A franquia noventista – Parte II

-por , em 09/07 -
A franquia noventista – Parte II

Continuando com a nossa análise dos filmes modernos do Batman, vamos agora à segunda parte da matéria sobre a franquia noventista (veja aqui o primeiro post). Depois do sucesso de “Batman” de 1989, dirigido por Tim Burton, as portas estavam mais uma vez abertas às superproduções sobre super-heróis e a Warner não iria perder a oportunidade de continuar a lucrar com o Homem-Morcego. E assim, começou a ser produzido aquele que seria um novo sucesso de bilheteria…

 

Batman – O Retorno

 

Pouco tempo após o lançamento do filme anterior, Tim Burton havia deixado bem claro que não havia ficado totalmente satisfeito com o resultado. Sobre uma continuação, ele teria dito na época que só retornaria para uma seqüência se a mesma oferecesse algo novo e excitante. Burton, que então não era mais tão desconhecido do grande público, havia dirigido “Edward Mãos-de-Tesoura” neste intervalo e já podia se dar ao luxo de rejeitar alguns trabalhos, coisa que fez quando viu o primeiro esboço de roteiro desta continuação.

 

Originalmente, o filme traria o Pingüim e a Mulher-Gato em busca de um tesouro perdido. Em seu caminho, estaria Gothan, Batman… e Robin! Como sabemos, Burton acabou por ser convencido a dirigir o filme, mas não sem antes pedir que o roteiro fosse refeito. Para começar, o plot foi totalmente mudado. Burton e o roteirista Daniel Waters decidiram investir em uma sátira social, onde um magnata de Gotham City apoiaria uma proposta de eleição do Pingüim como prefeito. A Mulher-Gato seria uma espécie de vilã secundária para o filme (anteriormente, já havia sido cogitada a possibilidade de Selina Kyle ser a única vilã, mas esta proposta também foi abandonada por causa do caráter ambíguo da personagem, ora adversária, ora aliada do Homem-Morcego).

 

O conceito de se ter o Pingüim como prefeito não era exatamente novo, uma vez que já fora usado em dois episódios da série sessentista do Batman. A idéia agradou e, mesmo vários esboços de roteiros, foi mantida. O mesmo não aconteceu com outros elementos que apareceriam na trama, como uma pequena participação de Harvey Dent (antecipando o vilão Duas-Caras no terceiro filme).

 

Quanto ao Robin, foi mantido até uma das últimas versões do roteiro. Inicialmente, na pele de um líder de uma gangue adolescente que acabaria por se aliar ao Cavaleiro das Trevas. Em um segundo momento, seria um adolescente negro que trabalharia como mecânico e cujo uniforme de trabalho teria o icônico “R” estampado. O ator Marlon Wayans (de “Todo Mundo em Pânico” e “O Pequenino”) chegou a assinar um contrato para interpretar o personagem na seqüência e fazer testes de guarda-roupa, mas a idéia felizmente foi descartada. “Robin é o personagem mais inútil do mundo, ainda mais fazendo companhia ao mais solitário dentre todos os solitários”, explicou Waters.

 

O elenco do filme anterior foi praticamente mantido, com poucas exceções, como Kim Bassinger, que ficou de fora porque seu personagem, o interesse romântico de Bruce Wayne no primeiro filme, foi substituído pela Mulher-Gato. Michael Keaton voltou para viver o personagem título, recebendo um aumento de 10 milhões de dólares para vestir novamente a armadura do Batman.

 

Para viver o Pingüim, a primeira opção foi Danny DeVito, que prontamente aceitou o papel. Daniel Waters chegou a dizer que escreveu o roteiro imaginando o ator no papel do vilão. Já pra viver a Mulher-Gato, a escolha não foi tão fácil. Atrizes como Annette Bening, Jennifer Jason Leigh, Madonna, Cher, Bridget Fonda e Susan Sarandon candidataram-se ao posto. A competição gerou um dos maiores constrangimentos da história do casting, quando a atriz Sean Young apareceu para uma audição vestida com uma fantasia de Mulher-Gato feita em casa, na tentativa de conseguir o papel. Mas a escolhida acabou sendo Michelle Pfeiffer, uma vez que ela encantou Tim Burton já em sua primeira audição. A atriz chegou a ter aulas de kickboxing para lutar mais convincentemente durante as filmagens.

 

O terceiro vilão do filme, Max Shreck, o inescrupuloso empresário que tentaria assassinar Selina Kyle (tornando-se então responsável direto pela existência da Mulher-Gato) e financiaria a campanha do Pingüim, seria interpretado por Christopher Walken.

 

Mais uma vez, a trilha sonora ficou a cargo de Danny Elfman, desta vez entusiasmado por (segundo suas próprias palavras) “daquela vez não estar precisando provar nada para ninguém”. E com estes elementos nas mãos, “Batman – o Retorno” foi produzido, custando US$ 30 milhões (quase o triplo do filme anterior).

 

O lançamento do filme se deu em junho de 1992, após uma campanha de marketing que fez com que os cinemas lotassem. Além do sucesso comercial, a seqüência agradou mais à crítica que o filme anterior, concorrendo a dois Oscars, um de maquiagem e outro de efeitos visuais.

