CINEMA | Até que ponto a música é importante?

É possível fazer um filme bom sem usar uma trilha sonora?

Desde antes de ganhar som, a música é um elemento primordial para quem quer fazer cinema. Até o fim da década de 1920 a música estava apenas no fundo, não tento ligação alguma com a história e servindo apenas para que não houvesse o silêncio completo durante a exibição dos filmes. É possível observar em The Fireman, estrelado por Charles Chaplin em 1916, que todos os efeitos sonoros dependem da mente do espectador colocá-los lá. Na época as histórias eram moldadas e escritas para se adequar aquele padrão criado. E funcionavam muito bem, mas limitava as interações que poderiam haver entre os personagens e o cenário. Como por exemplo um policial soprando seu apito. É possível entender a cena, mas ela perde uma boa parte de seu impacto por gerar uma quebra de expectativa no espectador.

Após esse período, perto da chegada dos desenhos animados, surgiu uma técnica que, futuramente, ficaria conhecida como “MickeyMousing“. Ao aplicar esse método o produtor utilizava musicas de fundo e sons instrumentais mais graves para poder intensificar o momento, como por exemplo uma escorregada no chão molhado ou um tropeço numa rua esburacada. Funcionava como se o som acompanhasse o movimento até o fim.

A técnica recebeu esse nome justamento pelo desenho do ratinho da DisneyMickey Mouse iniciou  uma nova era para a música no cinema ao estrelar o curta Steamboat Willie de 1928. Durante toda a duração da animação é impossível separar o que é um efeito sonoro e o que compõe a música. E isso ocorre pelo fato de não haver uma diferença real. A música e os efeitos se misturavam, encaixando um com o outro formando uma unidade que dava vida para a animação do camundongo.

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Essa técnica perpetua até os dias de hoje, mas de uma forma diferente. Em Baby Driver, de 2017, acontece o oposto. Não é a música que acompanha o efeito sonoro e os movimentos, e sim os movimentos que foram feitos para seguir, milimetricamente, cada acorde a batida da música.

Uma técnica parecida com MickeyMousing é a técnica do “Hip-Hop montage“, que consiste em transformar os efeitos sonoros na própria música. É como se a trilha sonora fosse sendo inteiramente refeita por sons feitos na cena. Esse método não se reprime apenas ao som, ele precisa do elemento visual para poder funcionar da maneira correta. O filme Requiem for a Dream, do ano 200, apresenta uma das cenas de Hip-Hop montage mais marcantes para a história do cinema. Uma cena sobre o consumo de drogas conseguir criar um padrão para ser seguido. A cena é tão popular que já ganhou diversas paródias, até mesmo em The Simpsons, da Fox.

Mesmo que a música importante para a cena, é possível criar algo ainda mais impactante sem ela. Para poder escolher se a cena deverá ter uma música ou não, é preciso pensar na mensagem que aquele momento quer passar. O filme Mother!, de 2017, apenas consegue moldar toda a atmosfera desejada para o longa em decorrência da escolha de não ter uma trilha sonora. Isso aumenta a tensão e faz o espectador se conectar mais com o personagem. Para que isso funcione da maneira correta, é preciso que todo o ambiente seja favorável a isso. Não basta tirar a música e imaginar que está tudo resolvido. É preciso pensar no local em que a câmera estará para a cena, ver os elementos extras presentes e muitas outras coisas.

A música pode ser uma grande aliada dos produtores de filmes, mas ao mesmo tempo pode ser uma grande vilã se não for usada com cautela e responsabilidade. Cabe ao diretor entender a cena e pensar na necessidade, ou não, de uma trilha sonora.

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Quem escreveu?

Lucas M. Mertens

Escritor, roteirista e editor. Um cinéfilo maldito que adora reclamar de diálogo expositivo nos filmes, mas no fim das contas se diverte. Um filme nunca é ruim até que se prove o contrário. Querendo um dia acordar e estar no meio de Hogwarts estudando poções.

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