Uns dias atrás, escrevi aqui pro blog sobre o Facebook/Google/Orkut e depois vendo os comentários, vi gente que não gostou do que eu disse: “naquela época nem existia celular direito – CRUVINEL, Thais”. Naquela época – 2004, 2005, época do começo do Orkut – já existia celular sim, mas que absurdo! Sim, eu sei e eu tinha um Baby da Telesp Celular (não interessa quantos anos eu tenho, mas eu tive isso aí) e talvez eu tenha me expressado mal. Óbvio que existia celular, mas como bem observou alguém, era uma época em que celular era pra fazer ligação, servir de despertador e jogar algum gamezinho bem tosco durante a aula.

baby telesp

De fato existia celular e quase todos os amiguinhos tinham, mas mesmo quando ele só servia pra ligar, a comunicação entre as pessoas não era tão fácil como é hoje. E vou mais além, não apenas a comunicação, mas a relação entre as pessoas. Não falo só na hora de jogar aquele xaveco furado maroto pra alguém mas também na hora de descobrir uns podres dos coleguinhas e até de namorado. Não digo que hoje seja infinitamente melhor porque há vinte anos as pessoas se relacionavam, tinham amigos e faziam festas do mesmo jeito. Mas digamos que hoje não existem mais desculpas do tipo “estou sem fichas pra te ligar”.

Sei que muita gente que lê aqui tem menos de 25 anos e não lembra assim de taaaanta coisa, mas comparemos um pouco como a vida era dura lá pelos meados dos anos 90, como se aguentar os pagodinhos e a Carla Perez já não fosse suficiente:

1. Na hora de conhecer alguém interessante

Antes: nessa parte não sei muito dizer porque quando fui começar a entender o que era paquerar já existia celular (é, eu comecei meio tarde). Mas baseada em amigos mais velhos e até meus pais posso dizer que era tudo na base do telefone fixo, lógico. E não dava pra ligar a qualquer hora, o que muitos enxergam como vantagem: a pergunta “que horas você vai estar em casa?” costumava ser embutida naquela perguntinha toda charmosa “posso te ligar? 😉”. E na hora de atender o gatinho, era torcer pra não ter ninguém na sala porque né, nada podia ser mais desanimador do que você conversar com o menino com o seu pai no sofá da sala fingindo que tá prestando atenção na televisão.

Hoje: ah, nem precisa falar né? Facebook tá aí pra isso. Hoje você conhece alguém, saca o celular e já procura o perfil da pessoa ali mesmo! E depois, só esperar ela aparecer online no chat e jogar todo o seu charme desenvolvido na internet. Trocar telefones, só pra conversar no Whatsapp porque vai ligar pra que? Bom, eu pelo menos me expresso melhor escrevendo do que falando, creio eu.

Aliás, cabe aqui um adendo: foi graças às redes sociais e afins que os nerds e tímidos puderam desencalhar afinal. O menino que pessoalmente parece um bicho do mato vira um Don Juan no chat e quebrado o gelo fica tudo mais fácil. Acho digno.

amor virtual

2. Convites

Antes: Se você ia fazer um churrasco tinha que pegar seu caderninho de telefones (juro que meus pais ainda tem uma), sentar porque ia levar umas boas horas e ligar pros seus convidados pra confraternização. Simples, não? Bom, mas ia uma grana boa nessas ligações além de alguém mais distraído acabar esquecendo. Tem que ser muito lesado atarefado pra esquecer de um bom convite, mas às vezes podia acontecer. Fora que às vezes você  esquecia de convidar alguém e aí teria que carregar a culpa.

Agora: cria um evento no Facebook. Rápido, fácil e indolor e você ainda pode saber previamente quem também foi convidado pra se animar – ou não. Ou manda email, um Whatsapp, SMS pra aquele amiguinho que não tem Facebook porque não gosta de redes sociais ou tá com a conta desativada por não querer ver “algum perfil” (quem nunca)? Agora só não convida ou aceita o convite quem não quer.

PS: mas não vamos extrapolar, pra certos eventos ainda vale o bom, velho e às vezes cafona convite formal, tipo o de casamento. Sim, porque eu já recebi um desses por Facebook e me senti, digamos, menos prestigiada.

3. Descobrir o paradeiro dos outros

Antes: se você precisava avisar alguém de algo importante, saber onde fulano estava ou com quem, não dava. Só ligando pra casa/trabalho do sujeito mesmo. Era mais fácil mentir, inventar desculpa e tals. Mas cá entre nós, as pessoas também cuidavam mais das suas próprias vidas e se preservavam mais também.

Agora:No bar! – com Jesus, Maria e José em Boteco da Esquina”. Você pode não ter perguntado, mas a pessoa tá te respondendo. Nunca as pessoas gostaram tanto de dar satisfação das suas vidas pra gente conhecida (e pros estranhos também). Muito embora isso não signifique muita coisa porque pra pagar de cool, cheia de compromissos e com a vida badalada, eu posso tirar foto do céu azul, fazer check-in na Riviera Francesa e estar deitada na minha cama em Santo André olhando pro teto. Tem gente que faz isso sim.

bar smartphone

4. Indiretas

Antes: Não sei, de verdade. Eu vejo tanta indireta na internet que nem me lembro como era quando não existia internet. O que restava era contar com um bom amigo em comum com a pessoa a ser atingida pra mandar o recado. E olhe lá, porque você não estava lá pra conferir.

Agora: Thais atualizou seu status:

QUEM MUITO SE AUSENTA UM DIA DEIXA DE FAZER FALTA – Clarice Lispector (ou Caio Fernando Abreu)

5. Trabalhos escolares

Antes: eu ia numa biblioteca púbica aqui da minha cidade, falava o tema pra bibliotecária e ela voltava com quinze livros. Eu pegava, ia pra uma mesa abria todos e passava a tarde (ou tardes) copiando, copiando, copiando… e vale lembrar que ir à biblioteca era um verdadeiro evento antropológico! As pessoas se encontravam com os amigos, os rolos ou ia só tumultuar mesmo.

Agora: joga no Google.

Não tem muito a ver o último item com o tema “ relação com as pessoas”, mas o tempo que você poupa serve pra você fazer todo o resto.

google it

Ficou mais fácil manter contato com todo mundo? Sim. E mais difícil de se esconder também. Eu acho que hoje é muito mais fácil você se comunicar com todos e é pra isso mesmo que serve a tecnologia, pra facilitar a vida. Mas que não fique tão fácil a ponto do contato físico se tornar desnecessário e obsoleto.

POST ORIGINALMENTE ESCRITO PELA COLABORADORA THAIS CRUVINEL.

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