Vale muito a pena ler!

Sempre nos parece faltar tempo. Tanto para quem está numa cidade de ritmo frenético quanto para quem mora em um lugar mais pacato. Dificilmente passamos ilesos aos milhares de estímulos. Somos bombardeados por informações a todo momento e por uma realidade que nos faz querer escapar quando possível. Mas, escapar para onde? Escapar como se a vida não nos deixa parar? Hoje existem muitas formas de se transportar para outros lugares e realidades e, muitas vezes, estão na palma de nossas mãos. E, a pergunta que fica é: o que cabe no nosso tempo?

UNIVERSO PARTICULAR

Diante da escassez de tempo para dar conta de todas as atribulações e obrigações da vida cotidiana, cada um encontra a própria maneira de encaixar, em meio aos deslocamentos e às permanências diárias, a pausa necessária para direcionar os olhos e acompanhar alguma narrativa audiovisual. Seja pela duração de um episódio de série ou um longa-metragem, a interrupção da realidade cotidiana por meio da imersão nesses universos diz respeito a como permeamos o dia com brechas para o escapismo.

Essa maleabilidade existe porque o ser humano é capaz de modificar sua relação com o tempo, encompridando ou diminuindo a sensação da passagem dos segundos, minutos e horas do dia. De acordo com o Dicionário de Símbolos de Jean-Chevalier e Alain-Gheerbrant, sair do tempo significa sair totalmente da ordem cósmica para adentrar outra ordem, outro universo. O tempo, assim, seria indissociavelmente ligado ao espaço. A depender de onde se está, a noção de “dia” ganha contornos e ritmos próprios.

O ritmo frenético da vida urbana parece associar a vida à angústia de uma ampulheta sempre em desvantagem: como um artigo de luxo escasso, a atenção de cada pessoa é dividida, na maratona diária da vida comum, com estímulos visuais, informações e interações que não pedem licença: estamos todos no registro do excesso. Um paulistano, por exemplo, chega a ter acesso a 20.000 marcas por dia.

Por outro lado, ao trocar o cenário e ajustar o olhar ao ritmo da natureza, em um parque ou no campo, mudam também as sensações de lentidão ou urgência. Passar um tempo num parque, contemplando a natureza, é como voltar para casa, é pulsar no ritmo natural do ciclo de vida. Ao passar o mesmo tempo dentro de um carro, conversando com amigos pela rede social, ouvindo música e prestando atenção no trânsito, tem-se uma experiência de tempo completamente diferente. Num parque, a sensação pode ser de que o tempo passa mais devagar; já para quem faz várias coisas simultaneamente, parece que o tempo voa.

QUESTÃO DE ESCOLHA

Com a difusão e avanço das tecnologias digitais e o poder de escolha nas mãos do consumidor, é possível que as pessoas estejam conectadas em diferentes espaços ao mesmo tempo. Com isso, o consumo de filmes se expandiu para ocupar outros meios e oportunidades, se adequando ao tempo e ao momento que cada um dedica a isso. E, junto com o filme podem vir os games, conversas em redes sociais, memes… Afinal, não se trata de uma coisa ou outra, mas de uma coisa e outra, às vezes ao mesmo tempo!

“É criar um intervalo de tempo e espaço dentro dessa rotina programada que vivemos. É se permitir afetar por experiências que estão fora do mundo real que consome nosso tempo e determina nosso espaço no mundo. Os ‘eventos’ com maior capacidade de gerar tal fuga na nossa sociedade são as práticas esportivas e as linguagens artísticas e estéticas. Em termos de linguagens artísticas, são o cinema e a música que ocupam espaço mais relevante na indústria de entretenimento global. Essas duas linguagens são meios pelos quais milhões de pessoas se permitem deslocar da realidade no sentido mais opressivo que esta lhe impõe.” – Miguel Jost, pesquisador especializado em políticas públicas para cultura, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio e professor de literatura brasileira

FILME COMO EVENTO

Quando a sessão de um filme acaba e saímos da sala de cinema, normalmente depois de algumas horas de imersão focada e ambientada no escuro, é comum perder a noção de espaço e tempo. Na ambientação das séries, a relação muda de figura: quando uma série termina e chega à sua temporada final, muitas vezes isso surge como algo indesejado, pois o vínculo afetivo nutrido pelos personagens se torna como a torcida de uma testemunha ocular. É quando ocorre a abstinência das séries que, com sorte, será curada com a dedicação à próxima da lista. O tempo dos filmes, dessa forma, é diferente do tempo das séries, e as relações se moldam de formas distintas.

“Fazendo uma analogia de relacionamento: um filme é como estar na balada e ficar com alguém; uma série é você se envolver com a pessoa e namorar, é totalmente diferente.” (Adriano, 25, relações públicas)

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FILME É EVENTO…

Normalmente ocupa um tempo do final de semana

É consumido em locais “ritualizados”, como as salas de cinema, o canto cativo do sofá…

Frequentemente apreciado na companhia de quem se gosta, um “tempo livre conjunto”

Envolve preparativos e “cenários”, como fazer pipoca (cinema ou casa), regular a luz certa e, se em casa, providenciar a coberta para deixar mais confortável

Instiga emoções mais afloradas, como risos, choro, adrenalina, medo

…SÉRIE É ROTINA

Também se assiste aos finais de semana, mas as séries ocupam mais tempo no cotidiano (na hora do almoço, durante a academia, à noite antes de dormir, etc.)

