Batman, O Cavaleiro das Trevas

-por , em 23/07 -
Batman, O Cavaleiro das Trevas

Pouco depois do lançamento de Batman Begins (cuja análise pode ser lida aqui), a Warner Bros. deu luz verde a Christopher Nolan para que o diretor filmasse uma seqüência. Em tempos de franquias e reboots, não havia nada surpreendente nisto – até porque a última cena da película de 2005 era um claro gancho para uma continuação.

 

Porém especulava-se muito se a qualidade do primeiro filme poderia ser mantida em uma segunda produção. Sucesso de bilheteria e crítica, Batman Begins havia gerado um desafio a seus produtores, já que o público não esperaria menos do que o ótimo, uma vez que Nolan havia mostrado seu potencial como contador de estórias do Batman. A principal pergunta era se o conceito de um Batman mais sério ainda funcionaria quando o mais caricato dos vilões dos quadrinhos surgisse nas telas. Uma nova visita à Gotham mais realista agregaria algo ou seria apenas um episódio de uma série cujo piloto havia sido bom?

 

A pré-produção

 

Desde o início, era consenso entre os produtores e o diretor que o vilão do segundo filme deveria ser o Coringa. Além de ser o antagonista mais popular do Batman, era quase uma obrigação apresentar o personagem após o final de Batman Begins, onde o Tenente Gordon mostrava ao Homem-Morcego uma carta de baralho deixada pelo criminoso como um cartão pessoal.

 

Outro personagem que deveria aparecer na produção seria o promotor Harvey Dent, que nos quadrinhos se tornara o vilão Duas-Caras. A idéia original era a de se produzir duas seqüências com estes personagens, cada um com um dos vilões sendo o antagonista principal do herói – na primeira, o Coringa, na segunda, o Duas-Caras.

 

Nolan e o roteirista David S. Goyer decidiram usar como base para o enredo duas importantes graphic novels sobre Batman: A Piada Mortal e O Longo Dia das Bruxas, centrados cada um em um dos dois personagens. Embora como de praxe tenha havido várias versões do roteiro, Nolan sempre teve uma visão muito específica do que queria neste filme, não se desviando muito do que havia imaginado inicialmente.

 

batman cavaleiro

 

 

“Quando lemos os quadrinhos,”, declarou Nolan na época, “achamos fascinante a idéia de que a presença de Batman em Gotham realmente atraia criminosos para a cidade, sobretudo lunáticos.”. Em outras palavras, a simples existência de um vigilante mascarado seria um incentivo para a chegada ou a criação de malfeitores igualmente caracterizados com suas próprias fantasias. O tema portanto era o de escalonagem, já definida por Gordon ao término de Batman Begins: heróis melhores atraem vilões piores.

 

O diretor desejava criar um Coringa que fosse uma sombra sobre Gotham, um mal inexplicável e ameaçador, cujos objetivos fossem obscuros e amedrontadores. O arco da história, segundo ele, seria a trajetória de Harvey Dent. O Coringa seria um terror absoluto, como um vendaval – você não se importa como foi o seu início, só quer que ele vá embora.

 

A produção

 

Para o elenco, seriam mantidos quase todos os nomes do primeiro filme. Christian Bale, muito elogiado pela sua interpretação de Bruce Wayne em Batman Begins, retornaria como um Batman mais experiente e com mais recursos. O ator chegou a treinar métodos de luta keysi (baseados nos instintos de luta naturais do ser humano e que utiliza várias técnicas de luta de rua) para interpretar mais convincentemente o herói, chegando a dispensar seus dublês em várias cenas. Jim Gordon seria interpretado novamente por Gary Oldman, o mordomo Alfred por Michael Caine e Lucius Fox por Morgan Freeman. A exceção se daria com a intérprete de Rachel Dawes, que seria agora vivida por Maggie Gyllenhaal, já que Katie Holmes não voltaria por problemas de agenda.

 

As grandes dúvidas eram, claro, quem interpretaria o Coringa e Harvey Dent. Vários atores demonstraram interesse em viver o promotor de Gotham, como Hugh Jackman, Josh Lucas, Ryan Phillippe, Mark Ruffalo e Liev Schreiber. Nolan acabou por escolher Aaron Eckhart, explicando que o ator traria o senso de moral e a qualidade de herói necessários ao personagem.

 

batman cavaleiro das trevas

 

 

Já para viver o Coringa, a escolha seria bem mais polêmica. Dada a importância e visibilidade do personagem, vários nomes conhecidos pelo público candidataram-se à vaga. Robin Williams, Steve Carell, Paul Bettany, Adrien Brody e Hugo Weaving foram considerados. Mas Christopher Nolan, que já havia tentado trabalhar com Heath Ledger em outros projetos, decidiu-se pelo ator porque imaginou que ele seria capaz de dar ao vilão a caótica interpretação que ele desejava.

