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PALMAS E MAIS PALMAS. 

Quando o filme solo do Coringa foi anunciado, as expectativas não eram animadoras. Em partes, fãs traziam o medo de Jared Letto reprisar o papel de Esquadrão Suicida. Outros, fãs saudosos de Heath Ledger, temiam outra interpretação desastrosa do famoso vilão dos quadrinhos, que custou a vida do ator australiano. A escalação de Joaquin Phoenix deixou dúvidas, afinal, pouco de seu trabalho era conhecido até então, com destaque para o filme Ela, de 2013.

Ninguém, repito, ninguém estava preparado para o que Phoenix trouxe para os cinemas. Nem mesmo os mais otimistas imaginavam que Coringa seria o que é: um espetáculo, no sentido substantival da palavra, não o adjetivo. Cada minuto da trama é uma poesia, contada através de música, fotografia, dança e atuação, todas ao mesmo tempo.

Enfim, DC. 

O longa ainda mistura cada parte da arte com o clima sombrio tradicional da DC Comics, há muito não visto nos cinemas. Diferente do que imaginávamos, Coringa não é um filme de herói, mas não é um filme de vilão. Coringa relata a origem de um homem doente, segregado, ignorado e ridicularizado pela sociedade.

O personagem tresloucado que conhecemos dos quadrinhos, com a tradicional risada estridente, surge diante dos olhos na riqueza dos detalhes. Em um olhar alucinado, em um corpo arqueado sob o peso de suas responsabilidades e em uma gargalhada descontrolada. Vemos o nascimento de um dos mais famosos vilões da DC, mas acima de tudo, vemos a morte de um homem, cansado de tentar se adequar aos padrões.

O filme

O filme traz o personagem de Arthur Fleck, um homem marcado pela infância abusiva e pela ausência familiar em casa. Desde cedo, ele quis ser um comediante, buscando trazer o riso para as pessoas. A vida de Arthur, porém, se resume a cuidar da mãe, extremamente debilitada, em um apartamento minúsculo em Gotham City. Ele tenta ganhar dinheiro se vestindo de palhaço nas ruas da cidade, mas sofre o preconceito enraizado diariamente. Além de agressões físicas, ele recebe ofensas frequentes, apenas por tentar trazer o riso.

Arthur sofre de um distúrbio neurológico, que o torna diferente dos demais. Em seus momentos de crise, é afastado de todos, que o olham com pena e/ou medo, taxando-o de esquisito. A depressão surge em cada olhar, em cada ofensa e em cada aplauso que não vem. O tempo o transforma em uma pessoa amarga, e ele aprende a tirar satisfação na dor e na vingança. Suas ações inspiram a muitos, que com máscaras de palhaço vão as ruas protestar contra o maior magnata da cidade: Thomas Wayne.

Joker

Coringa lida, acima de tudo, com depressão. A origem do personagem é toda fundamentada nos sentimentos de Arthur, cada vez mais exacerbados por aquilo que sofre no dia a dia. Ele é um homem com problemas mentais, taxado de louco, estranho, algo fora do normal. Mas o que é normal, não é mesmo? O cinema nos trouxe uma versão já madura do personagem, em uma atuação brilhante e eterna de Heath Ledger. Aceitamos e não nos questionamos sua origem, apenas acreditamos se tratar de um lunático sanguinário. Mas como todo vilão, sua história não tinha sido contada…até agora.

Todd Phillips

Todd Phillips ficou conhecido por dirigir a comédia Se Beber, Não Case. É inimaginável pensar que os mesmos olhos dirigiram Coringa. Sua nova produção traz um clima pesado, combinando com o sombrio tradicional da DC. Embora lide com a comédia de Fleck, é praticamente impossível sorrir diante da doença e do descaso evidenciados em tela.

