguida, senta frente aos ossos no chão, quebrando-os, um a um, em pedaços menores. Ao fim do processo, o artista recolhe os fragmentos de ossos e os coloca dentro de um saco de tecido cru. O saco é então fechado com uso de um cadeado e sua chave é guardada em uma bolsa do mesmo tecido, em meio a um grande volume de outras chaves. Para finalizar a ação, o performer distribui todas as chaves entre os presentes no local. Obs: uma peça sonora compõe o ambiente da ação e é construída a partir de captações sonoras do cotidiano comum, em rádios, TVs, Internet, nas ruas e em contextos simbólicos ao local no qual será apresentada.

Vitruviano: A sombra de um homem despido é delineada com seu próprio sangue, remetendo ao Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci.

Carma ideológico: Registro em vídeo. O artista se choca repetidas vezes contra o pilar de um edifício (Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro), testando os limites do próprio corpo.

Impenetráveis: Usando terno e máscaras de carne, os artistas se chocam uns contra os outros no ar.

Cravate: Registro em vídeo. Dois homens estão ligados por uma corda no pescoço e arrastam um ao outro pela rua.

Arrastão: Um homem de terno se arrasta pela rua, aderindo à roupa dejetos e sujeira do meio urbano.

Como Chama: Conjunto de ações que compreendem a relação do corpo com o fogo e a luz, fazendo uso de variados tipos de materiais combustíveis.

Itauçu: Registro em vídeo. Os artistas provocam o próprio corpo em relações intensas com elementos minerais, sobretudo a pedra, numa busca de aproximação visceral com ela.

Sehão: Registro em vídeo. Dois artistas circulam amarrados um ao outro por ataduras, carregando um ao outro alternadamente.

Villa Rica: Artistas interagem corporalmente com elementos essenciais da história do Brasil – sangue pedra e ouro –, amassando, com os pés, pedras dentro de uma bacia.

Jóias: Uma artista manuseia objetos tendo agulhas de ouro introduzidas nos dedos.

Mar & Eros: Os artistas têm as palavras “MAR” e “EROS” escritas nas costas. No decorrer da ação um texto-manifesto-criatura é lido em voz alta.

Exercício de Paisagem: Vídeo-performance. Uma cabeça que emerge da água de ponta-cabeça.

Paisagens Destiladas: Vídeo-performances. Recortes urbanos são filmados através de uma garrafa cheia de cachaça, distorcendo a paisagem enquadrada.

Cheia de Graça: Vídeo-performance. Uma mulher grávida despeja água em um pote por cima de sua barriga.

Descarrego: Um artista tem o cabelo pregado à parede e passa pela dor que seus movimentos ocasionam.

Porque EU quis: Registro em vídeo. Intervenção urbana que põe em evidência a frase “Porque eu quis”, dita por um policial que lançou spray de pimenta em manifestantes durante manifestos em Brasília.

Sangue Bom: Artistas coletam o próprio sangue e fazem uma mistura com água e pão para oferecer ao outro como alimento.

Maleducação: Dois artistas tentam alimentar um ao outro após terem as mãos e as bocas amarradas.

Tríptico: A obra Tríptico (ou Tríptico Matera) consiste na ação de três ou mais performers. Cada artista terá dois baldes de metalon (típicos para içamento de concreto), sendo um deles contendo de um litro de cola branca, além de um conjunto de materiais específicos – que variam, mas devem ser capazes de produzir resíduo material sólido em pó ou granulados. Cada um dos performers irá trabalhar uma das matérias em gestos de pilar, macerar, ralar, raspar, queimar ou qualquer outra ação que fragmente o material até virar pó, grão ou outro resíduo sólido que aproxime das características anteriores (esse gestual poderá ser feito com uso de ferramentas e utensílios à escolha do artista).
Após o tratamento, todo o material é depositado no balde vazio. Os artistas, fazendo uso de um pincel grosso, passam a cola branca no rosto, cabeça e tronco. Em seguida despejam todo material tratado em suas cabeças, impregnado seus corpos. Ao final da ação, os três se posicionam lado a lado e se esfregam uns nos outros (a partir da cabeça), promovendo a mistura dos materiais (e sua pictoriedade) entre os seus corpos.

Passante: O artista prega os próprios pés em livros.

O Positivo: Um performer se posiciona em um corredor estreito, aplica um escalpe para coleta de sangue em um de seus braços e começa a girar sobre o próprio eixo, fazendo com que o sangue que goteja deixe um rastro circular ao seu redor. Após demarcar bem o círculo, ele começa a girar os braços para frente, deixando agora um rastro de sangue nas paredes, teto e chão, cruzando o centro do círculo de sangue demarcado no chão. Essa ação deve ser realizada em corredores de acesso com grande fluxo de atravessamento de pessoas.

Apelação: Um performer se posiciona e começa a se despir no local da ação. Em um dado momento, as luzes do local se apagam promovendo um blackout total. Ao redor do artista nu, outros se posicionam munidos de algodão, pinças longas, álcool e fogo (depositados em uma tigela metálica). Os performers atearão fogo nas bolas de algodão e com o uso das pinças passarão pequenas chamas ao redor do corpo do artista nu, queimando os pelos do corpo do performer. Ainda em no escuro, todas as chamas são depositadas na tigela metálica enquanto o artista se veste e se retira do local da ação.

O Baile: Dois aristas cruzam os braços e mãos (um no do outro) em forma de concha. Após firmarem a posição, os performers gritam exasperadamente – o mais intensamente possível – um na cara do outro, atravessando a concha feita com as mãos.

Leviathan: Performance/instalação. O artista tem seu terno pregado à parede e vai se desvencilhando de suas roupas até conseguir sair.

Bombas: Coberto por uma espessa peça de couro cru (de vaca) e com uma máscara do mesmo material (confeccionada pelo Grupo EmpreZa), o performer caminha pelo local da ação, escolhendo espaços e momentos para arremessar bombinhas juninas no chão, próximas ao seu corpo.
Risca-Faca: Dois performers ficam de pé sobre uma peça inteira de couro de boi, na qual estarão posicionadas duas facas com cabos de madeira. Os artistas se despem, cada um pega um dos objetos e começa a riscar o copo. O movimento é revezado e cada artista buscará repetir o movimento do outro.

Candango: Após construir um pedestal de alvenaria, um artista de terno e gravata sobe em sua obra começa a destruí-la com golpes de picareta.

Mascarados: Os performers caminhavam mascarados pela cidade, distribuindo santinhos eleitorais, confrontando ritual e retórica da dor na cultura.

Serão Performático: É um termo criado/pensado pelo Grupo EmpreZa, apropriando-se da palavra “serão” – como “trabalho extraordinário noturno”, típico do trabalho em empresas – e da referência ao termo “sarau” – do latim seranus, através do galego serão – para determinar uma obra composta por vários elementos e ações performáticas que acontecem sequencialmente e/ou simultaneamente, possuindo um mesmo eixo poético.

Para maiores informações, acesse MAR.

Cris Siqueira
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Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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