A frase que dá nome a este post foi um dos gritos entoados pela multidão que participou de um dos protestos na Avenida Paulista na última semana. Foi uma das que eu mais gostei também (a minha outra preferida foi “Brasil, vamos acordar! O professor vale mais que o Neymar!”).

Nesta semana que passou, cheia de manifestações pelo Brasil pra protestar contra tudo de errado que acontece por aqui, de gastos com a Copa até o fato de alguém como o Feliciano respirar, nós presenciamos um provável capítulo histórico do nosso país. A tarifa do transporte já baixou por aqui, como pedia uma das nossas primeiras reivindicações, e isso aumentou ainda mais nosso apetite por mudança. E mais vontade de ir pra rua gritar por isso.

Eu participei de duas manifestações nesta semana, ambas na Avenida Paulista em São Paulo. Devo admitir que o fato de trabalhar a metros da própria avenida facilitou, já que trabalho até tarde e muitas vezes me falta a coragem física pra participar de qualquer coisa. Também peguei um pedaço de um outro protesto pacífico no centro de São Paulo e uma parte de vandalismo e destruição no local Mas quero relatar aqui e dividir com vocês como foi participar da experiência – e como isso vai alterar algumas coisas do meu ponto de vista daqui pra frente.

As primeiras manifestações que aconteceram aqui em São Paulo começaram por causa do aumento da tarifa de ônibus/trem/metrô, de R$ 3,00 para R$ 3,20. Não sei como a notícia chegou pro resto do Brasil, mas nas duas ou três primeiras manifestações que ocorreram nos arredores da Paulista foram SIM pelos R$ 0,20. Mas não achei isso ruim não, muitíssimo pelo contrário. Eu pego tudo quanto é transporte pra trabalhar porque moro em Santo André, na região do ABC (cidade na qual o aumento na tarifa de ônibus ocorreu há quase um ano para escandalosos R$ 3,30!). Eu preciso pegar trem e metrô todos os dias para chegar ao meu trabalho e nada piora o meu já frágil humor matinal do que a CPTM, companhia que administra os trens metropolitanos.  Isso porque todos os dias (sem exageros: TODOS OS DIAS) alguma das linhas de trem espalhadas pela região metropolitana apresenta um caos porque algum trem quebrou, algum “imprevisto aconteceu por falta de energia”, por vandalismo, enfim. Na linha que eu pego, uma vez por semana pelo menos (juro, sem exagero!) acontece algo do gênero. O metrô de São Paulo é nacionalmente conhecido como caótico, em todos os sentidos. Tem estações organizadas e bonitas, mas linhas mais do que insuficientes. O típico “pobre mas limpinho”. E muito ineficiente também. Por essas e outras que é uma piada de mau gosto você aturar um aumento de passagem por um serviço realizado porcamente. Então “só os 20 centavos” do início fazia um certo sentido sim.

tarifas manifestações

Mas depois fomos percebendo que os vinte centavos a mais na viagem diária foi só a ponta do iceberg, a gota d´água, o ápice da sujeirada toda que acontece debaixo dos nossos narizes. Na terça-feira, um dia depois da grande manifestação geral contra tudo, inclusive contra a covardia da polícia contra manifestantes pacíficos, passei pelo Theatro Municipal porque ia encontrar uns amigos do meu antigo emprego ali pelo centro. No caminho tinha uma multidão carregando cartazes, marchando, gritando por um país mais justo. Tudo tão bonito e pacífico que eu me arrepiei e quis me juntar a eles (mas tinha compromisso e não pude). Mas senti, pela primeira vez aquele aroma de desejo de mudança real por parte da minha geração e isso era muito, muito bom! Passadas algumas horas, meus amigos e eu fomos embora para o metrô República que fica a metros do bar onde estávamos e não conseguimos entrar. Ao invés de jovens manifestantes, encontramos a Tropa de Choque marchando ferozmente. O metrô estava fechado e tivemos que fazer uma caminhadinha de uns quinze minutos até a estação Anhangabaú. O que vimos no caminho não foi nada democrático: um monte de lojas com a fachada destruída, vidros quebrados espalhados pelo chão, barricadas na Avenida Ipiranga, várias focos de destruição e gente de cara coberta por panos quebrando lixeiras, espalhando terror, saqueando as lojas. A polícia chegou em peso e pra falar a verdade eu não sabia qual possibilidade me aterrorizava mais: a de ser assaltada por um daqueles bandidos soltos ali pelas ruas ou levar uma bala de borracha na testa. Começaram a estourar algumas bombas e uma das entradas do metrô estava tomada pela fumaça. Tinha um grupo que estava com vinagre e meus olhos arderam tanto que eu quase fui pedir um pouco pra eles. Minha amiga ficou pensando o qual horrível deve ser cheirar vinagre, mas eu expliquei que perto do horror que é sentir seus olhos arder feito brasa (e eu uso lentes de contato e já convivo com a situação, numa escala menor), vinagre tem cheiro de Chanel 5. No fim conseguimos finalmente chegar ao metrô e fui ver na internet o que tinha acontecido e fiquei chocada com tanta violência.

