Essa talvez seja uma das frases que eu mais já ouvi na vida. Mais até do que “imagina na Copa” (trabalho com Turismo, o que faz isso ser repetido mais insuportavelmente). Sempre, absolutamente sempre que sai um filme baseado em livro, SHAZAM! O filme sai completamente diferente e todo mundo reclama. Ou sai o mais parecido possível e SHAZAM! Tudo mundo reclama de novo.

Não vou julgar ninguém porque eu mesma costumo, as vezes, fazer isso, mas tenho aprendido, ao longo dos anos, a entender porque isso acontece. E hoje, pra poder debater o tema aqui, eu vou usar o exemplo de um dos piores filmes que eu já assisti na vida, baseado em um dos melhores livros que eu já li na vida: O Lado Bom da Vida – que é cafona até no título, mas o livro merece ter cada parágrafo degustado.

Quando o filme saiu no Brasil, foi apresentado como “comédia romântica”, gênero que eu abomino tanto quanto o terror (não é por medo, é por achar ruim mesmo. Um dia eu explico). Foram feitas aclamadas críticas, indicações ao Oscar e etc. Eu só fui me interessar por assistir ao filme quando li uma sinopse mais detalhada em que falava sobre a bipolaridade do Pat Solitano. Como boa perturbada curiosa sobre assuntos psiquiátricos, fiquei com vontade de ver um filme que se chama “O LADO BOM DA VIDA“ [aqui vai um descontinho porque a culpa foi da tradução pro português. O título original é “Silver Linings Playbook”, uma expressão que, resumida, significa um conjunto de fatores ruins que desencadeiam para que algo bom aconteça].

O filme de Hollywood foi concebido a partir da ideia de entreter e vender. E isso não é de hoje, é desde 1900. Na verdade, desde Chaplin. Alguns com qualidade, outros nem tanto, mas o objetivo principal sempre foi divertir o público e lucrar com isso. Sejamos sinceros: filmes cabeça, pra pensar, refletir sem compromisso com o lucro é coisa de francês. E eu adoro, vale ressaltar. Então nada mais óbvio que usar uma receitinha mais que antiga: um livro bom, história bem contada (ok, alguns nem tanto, vide Comer, Rezar, Amar que comecei a ler dois anos atrás e tô na página 15 até hoje) e bota na tela, diria Datena. E desde então todo mundo reclama  “AI NO LIVRO NÃO ERA ASSIM!!!”. Eu também costumo fazer isso, mas depois de tantas desilusões cinematográficas-literárias finalmente aceitei que às vezes precisa ser assim.

o lado bom da vida livro

Antes de discorrer sobre o tema, vale a pena dizer que primeiro eu assisti o filme, depois que li o livro. Adotei essa prática há alguns anos pra que o impacto da decepção fosse menor. O Lado Bom da Vida, minha humilde opinião sobre:

1. O filme: um lixo. Tirando o Robert de Niro que sempre é maravilhoso e o Bradley Cooper que realmente provou ser muito mais que o amigo do noivo de ressaca, achei todo o resto desnecessário. Achei superficial e focado demais na história da dança da menina louca. Que aliás, merece um comentário a parte, a personagem Tiffany e a atriz, Jennifer Lawrence: ruins demais. Eu esperava uma personagem com um papel mais determinante com uma atriz mais talentosa. “AH THAIS, ELA GANHOU O OSCAR!” E daí? Até Roberto Benigni já ganhou Oscar, gente. Resumindo, o filme falou demais da dança da menina, que ela tinha que dançar, que ela era uma “louca” (e nem achei tãããão louca assim) e focou pouco, ao meu ver, no problema e na história do Pat Solitano que eram bem mais interessantes. Além do clichê cafona “tomei um pé, tentei superar, conheci alguém e supereizzzZZZZzZZZzzz.

2. O livro: narrado pelo Pat Peoples (até o nome do personagem no livro é mais legal) com uma simplicidade e inocência que torna a leitura agradabilíssima. Como é ele quem narra, você consegue identificar melhor quais os problemas do cara, como ele encara o lance de ficar longe da esposa, como ele de fato enxerga o tal do lado bom da vida. Sim, tem a chata da Tiffany, mas até no livro ela consegue ser menos chata. Tem a tal da dança e tudo mais, mas com uma importância menor do que no filme como faz parte do enredo da história dele. Tem pelo menos três pontos altos que não foram tãããão explorados assim no filme: a paixão dele pelo Eagles e como a saga do time afeta as relações com o pai principalmente; as sessões com o terapeuta indiano que são interessantíssimas (eu tenho um interesse especial por essa temática psicologia/psiquiatria então gostei muito) e principalmente, o que eu achei um
pecado não ter sido melhor explorado no filme, a relação do Pat com o irmão. No filme deu a entender que Jake – o irmão – gostava de se sentir melhor que o Pat todo ferrado, mas no livro não tem nada a ver e é uma relação muito bonita e fraternal mesmo.

Depois da experiência de ver um filme e ler o livro correspondente e ter opiniões absolutamente distintas, faço agora ainda mais coro ao velho ditado cultural: não julgue um filme pelo seu livro – e vice-versa.

POST ORIGINALMENTE ESCRITO PELA COLABORADORA THAIS CRUVINEL.

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