O diretor, que também assinou o roteiro do filme, traz seu melhor trabalho até então. A história lida com um vilão famoso, já falado e interpretado por muitos ao longo dos anos. Mesmo assim, Phillips consegue entregar um roteiro original brilhante e complexo. O público é surpreendido por uma história que já conhecia, mas que nos detalhes se mostra única. A trama segue o mesmo ritmo do início ao fim, ganhando emoção ( e aplausos ) em momentos específicos.

Tudo é muito bem encaixado, de forma a não entregar para o público o que o desfecho revela. A história lida com a origem de um personagem, que é muito bem explicada em uma linha do tempo minuciosamente pensada.

Batman

Embora não seja um filme de super-herói, referências brilhantemente encaixadas na trama principal irão satisfazer aos fãs do Homem-Morcego. Nomes de personagens, localidades e eventos futuros desencadeiam não apenas a história do Batman, como também o surgimento do Coringa. O filme lida com o nascimento de ambos, ao mesmo tempo, em uma das cenas mais bonitas da produção.

Nos pegamos com um sorriso no rosto ao identificar como que ambas as histórias se entrelaçam, principalmente quando lembramos de Cavaleiro das Trevas. Diferente do que pensávamos, o encontro entre Batman e Coringa surgiu muito antes. Sim, o filme de 2019 é independente em todos os sentidos e não irá se relacionar com o futuro de Bruce Wayne na DC. Ao olharmos para trás, porém, é possível relacionar ambos os vilões de Phoenix e Heath Ledger.

Heath Ledger

Em um paradoxo temporal, o personagem de Joaquin traz toda a base para o vilão de Heath, mesmo que separados por anos. Uma bela homenagem a um dos melhores atores Hollywood, feita por um dos melhores atores da atualidade. A inspiração e a lembrança ficam claras em diversas cenas.

A semelhança com Heath está presente no cabelo, nas expressões, em cenas ditas pelo próprio Phoenix, que foram feitas para homenagear o australiano. Comparações são desnecessárias e impossíveis, afinal, são personagens diferentes, em filmes diferentes. Um completa o outro e essa é a única relação possível.

Phoenix

Falar de Coringa é falar de Joaquin Phoenix. O ator nos proporciona uma performance sublime, espantosa, admirável, bonita, magnífica e muitos outros adjetivos incontáveis. O personagem dita o ritmo do filme desde o começo e temos a impressão de que o cenário se desenvolve a partir dele, não o contrário.

A interpretação do ator traz uma mistura de sentimentos e informações. Em certos momentos ele dança e vagueia pela tela em um ritmo ditado pela trilha sonora que está em sua cabeça. Segundos depois, Arthur enfrenta um surto e seu olhar na mesma hora, indo da tranquilidade ao insano em um estalar de dedos. A sensação que Phoenix exterioriza é intensa em cada fala e em cada passo de dança, e não conseguimos piscar durante as duas horas de filme.

Há muito não se via um filme tão aplaudido pelo público em meio a sua exibição. Agora entendemos os aplausos de pé que duraram 8 minutos durante a primeira transmissão de Coringa.

Enfim, Coringa

Coringa não é um filme que agradará a todos. Pode-se dizer que é um filme cult, poético e repleto de significados. Não espere cenas de ação, explosões e grandes mortes, associadas ao personagem em outras produções. Lidamos com a origem do vilão, desde os primórdios de suas alucinações. E é por isso que a interpretação de Phoenix é fundamental. Ele é o Coringa que o cinema precisava desde a morte de Heath Ledger. Palavras aqui tornam-se pequenas e não condizem com o que presenciamos na tela. Para falar de Coringa é preciso vê-lo e entendê-lo acima de tudo.

De resto, só temos a agradecer pelo espetáculo que Phillips e Phoenix nos proporcionam. Somos felizardos de viver em uma época onde o Coringa de Joaquin Phoenix existe. Fecham-se as cortinas e os aplausos vão seguir incessantemente.

Coringa chega aos cinemas no próximo dia 03.