 

Os personagens se tornaram emblemas. Assim como o Coringa de Jack Nicholson roubou a cena no filme de 1989, DeVito, irreconhecível como o Pingüim, tornou-se a mais famosa encarnação de Oswald Cobblepot jamais feita, e dá um banho de interpretação quando em cena, não dando chance alguma pra Keaton. E Pfeiffer, em plena forma e esbanjando sensualidade, tornou-se a Mulher-Gato perfeita, não igualada até o momento, tornando-se musa de muitos nerds na época.

 

Seu personagem agradou tanto que a cena final, quando ela ressurge da morte para contemplar o símbolo de Batman nos céus de Gothan, foi acrescentada pouco depois das filmagens terem terminado. Burton queria aproveitá-la em uma seqüência.

 

Apesar de tudo, a Warner não ficou muito satisfeita. Apesar da arrecadação nas bilheterias ter sido sensacional em comparação a outras produções do período, a continuação não foi tão rentável quanto o original, que havia angariado quase o dobro.

 

Um dos prováveis problemas que causaram este resultado foi o tom mais sombrio adotado por Burtin neste filme. O primeiro filme, apesar de também ter um clima gótico, era mais bem humorado – e o próprio vilão era um palhaço. Já os personagens da continuação eram psicologicamente deprimidos, com tragédias pessoais terríveis. O Pingüim era um sociopata que fora uma criança abandonada pelos seus pais por causa de sua deformidade; a Mulher-Gato, uma frustrada funcionária de classe média traumatizada por um amor não correspondido e por uma tentativa de assassinato; e o herói – bem, era o Batman!

 

Além do clima pesado, as cenas de violência e de insinuação sexual garantiram ao filme inúmeras críticas, que afirmavam que “Batman – O Retorno” não era um filme para crianças. O MacDonalds, por exemplo, recusou-se a lançar uma linha de MacLanche Feliz com o tema do filme.

 

Tim Burton nunca aceitou estas críticas, e sempre disse que preferira o segundo filme ao primeiro. Ele ainda pensava em filmar um terceiro, mas com a decisão dos produtores de se ter um clima mais alegre na próxima seqüência, Burton caiu fora. O diretor chegou a estudar um spin-off da Mulher-Gato, com Michelle Pfeiffer reprisando seu papel, mas a idéia não foi à frente.

 

O estúdio, claro, resolveu continuar sem Burton. E daí por diante, foi ladeira abaixo!

 

Batman Eternamente

 

Com Tim Burton fora, a Warner precisava de um novo diretor para a franquia. E acabou contratando Joel Schumacher, o que inicialmente pareceu ser uma excelente idéia. Schumacher já tinha um currículo de respeito, tendo dirigido clássicos como “Um Dia de Fúria” e “Os Garotos Perdidos”, parecia ser um diretor menos autoral e certamente daria um tom menos dark à franquia.

 

Para escrever o roteiro, Schumacher convidou Akiva Goldsman, que havia trabalhado com ele em “O Cliente”. Goldsman, hoje com vários sucessos em sua filmografia, na época estava em início de carreira. O script desde o início contava uma história onde Batman enfrentava um Charada psicótico. Em um momento posterior, Harvey Dent, o Duas-Caras, foi adicionado.

 

Também Michael Keaton abandonou o barco, explicando que não faria outro filme do Batman sem Tim Burton. Uma rápida seleção de possíveis intérpretes de Bruce Wayne contou com nomes como Johnny Depp , Daniel Day-Lewis e Ralph Fiennes. Por fim, Val Kilmer foi contratado como o novo Homem-Morcego.

 

O interesse feminino do herói agora era de uma psicóloga, que inicialmente seria interpretada por René Russo, mas com a escolha de Kilmer ela tornou-se velha demais para compor o par. O papel acabou sendo dado para Nicole Kidman.

 

Desde que se começou a propor o Charada como vilão, o ator Robin Willliams havia sido cogitado para o personagem. Porém Jim Carrey fisgou o papel, e com essa contratação o público já imaginou que tipo de vilão ele seria… Já para viver o Duas-Caras, Tommy Lee Jones foi contratado. O ator, inicialmente cauteloso em aceitar interpretar o personagem, acabou por interpretá-lo alegando que o vilão era o personagem preferido do seu filho.

 

E desta vez não tinha jeito: Robin estaria no filme. Mas a idéia de se manter Marlon Wayans como o ajudante mirim do Homem-Morcego foi descartada. Leonardo DiCaprio chegou a ser cogitado para substituí-lo, mas quem acabou por viver o personagem foi Chris O’Donnell.

 

O filme, o mais caro da franquia até então, custando US$ 100 milhões, foi lançado em junho de 1995. Arrecadou três vezes este valor, pouco mais que Batman Eternamente, no que foi a pior relação custo-benefício até o momento. Não agradou o público e a crítica bombardeou a produção.

 

Existem vários motivos pelo fato do filme ser tão ruim, a começar pelo roteiro, que era o mais fraco até então. Não tinha pé nem cabeça, parecia feito às pressas e colocado em segundo plano frente ao visual do filme.

