Na sexta feira, dia 28 de agosto de 2020, fomos todos impactados pela triste notícia do falecimento do ator Chadwick Boseman, nosso eterno Rei T’Challa (Pantera Negra) da Marvel nos cinemas. Apesar de todos os pesares, Chadwick teve uma brilhante trajetória em vida, tanto profissionalmente, quanto em suas conquistas pessoais. Vale lembrar cada momento de sua história, se inspirar na luta e na predestinação que, muitas vezes, deixamos de enxergar no dia a dia.

Confira o vídeo que fizemos em homenagem ao ator:

Vou transcrever aqui o texto que fiz em homenagem ao Chad para que ele seja eternizado como agradecimento e força em sua passagem final.

Ancestralidade, espiritualidade e força de vontade.

Chadwick Boseman foi muito mais do que um ator, um aspirante a diretor ou qualquer outra profissão que ele tenha colocado em um formulário de hotel na hora do check-in.

Ele nasceu na Carolina do Sul, um dos estados mais racistas dos Estados Unidos. Em entrevistas, Chadwick chegou a comentar que viveu em uma vila com sua família que era muito grande…ele tinha um senso de pertencimento diferente de outras crianças de sua região.

Ele sempre quis estudar e conquistar seu espaço no mundo. Ele prestava concursos de faculdades que nem ao menos podia pagar. Nessa, ele acabou passando para a Universidade de Oxford na Inglaterra, mas sem orçamento para bancar o curso, acabou buscando outras alternativas.

Por intermédio da atriz Phylicia Rashad, a esposa do Cosby em The Cosby Show que era ex professora de atuação do Chadwick, Denzel Washington tomou conhecimento de suas dificuldades e investiu na carreira dele.

Anos depois, Chadwick Boseman convidou Denzel para a pré estreia de Pantera Negra em NY e foi até o astro para agradecer seu investimento e fé no futuro que ele sonhava, até então, sozinho.

A primeira grande virada de sua carreira veio em 2013, quando protagonizou ’42: A História de uma lenda’, a cinebiografia do pioneiro do beisebol Jackie Robinson – o primeiro jogador negro a entrar na liga principal do esporte. Curiosamente, nesse momento em que o papel apareceu, Chadwick estava pensando em mudar de carreira e se tornar diretor…porque ele achava que não estava dando muito certo como ator.

Em 2016, ele fez o filme ‘Deuses do Egito’ e o racismo se tornou tema em sua trajetória pessoal e profissional. A produção do filme foi acusada de escalar atores brancos como egípcios e ao ser perguntado sobre isso em uma entrevista, Chadwick não passou pano:

“Quando me abordaram com o roteiro do filme, eu rezei para que essa polêmica acontecesse. Eu sou grato que aconteceu, porque, na verdade, eu concordo com ela. Não se faz filmes de US$ 140 milhões estrelados por negros e pardos.”

Ele sabia que sua resposta poderia prejudicar sua ascenção em Hollywood. Pensando na Hollywood tradicional que dependia do glamour branco para render seus milhões de dólares desejados. Mas, ao contrário de tudo o que imaginou, seu posicionamento ajudou a mudar o jogo. Suas palavras encerraram a tradição do embranquecimento do cinema americano. Ou, pelo menos, abriu os olhos para a indústria milionária e deu voz aos que aceitavam a regra do não pertencimento como padrão.

Em 2017, Chadwick Boseman se tornaria T’Challa, o Rei de Wakanda e o primeiro lendário herói da Marvel negro a ganhar um filme solo.

Chadwick contou em entrevista que fez amizade com um segurança do estúdio na Austrália quando filmava o filme ‘Deuses do Egito’ e sem nunca mencionar o Pantera Negra, ganhou do novo amigo uma revista do super herói com um recado de que ele seria o Pantera um dia. Tempos depois, num tapete vermelho em Zurique, ele recebeu uma ligação com a proposta da Marvel e aceitou na hora.

Para construir o Rei de Wakanda, Chadwick Boseman empregou o sotaque africano em seu personagem. Segundo ele, isso era fundamental para reforçar a ideia de que ele não havia se ‘curvado’ ao colonialismo, ou seja, não havia sido educado na europa, como a maioria das pessoas pensaria de um rei africano.

Chadwick repetiu algumas vezes: “colonialismo é o primo da escravidão…eu queria estar completamente certo de não contribuir com essa ideia de que t’challa estudou na europa, porque isso seria contra tudo o que wakanda é. ela deveria ser a nação tecnologicamente mais avançada do planeta.”

O sotaque que ele fez, ele aprendeu durante a gravação de ‘King: Uma história de vingança’, thriller em que viveu um personagem sul-africano.

“Em tempos de crise, os sábios constroem pontes, enquanto os tolos constroem muros.” – T’Challa fala isso em pantera negra e, de alguma forma, sua história, sua forma de lidar com seu povo, sua paixão pela família, sua fé nas mulheres do seu reino e, principalmente, seu legado, ficariam para sempre na mente de milhões de pessoas do mundo inteiro.

Pessoas negras sim, majoritariamente, porque, como disse, essa era a primeira vez que um rei, poderoso, africano, independente, inteligente, tomava as rédeas da situação ‘pertencimento’ e espalhava sementes de ‘eu existo’ pelo mundo inteiro.

Quando perguntado sobre viver um personagem negro criado por pessoas brancas, Stan Lee e Jack Kirby, Chadwick disse que nada disso importava, que eles tinham a mente aberta. Pantera Negra foi criado em 1966, em meio à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos: “Os melhores criadores são aqueles que criam coisas que continuam a gerar coisas novas”, ele disse em um discurso uma vez.

E é isso: Pantera Negra em 1966, em 2017 e para sempre, ecoará em nossas mentes e nas mentes de milhões de crianças negras que aprenderão que seus lugares podem ser de brilho e de sucesso.

Obrigada Chad, por tudo.

Sua missão como Rei de Wakanda começou em 2017, um ano depois de você ter iniciado sua luta pessoal contra o câncer. Você foi gigante para milhões de pessoas e para si mesmo. Sua luta jamais terá sido em vão. Sua missão era uma só: EMPODERAR.

Não apenas homens negros, mas também mulheres negras que buscam pertencimento de existir há milhares de anos e foram apresentadas em seu filme como guerreiras imbatíveis e cientistas incomparáveis.

Chadwick nos deixou no dia 28 de agosto de 2020. Há 57 anos, nesse mesmo dia, Martin Luther King marchava com ativistas por direitos civis e anunciava que ‘havia tido um sonho’.

Chadwick nos deixou em 2020. Há menos de 6 meses, os protestos antirracistas e contra a violência da polícia americana tomaram os Estados Unidos após o assassinato de George Floyd.

Por 4 anos Chadwick lutou sozinho sua batalha pessoal, mas não deixou de usar sua voz para lutar por milhões de pessoas e mudar o mundo. Sua história e o sonho de Martin não podem ter sido em vão.

Obrigada Chadwick. Obrigada por tudo.
Continuaremos seu trabalho em todos os momentos que tivermos oportunidade de ecoar sua voz.

Hoje, amanhã e sempre: Wakanda Forever.

Autoria: Cris Siqueira