A questão dos vândalos aliás, merece um parágrafo a parte: eles sempre existiram e sempre vão existir, mas é importante que não se generalize. Isso não são manifestantes, são aproveitadores e simplesmente não temos como impedir que eles existam. Contra esta minoria eu apoio a ação mais rígida da polícia sim, porque ninguém dessa classe de vândalos / bandidos está ali pra protestar alguma coisa, está ali pra roubar, quebrar, destruir patrimônio público. Mas repito, é uma minoria. Dizer que todo o protesto é formado por vândalos e que as manifestações são uma desordem é tão estúpido quanto se aproveitar de um momento de tanta grandeza histórica pra sair destruindo tudo.

Voltando aos protestos de verdade, no dia seguinte saí do trabalho e começava uma movimentação na Paulista, logo após o Governador e o Prefeito anunciarem que a tarifa iria voltar ao preço anterior por conta das manifestações. Não era uma multidão como nos dias anteriores, mas eu um pessoal vigoroso, gritando que aqui era só o começo. Me juntei a eles na caminhada completamente pacífica, olhei os cartazes, o que as pessoas queriam. Ali foi a maior comprovação de que de fato não eram só os R$ 0,20. Não era uma comemoração de “vitória”. Aquilo era só o começo MESMO.

Na quinta-feira cheguei à Paulista e ela estava LOTADA. Mas lotada mesmo, ninguém nem conseguia se mover. Muita gente com bandeira, com cartazes, gente jovem, gente mais velha, pedindo um país mais justo. Me enfiei ali no meio do povo e fui me juntando ao coro. Tinha de tudo, claro. Tinha coisa nada a ver como vendedor de cerveja, de cachorro-quente, gente com latinha na mão batendo papo no meio da manifestação. Não dava pra entender porque tinha gente fazendo daquilo uma micareta, mas ok. Tem de tudo e eles eram minoria. Mas o povo no geral estava entendendo o motivo daquela mobilização, absolutamente pacífica e legítima. As pessoas ali pediam a rejeição da PEC 37, saída do Feliciano, hospitais padrão Fifa, recursos para a educação, fim da corrupção, violência, desigualdade social. As pessoas que moram nos prédios ali da Paulistas saíam nas janelas,  tremulavam as bandeiras, piscavam luzes. Tudo aquilo que nunca vimos no nosso país e que, motivados pelos vinte centavos a mais no transporte público de péssima qualidade, fomos gritar na rua pro mundo ouvir as coisas erradas com as quais estamos cheios. Muito tem se protestado contra a Copa, o que eu acho válido porque afinal, precisamos de coisas muito mais urgentes e importantes do que estádios. Tem quem diga que esses eventos vão ajudar o Turismo, mas como turismóloga eu não acredito nisso. Acredito que um país precisa de uma boa infraestrutura para receber seus turistas, independente de Copa do Mundo. Mas eu acho que neste caso, deveríamos ter protestado em 2007, 2008, logo que a Copa, Olimpíadas e tudo o mais foi anunciado aqui. Agora não vamos poder derrubar os estádios pra construir hospitais, mas a indignação é valida, ainda mais com tanto ídolo do futebol do passado falando tanta abobrinha – e decepcionando admiradores. Né não, Pelé?

jovens manifestações

Eu nunca tinha participado de uma manifestação. Nasci no final do ano das Diretas Já, era muito pequena na época dos Caras Pintadas e nunca me mobilizei de verdade por outras causas. Mas é surreal você fazer uma passeata na rua pela qual você passa todos os dias com, sei lá, umas cinquenta mil pessoas (acho que tinha bem mais) e pedindo de verdade por um país mais justo. Pra mim, pra minha família, pros meus amigos, pros meus filhos que nem nasceram ainda. Eu quero participar de mais passeatas, mais manifestações e creio que o mais legal dessa onda de protestos foi isso: juntar milhares de pessoas, algumas engajadas desde sempre, outras como eu, nem sempre tão engajadas mas ali, mostrando pro mundo que o Brasil é grande e merece uma infraestrutura a altura. Não são todos vândalos, aliás, os vândalos são uma pequena minoria que nem ligam pro país e são aproveitadores, isso sim. Esse é um protesto de uma geração de saco cheio de tanta coisa errada. E que – assim esperamos – que continue seus protestos nas urnas, no ano que vem.

manifestações

O Brasil está mudando, o povo está mudando. E eu também. Deixei de só me indignar pelas redes sociais (sobre isso, falarei em outro post) e fui pra rua. E percebi que se eu gritar também, eu posso ajudar a tentar mudar alguma coisa nesse país. Não só eu, cada um de nós. Acho que o gigante acordou, mas nós também saímos do coma.

POST ORIGINALMENTE ESCRITO PELA COLABORADORA THAIS CRUVINEL.