Premiada e cultuada por fãs no mundo inteiro, “Breaking Bad” chamou a atenção no início do mês por outro motivo que não os prêmios que levou no Globo de Ouro e no SAG Awards. Estreante da Record, na qual passou a ser exibida a partir do último dia 14, a série sobre o traficante de meta-anfetaminas Walter White (Bryan Cranston), virou assunto por conta de sua dublagem.

Em meio a críticas e elogios, a versão em português da atração despertou a curiosidade dos fãs. Afinal, todos queriam saber como ficariam as traduções de seus bordões marcantes. Um dos mais lembrados pelos fãs, o “Yeah, bitch” de Jesse – dito por seu intérprete Aaron Paul até no palco do Globo de Ouro – virou um sonoro “Aí, vadia”.

A voz por trás de Jesse na versão brasileira, o dublador Felipe Zilse elegeu a tradução como sua favorita entre todos os bordões do personagem e contou que vários fatores tiveram de ser considerados na hora de escolhê-la. “O ‘aí, vadia’ foi uma adaptação minha e do diretor. Tivemos que levar em conta que ele abre bastante a boca pra falar, para parecer que ele está falando o português. Lógico que é impossível ficar perfeito, mas a gente tenta chegar o mais perto possível”, contou Felipe.

Felipe revelou que os dubladores chegam a receber um texto com a tradução de suas falas, mas costumam fazer adaptações levando em consideração o personagem: “Muitas das gírias que estavam lá quem colocou fui eu. A gente adapta bastante, até para ficar mais jovem”.

Dizendo-se acostumado com personagens “meio malandrinhos” e com o linguajar mais agressivo de Jesse, o dublador destacou que sua maior preocupação foi a boa atuação de Aaron Paul. “Sabia que tinha um desafio porque o cara é bom para caramba. A interpretação tem que chegar o mais perto possível da dele, porque às vezes você acaba a atuação de um cara de fora fazendo uma dublagem ruim. Você vê o cara se emocionando e você tem que se emocionar junto. Ele chorava na tela e eu chorava junto”.

Outro personagem que requereu uma dublagem mais cuidadosa foi Walter Jr., interpretado por RJ Mitte. Na produção, o filho de Walter White tem paralisia cerebral, condição da qual o próprio ator sofre, em grau menos acentuado. Coube ao dublador Thiago Longo o desafio de colocar essa nuance na versão brasileira, sem cair em exageros.

“Tentei pensar em uma forma que mostrasse esse problema, mas que não ficasse caricato e que desse para o espectador entender”, disse Thiago, acrescentando que logo encontrou o melhor jeito para fazer a voz: “Coloquei a língua entre os dentes, no canto, não fechando totalmente a boca. No começo, não saía, eu mordia muito a língua, mas deu certo”.

Há 14 anos trabalhando como dublador, Thiago, hoje com 26, revelou que “Breaking Bad” acabou sendo seu trabalho mais difícil por conta dessa particularidade do personagem. “Eu considero que esse é o meu trabalho mais difícil, porque geralmente a gente fala corretamente. A gente está acostumado a falar do jeito ‘certo’ e tem que fazer ‘errado'”, analisou.

Trabalho para dublar o ator

Conhecido como a voz brasileira de atores como Jason Statham, Mel Gibson e Kevin Costner no cinema, o dublador veterano Armando Tiraboschi acrescentou outro nome ao seu currículo: o do premiado Bryan Cranston, o protagonista Walter White.

Para Armando, o alto nível da atuação de Cranston fez com que a dublagem de “Breaking Bad” fosse diferente das outras produções que já fez. “É um trabalho totalmente diferente. O trabalho desse ator para a TV não foi uma concessão, para ficar bonito. Ele mergulhou de uma forma intensa. Então, tive um trabalho para dublar o ator, não tanto o personagem. Foi algo mais aprofundado”.

Sem se sentir pressionado por dar voz a um personagem tão querido pelo público, o dublador revelou que sua maior preocupação era ser fiel ao trabalho originalmente feito por Cranston. “A dublagem é um trabalho de humildade. Quanto menos você aparecer, melhor ela está. Eu tento mergulhar o máximo possível no trabalho que o ator que fez e saio tranquilo. Sou o ator famoso mais desconhecido que você pode imaginar”, explicou.

Fãs criticam dublagem

Apesar do esforço dos atores, a dublagem não agradou a todos os fãs da atração – muitos deles acostumados a acompanhar a série em seu áudio original, por meio do canal pago AXN ou do serviço de TV por internet Netflix.

“Eu fiquei bem incomodado com a dublagem dos personagens”, opinou Fábio Lins, 34, gerente comercial e administrador do site e da fanpage Breaking Bad Brasil. “A gente quer qualidade, o máximo de qualidade. E o ator trabalha muito a voz. É um pecado você dispensar isso”.

Segundo Fábio, o que mais o incomodou foram as adaptações feitas na tradução para o português. “O problema é que fazem muitas adaptações. E ainda que traduzissem ao pé da letra os palavrões e os bordões, ia ficar completamente horrível. Você nunca vai sentir o que sente com as falas originais dos personagens”.

O assessor de imprensa Rafael Fiuza, 23, também acredita que a dublagem “deixou a desejar”, principalmente por conta de algumas traduções específicas. “Diversos palavrões, fato comum na série, também soam de forma estranha dublados. Para quem está assistindo pela primeira vez, não é tão ruim, mas para quem já viu a fala original, pode atrapalhar um pouco o enredo, já que é uma série ligada ao tráfico e vício de drogas ilícitas”, disse ele.

Para Roullien Henrique, 15, estudante e colaborador da fanpage Breaking Bad da Depressão, a versão brasileira da série ficou satisfatória, apesar da ausência de alguns bordões. “Achei a dublagem realmente boa, a única coisa que me desmotivou foi a ausência das gírias como o ‘bitch'”, afirmou, acrescentando que gostou das vozes por trás dos personagens: “As vozes combinaram não é aquele tipo de dublagem que você vê o personagem falando e ouve, e não sente harmonia”.

O único ponto negativo, na opinião dele, foi a falta de entusiasmo em alguns momentos da trama. “Faltou vida na hora de dublar. Por exemplo, a famosa parte que Jesse diz ‘Yeah, science, Mr White!’ na dublagem fica apenas ‘É, isso, ciência’. Deixou um pouco a desejar no entusiasmo”.

UOL Televisão

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