Isso vale tanto para quem assiste um único episódio por vez (minoria) como para quem assiste mais de um (maioria)

Normalmente sozinho, pois cada um assiste no seu próprio tempo

“O filme em casa é capaz de gerar um sentimento de partilha, de comum, de proximidade, de parceria. Tanto em relação a um casal de namorados, quanto em relação à família em suas diversas formações. Um neto que mostra um filme para um avô, uma mãe para os filhos, entre irmãos, entre primos. Um casal que se conhece tem como forma de se aproximar o ato de mostrar filmes que foram importantes para a história de cada um, ou mesmo dos dois, e assim descobrir afinidades e coisas sobre ambos. É uma forma de convidar alguém para se aproximar. Convidar alguém para compartilhar visões de mundo, afetos e percepções mais íntimas e singulares.” – Miguel Jost

Uma das principais razões pela popularização das séries é que, por terem duração muito maior do que os filmes, elas causam efeitos similares aos dos livros: exploram as peculiaridades das personagens e seus universos de maneira tão detalhada que o público cria vínculos pessoais e passionais mais prolongados – embora isso ocorra, em outro registro, com os filmes. Afinal, todo mundo tem a sua lista de “filmes da vida”. Como tudo é entretenimento, as diferentes percepções podem ser vivenciadas em tempo, espaços e relevâncias distintos, pois o dinamismo do cotidiano dá o ritmo para interromper o olhar do mundo concreto e direcioná-lo para outras histórias, personagens e possibilidades. Em meio às opções do que assistir, encontraremos o encaixe dessa pausa: tanto a busca descomprometida por um filme ou o engajamento inspirado pelas séries demonstram que a vida pode ser sentida num instante e histórias podem ser narradas com a duração dos batimentos que o coração permitir.

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O QUE SIGNIFICA ASSISTIR A UM FILME?

1. Fuga da realidade

A rotina que ordena os nossos dias – acordar, ir ao trabalho, estudar, socializar – forma aquilo que chamamos de realidade. “Real” é a história que cada pessoa protagoniza em sua própria vida, com enredos variáveis e alternância de papéis. As portas para essa ruptura são variáveis: desde eventos como as práticas esportivas até a exposição a linguagens artísticas e estéticas.

2. Concentração e relaxamento

Arte é veículo para a criatividade e a imaginação. Contar histórias e criar mundos por meio do cinema, entre outras formas de expressões artísticas, induz corpo e mente a se conectarem completamente às narrativas apresentadas. Nesse sentido, assistir a um filme, seja em casa ou no cinema, corresponde a um momento de pausa e concentração, que difere da grande maioria da programação televisiva, a qual permite uma audiência descompromissada.

3. Unir e estar junto

Ir ao cinema convidado ou assistir a um filme no sofá acompanhado: normalmente esse é o tipo de programa que as pessoas fazem na companhia de quem se gosta. O tempo de duração de um filme é um tempo dedicado, frequentemente, à socialização, seja com a família, amigos ou outros relacionamentos afetivos. Estar junto envolve expressar as emoções despertadas pelos filmes e também trocar opiniões e interpretações a respeito dele.

4. Dentro ou fora de casa?

Assistir filmes demanda tempo, também espaço. Se não em casa, quando há uma constância de tempo livre e concentração no ambiente externo, surgem poucas situações propícias para assistir filmes em viagens de avião ou quando as pessoas baixam em devices para assistir no trajeto. Entre outros motivos, não é um hábito assistir a filmes em situações de locomoção, pois:

Consome bateria
Causa insegurança de furtos e assaltos
Demanda foco e concentração difíceis de manter
Impede que as emoções sejam expressas sem pudores

O tempo não passa rápido ou devagar, é nossa percepção sobre ele que muda diante de uma rotina atribulada ou não. E, com tantos estímulos e ofertas de conteúdo, quem vive nas grandes cidades está sempre no registro do excesso e com a sensação de que falta tempo. Mas, estamos sempre preenchendo esses buracos no tempo de alguma maneira. Quando optamos por filmes ou séries para preenchê-los, ao contrário do que muitos pensam, temos experiências de consumo diferentes. Enquanto o filme tira o espectador da realidade, o faz viajar e se projetar em outra realidade, trazendo reflexão, conhecimento e uma forte conexão com a história; as séries rodam numa frequência mais frenética, gerando ansiedade, vicio e uma forte ligação com os personagens. A relação com o filme é fugaz, com a série ela se prolonga. Cada um se encaixa melhor em um momento. Os filmes tendem a agregar mais e a série costuma ter um consumo mais individual. Então, se algum dia você acabar se apressando e assistir a um episódio antes do seu parceiro de séries, não se preocupe! Faz uma pipoca e vai ver um filme pra fazer as pazes.

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