 

E Schumacher acabou por se mostrar a pior coisa que tinha acontecido ao Batman em toda a história do personagem. Tentando fugir do tom sombrio adotado por Burton, ele investiu em um clima que mais parecia ao da série sessentista. E errou feio, produzindo um filme que era apenas um espetáculo psicodélico e barulhento. O fato de Schumacher ser homossexual assumido acabou gerando em alguns críticos a impressão de que o diretor tenha tentado insinuar de que a dupla dinâmica tinha realmente uma relação escondida, sensação esta ampliada pela adição de detalhes aos uniformes da dupla, como mamilos proeminentes e zíperes em suas nádegas.

 

Val Kilmer como Batman também não emplacou, conseguindo a impossível proeza de parecer menos Bruce Wayne que Michael Keaton. O ator chegou a ter problemas com Schumacher durante as filmagens, chegando ao ponto de deixarem de se falar por um tempo. O diretor chegou a dizer que Kilmer era “infantil e impossível”.

 

Já Jim Carrey como o Charada, que acabou tornando-se uma espécie de “Máskara enfrentenado o Batman”, acabou não sendo tão ruim, se pensarmos que o clima do filme era tresloucado mesmo. Mas o Duas-Caras de Tommy Lee Jones foi talvez a coisa mais equivocada feita pelo ator. O personagem, vingativo e sem muito senso de humor nos quadrinhos, tornou-se uma espécie de palhaço enlouquecido e dado a rompantes de gargalhadas. Reza a lenda que o ator, perdido no set sem saber que tipo de personalidade dar ao seu papel, foi orientado a tentar fazer como Carrey, o que, claro, era impossível para o Agente K.

 

Mas quando se imagina que algo ruim não pode piorar…

 

Batman & Robin

 

Sério, não há muito que dizer deste filme. Chega a ser constrangedor falar sobre essa coisa. Bem, Joel Schumacher continuou como diretor. E dessa vez ele teve total liberdade para transformar o filme em um verdadeiro carnaval. O ator John Glover, que viveu o Dr. Jason Woodrue, disse posteriormente que Schumacher sentava-se em sua cadeira de diretor e, com um megafone, gritava: “Lembrem-se todos: isto é um cartoon!” Uma designer de produção confessou que imaginara Gotham como uma cidade de faz-de-contas turbinada com ecstazy.

 

Val Kilmer não voltou, provavelmente pelos problemas no set ocorridos no filme anterior. E para viver o Batman desta vez, George Clooney foi contratado. O papel de Robin continuou a ser de Chris O’Donnell e a Bat-Girl foi interpretada por Alicia Silverstone.

 

Quanto aos vilões, nunca se viu tantos por metro quadrado. Havia o Sr. Frio, vivido por Arnold Schwarzenegger passando o maior vexame de sua carreira; a Hera Venenosa, interpretada por Uma hurman, igualmente embaraçada; o Bane, cujo papel foi dado ao brucutu Robert Swenson; e o Homem-Florônico, personagem do supra-citado John Glover.

 

Este foi o filme mais caro da série (pudera, com tantos atores – só Schwarzenegger, por exemplo, embolsou US$ 25 milhões para pagar o mico) e o que menos faturou. Lançado em junho de 1997, naufragou e levou junto a franquia.

 

Clooney, que apesar de tudo era o Bruce Wayne com biótipo mais semelhante ao dos quadrinhos, até hoje se ressente de ter vivido o personagem. Chegou a dizer durante o recebimento de seu Oscar de ator coadjuvante por “Syriana – A Indústria do Petróleo” que havia matado a franquia do Batman! E mais, confirmou a homossexualidade do personagem: “Eu me vestia com uma roupa de borracha com mamilos. Poderia ter interpretado um Batman heterossexual, mas preferi fazê-lo gay”, disse o ator.

 

Chris O’Donnell também não poupou o filme: “Em ‘Batman Eternamente’, eu sentia que estava fazendo um filme. Em Batman & Robin, eu sentia que fazia um comercial de brinquedos infantis.”

 

Assim, com coisas inacreditáveis como o bat-cartão de crédito e a tremenda gaiola das loucas que se tornou o filme, a franquia noventista foi sepultada.

 

Schumacher ainda tentou emplacar mais um filme, “Batman Triumphant”, onde o herói enfrentaria Nicolas Cage vivendo o Espantalho, mas felizmente a Warner já estava cansada do circo em que a série se transformou e resolveu parar por ali.

 

Mais recentemente, o diretor também tentou… bem, falaremos disso no próximo artigo. Com isso, ao mesmo tempo em que deu início à nova era dos filmes de super-herói, a franquia noventista do Batman quase a destruiu, cabendo a produções de mais respeito, como “X-Men” e “Homem-Aranha,”, a missão de revitalizá-la novamente.

 

E Batman foi esquecido durante quase uma década. Pelo menos até um diretor mais sério começar a se interessar em fazer um filme do Homem-Morcego para fã nenhum botar defeito. E é sobre isso que falaremos no próximo artigo.

 

Texto escrito pelo Cyber para a Coxinha Nerd!

Cris Siqueira
por

Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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