Game of Thrones: Do livro para a série!

-por , em 30/05 -
Game of Thrones: Do livro para a série!

Qualquer adaptação de um livro para um filme (ou uma série) necessariamente provoca diversas alterações na estória contada, já que a árdua tarefa de transcrever um calhamaço de páginas para algumas horas de cenas filmadas invariavelmente obriga o resumo e a eliminação de trechos inteiros da obra original, e até mesmo a supressão de alguns personagens.

Claro que o resultado final sempre agrada a uns e desagrada a outros. Geralmente, estão incluídos neste segundo grupo aqueles que leram o livro, sobretudo se o leram há pouco tempo e a estória está ali, bem fresquinha na memória. As reações vão de rápidas reclamações à condenação total da adaptação. Este comportamento, contudo, é geralmente passional e desaparece com a posterior compreensão de que não havia como ser diferente.

E assim, terminada a segunda temporada de “A Guerra dos Tronos”, temos, como o esperado, uma legião de leitores do livro que odiaram as liberdades criativas da direção da série. Afinal, a temporada foi assim tão diferente do livro?

Bem, comecemos pela boa notícia: o principal foi mantido, e a estória não saiu dos eixos. Nenhum personagem teve seu destino ou caráter muito modificado, e as tramas paralelas ocorreram quase todas do mesmo jeito. Se alguém que assistiu às duas primeiras temporadas da série tentasse ler o terceiro livro, conseguiria acompanhar o que está acontecendo no momento, ainda que com um pouco de dificuldade no início.

Agora, a má notícia: os detalhes, estes sim, foram bastante alterados. E quando se fala em uma obra minuciosa como as Crônicas de Gelo e Fogo, onde uma pequena ação define a personalidade de um personagem ou um pequeno acontecimento alavanca toda uma série de eventos posteriores, isto preocupa.

Dito isto, vamos à lista de principais diferenças desta temporada em relação ao segundo livro. É claro que se você não assistiu à série ou leu a obra, vai ser bombardeado com uma bateria de spoillers. Leia por sua conta e risco. E fiquem tranqüilos aqueles que pararam onde a série e o 2º livro pararam, pois também não vou passar daí.

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Renly Baratheon e Sor Loras Tyrell… gays? Não há qualquer referência a isto nos livros. Os dois personagens são apenas grande amigos, como tantos outros na estória. Claro que sempre pode se dizer que nas entrelinhas da amizade, algo era sugerido, mas a mim confesso que esta sugestão passou despercebida. Nada contra a mudança em si, mas fica a pergunta: as cenas de sexo entre os dois deveriam ser tão longas enquanto outras muito mais importantes eram abreviadas?

Sexo. Muito sexo… Nas Crônicas de Gelo e Fogo, sexo é o que não falta. Mas acredite: a série é bem mais apimentada que os livros. Há muito mais cenas de sexo, e até existe uma personagem (a prostituta visitada por Varys no último episódio da temporada) que só aparece muito rapidamente no primeiro livro, mas que é aproveitada pela série toda vez que se precisa de uma, digamos, esquentada nas coisas.

Davos Seaworth e Briene de Tarth… Dois personagens importantes apresentados no 2º livro, Davos, o ex-contrabandista conhecido como o Cavaleiro das Cebolas, e Briene, a valente espadachim que jurara lealdade a Renly, foram ofuscados, pelo menos nesta temporada. Ainda que sua importância vá aumentando conforme a série for progredindo, fica a pergunta: porque perder tempo com cenas não tão fundamentais quando você tem personagens com a importância diminuída por causa da falta de tempo?

Sansa e Dontos… Embora a maior parte dos acontecimentos com Sansa tenha sido mantida, Sor Dontos, o cavaleiro bêbado poupado por intervenção da Stark no duelo em homenagem ao aniversário do Rei Joffrey, foi abandonado pela história. O agora bobo da corte é uma esperança de fuga para a donzela, e promete levá-la em fuga antes que seja morta pelos Lannister. No último episódio da temporada, Mindinho surge e, em uma conversa com Sansa, percebemos que será o seu personagem quem irá executar as ações que cabiam a Dontos. Isto, no entanto, não prejudica em nada a série, como provavelmente se verá no futuro.

Robb Stark e sua esposa… Ok, o casamento realmente ocorre, embora não naquele momento, e nem mesmo é mostrado – apenas citado no terceiro livro. O que mais foi alterado, no entanto, não foi o casamento, mas a noiva, que no livro é uma típica nobre (que dificilmente iria pra uma frente de batalha), e o detalhamento do romance (o livro não perde uma só página com isto). Ocupando mais espaço do que deveria, o relacionamento talvez tenha sido mostrado apenas para justificar a atitude impensada de Robb frente às óbvias conseqüências vindouras. O que é uma bobagem, já que ninguém precisa de explicação para saber que um casal de jovens pode se apaixonar e meter os pés pelas mãos.

Tywin Lannister… O personagem (um dos melhores de toda a série, diga-se de passagem) foi enfraquecido nesta temporada. Isto porque o patriarca dos Lannister, duro e frio como uma pedra de gelo, provavelmente jamais perderia tempo conversando com uma criada, mesmo que de origem nobre (como ele desconfiou que fosse Arya), a não ser que visse ali uma chance de ganhar algo em troca. A personalidade cruel e sagaz de Tywin foi substituída por uma mais tolerante e condescendente, um pouco burra até, já que não teve a curiosidade saber quem era a criada que sabia ler e falar sobre história. Aliás, aquele papel de comandante de Harrenhal durante a guerra nunca coube a Tywin, e sim a Roose Bolton, a quem Arya realmente serviu. Uma curiosidade é que Tywin Lannister fica desaparecido por quase todo o 2º livro, e surge como um salvador de Porto Real somente em seu final, de forma surpreendente. Surpresa esta que não houve na série, já que vimos sua partida de Harrenhal em direção ao centro do reino.

Tyrion Lannister… Quase tudo com relação ao personagem foi mantido, mas um detalhe gráfico que eu esperava ver na série foi descartado (talvez por questões técnicas, ou para evitar chocar demais os espectadores): o anão, que já sofria com o desprezo em relação ao seu nanismo, teve uma deformação em sua face muito mais terrível ao final do livro. O golpe que recebera de Sor Mandon fora tão forte que o anão perdera dois terços do nariz. Sim, Tyrion agora é um anão com o rosto deformado… e nem nariz tem mais! Pobre Duende!

Daenerys… Aqui, a adaptação soou melhor que o livro. A verdade é que a saga da mãe dos dragões é muito chata no 2º livro, quando ela chega à Qarth e tem que negociar com os governantes e feiticeiros locais. Maçante! Mas a série atirou tudo isso fora, e mostrou apenas a chegada e a saída da loirinha daquela cidade enlouquecida. Ainda bem! O que foi mudado? Bem, os dragões nunca foram roubados, Xaros não foi encerrado em cofre nenhum… enfim, esqueçam e preparem-se, porque Daenerys e seus dragões voltam a ser bem mais interessantes no próximo livro. Ou temporada.

Uma observação final: o nome do segundo livro é A Fúria dos Reis (A Clash of Kings). A Guerra dos Tronos é apenas o nome do primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo, mas por compreensíveis razões de marketing, o nome da série foi mantido o mesmo.

Cris Siqueira
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Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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