É impressionante como em ano de eleição somos obrigados a ouvir jingles animados de campanhas pelas ruas e nos 4 anos que se seguem, depois de eleitos, não ouvimos nem as vozes dos políticos. Estou comentando isso em parte porque a política brasileira é realmente motivo de revolta na minha vida e em parte para poder falar sobre uma reportagem que saiu neste domingo no fantástico. É sobre uma menina chamada Isadora, de apenas 13 anos, que fez a diferença, construiu seu próprio mundo melhor e não se importou nem um pouquinho com o que os outros tinham a dizer sobre sua atitude. Vou explicar melhor…

 

A adolescente, dita como calada e estudiosa pela reportagem, causou algumas polêmicas nesses últimos dias. Ela estava preocupada com a situação de sua escola e fez o que todo jovem hoje em dia sabe fazer melhor…compartilhou sua preocupação no Facebook através da página Diário de Classe. A idéia de Isadora foi inspirada no blog de Martha Payne, uma escocesa de 9 anos que causou muito alvoroço na internet reivindicando melhor qualidade na merenda de sua escola.

 

pobre

 

 

A página de Isadora já passou dos 220 mil seguidores que acreditam e lutam por um futuro melhor da educação do nosso país e já fez nascer muitas outras páginas de mesmo nome, inspiradas na luta da menina. A grande maioria das pessoas elogia muito a iniciativa da jovem, que, ao contrário de muitos outros jovens, critica de forma construtiva algumas atitudes do governo e se posiciona corretamente sobre a política do Brasil. Pode parecer bobo este meu comentário, mas não é e vou explicar porque:

 

Isadora critica em sua página, principalmente, a falta de estrutura de sua escola. Para alguns, isso pode parecer pouco e extremamente incoerente quando dizemos que a menina está lutando por uma melhor educação no país através de fotos de maçanetas quebradas, mas acreditem, não é. Quando uma escola chega ao ponto de ficar sem uma maçaneta na porta, uma quadra em manutenção por meses ou um bebedouro quebrado, é porque inúmeros outros pontos também foram deixados de lado. Por exemplo, se os professores e demais funcionários das escolas públicas pudessem ser valorizados de forma correta, talvez, todos eles também se empenhassem mais para defender e proteger o patrimônio das escolas.

 

escola brasil

 

 

Não se trata de educação do tipo “2+2 = 4″, trata-se da educação na forma mais simples que o dicionário consegue explicar: “Educação: Ação de desenvolver as faculdades psíquicas , intelectuais e morais; Conhecimento e prática dos hábitos sociais; boas maneiras“. Sabe porque dizemos que a educação no Brasil é totalmente errada e prejudicada pelo sistema? Não é pelo ensino do “2+2″e sim pela falta dos tais conhecimentos e práticas dos hábitos sociais.

 

Lembro bem que em minha escola, no Rio de Janeiro, na década de 90, tínhamos uma matéria que me ensinou a agradecer, o nome era Moral e Cívica. Não que meus pais não tivessem me ensinado isso também, mas reforçar ensinamentos básicos nas salas de aula, faz a diferença sim. Lembro da minha professora falando: “sempre que alguém lhe entregar alguma coisa, por mais que você não estivesse esperando por aquilo e não seja realmente para seu, agradeça!”. Quando eu tinha 9 anos, me mudei para Minas Gerais e na minha primeira prova, o professor me entregou o papel da avaliação e eu disse “Obrigada”. Vocês acreditam que fui motivo de “tema de aula” só porque agradeci? Dizer “obrigado” não deveria ser tão excepcional assim, concordam?

 

Voltando ao ponto… Isadora teve a sorte de ter uma educação em sua casa que superou a educação de sua escola, e foi exatamente isso que a fez se destacar dentre os inúmeros alunos, professores e diretores de escolas públicas nesse país. Sua educação social é tão grande e de qualidade tão boa, que ser obrigada a ficar em uma escola com estrutura ruim é um desrespeito para sua vida e para a vida de seus colegas. Se lutar para corrigir isso é errado, não sei mais o que deve ser considerado certo nesse país.

 

O pior de tudo nessa história é o que contam os pais da menina, de acordo com eles, a escola tentou intervir na atitude de Isadora, pedindo que os pais a obrigassem a retirar a página da internet. Saibam queridos educadores e administradores de escolas públicas: impedir uma voz de gritar por “socorro” não ajuda a esconder a situação das escolas neste país. Vergonha todos temos, pena que quase ninguém compartilhe da coragem que Isadora teve.

 

Incrivelmente Isadora conseguiu a atenção que precisava, a Secretaria Municipal de Educação mandou resolver todos os problemas mostrados por ela na internet, e está tudo postado conforme manda o figurino, lá na página do Diário de Classe. Mas essa não é nem metade da solução necessária para mudar a educação deste país.

 

Ao invés de se acomodar na cadeira da diretoria da escola, os verdadeiros responsáveis pelas instituições desse país deveriam tentar fazer algo mais. Não adianta votar no vereador que vai na escola e promete consertar a quadra, não adianta distribuir os livros que o governo oferece para literatura dos alunos sem uma boa explicação sobre o que aquilo representa no dia a dia deles, não adianta chamar os pais e pedir que eles repreendam as crianças. O que nós precisamos é de políticos que não gastem tanto com fotos bonitas e sorridentes para colocar em postes, que não invistam tanto em jingles da moda para circular pelas cidades em ano de campanha… Porque gente assim, Brasília e todas as outras cidades do Brasil tem de sobra… O que nós precisamos realmente é de políticos, adultos, que tenham tido uma infância efetiva, com ensinamentos de moral e cívica, que saibam dizer “Obrigado”e que saibam fazer por onde para termos um país melhor!