 

O problema é que Ledger não era exatamente uma unanimidade entre o público. Conhecido por seus papéis românticos e participações em algumas obras discutíveis, o ator não parecia aos fãs de Batman uma boa escolha. A decisão acabou por provocar uma onda de reclamações no público, que desejava ver um ator com mais experiência em personagens sombrios para viver o Coringa. Quando começaram a surgir suas primeiras imagens caracterizado como o vilão, as opiniões ficaram divididas. Embora a decisão de Nolan de dar ao Coringa horrendas cicatrizes que se assemelhavam a um sorriso coadunasse com uma atmosfera mais realista, alguns admiradores do personagem não a aprovaram.

 

O ator teria ainda um outro desafio. Enquanto Aaron Eckhart não teria problemas em rivalizar o com o péssimo Duas-Caras de Tommy Lee Jones, Heath Ledger seria seguramente comparado a um ícone do cinema, o Coringa de Jack Nicholson. Era ponto pacífico entre os críticos que a tarefa de se equiparar ao personagem do filme de 1989 seria praticamente impossível. Não se sabia, portanto, o que esperar de sua atuação.

 

batman cavaleiro das trevas

 

 

Hans Zimmer e James Newton Howard voltariam para fazer a trilha sonora da seqüência. Os compositores tiveram o apuro de combinar os temas aos personagens a que evocam. Para Batman, novamente um toque de urgência, para Dent, um tema mais elegante, e para o Coringa, claro, uma trilha mais ameaçadora, com onze minutos baseados em apenas duas notas. A dupla faria algumas alterações no trabalho antes do lançamento do filme, devido a uma tragédia que ocorreria pouco depois da conclusão das filmagens.

 

O viral

 

A campanha de marketing de Batman, O Cavaleiro das Trevas merece uma nota à parte na história do cinema. Não foi o primeiro filme a utilizar marketing viral (uma estratégia que consiste em utilizar sites, redes sociais e atividades no mundo real, simulando acontecimentos ou entidades existentes para propagar o anúncio do produto como uma epidemia entre os potenciais consumidores), mas certamente o que mais eficientemente o utilizara até então.

 

Um ano antes do lançamento foi iniciada uma campanha intitulada “Why So Serious?”. Consistiu inicialmente do lançamento de um site promovendo a campanha ficcional de Harvey Dent à promotoria de Gotham (com o nome de “I Believe in Harvey Dent”). A jogada atraiu milhares de fãs, que visitavam a página apenas para ver como o Coringa havia vandalizado o site, pintando as fotos de Dent e bagunçando os elementos da página. Neste site eram revelados, através de jogos e enigmas, importantes informações pelos quais o público ansiava, como, por exemplo, a primeira foto do vilão. Houve também várias atividades no mundo “real”, onde pistas eram colocadas em locais públicos ao redor do mundo, incluindo no MASP, em São Paulo.

 

batman cavaleiro das trevas ressurge

 

 

Infelizmente, o filme acabou por ter uma divulgação inesperada devido a um fato trágico. Pouco tempo após o término das filmagens, Heath Ledger foi encontrado morto em seu apartamento em Manhattan, vítima de overdose de medicamentos. O mundo inteiro voltou sua atenção à esse triste acontecimento, e a mídia acabou também por direcionar seu foco para a produção de Batman- O Cavaleiro das Trevas. Dadas estas circunstâncias, o filme passou a ser uma das produções mais esperadas de 2008, sendo lançado em 14 de julho daquele ano, ao custo de US$ 185 milhões de dólares.

 

O fim do Coringa

 

Visceral.

 

É difícil encontrar um adjetivo que represente melhor Batman – O Cavaleiro das Trevas. Não é um filme plástico e superficial, destinado ao puro entretenimento. É uma obra que atinge sem piedade a consciência e os valores do público, retirando-o da zona de conforto gerada pela expectativa de se assistir um filme de super-herói e atirando-o em meio a uma arena de sensações aflitivas e de dilemas morais, típica de películas consideradas “mais sérias”.

 

Deve-se dizer em primeiro lugar que, se Batman Begins foi outrora considerado o “Batman para adultos”, comparado à sua continuação, assisti-lo torna-se um passeio no parque de diversões. Embora seu predecessor também leve a reflexões sobre questões sérias, como a justiça com as próprias mãos e a sanidade de se combater violência com mais violência, Batman – O Cavaleiro das Trevas eleva esta discussão a outro nível, fazendo-nos perguntar se a distância entre o bem e mal é grande o suficiente para que não exista circunstância alguma que faça com que alguém no extremo de um dos lados passe para o outro. Mas até: se existem realmente dois lados, ou se tudo não passa de pontos de vista distintos.

 

batman cavaleiro das trevas ressurge filme

 

 

O filme arrecadou a bagatela de mais de um bilhão de dólares nas bilheterias e foi sucesso absoluto de crítica, arrancando dos profissionais da área exclamações e empolgados comentários, elementos raros na recepção a um blockbuster. Isto graças a vários fatores.

 

Por exemplo, o design de produção acerta em cheio novamente, com sua Gotham ainda mais real e violenta (além dos mafiosos que chegaram à cidade para explorar as áreas deixadas vagas por Carmine Falcone, vários loucos fugiram do asilo Arkham no final do filme anterior, incluindo aí o Espantalho). Ponto também para a trilha sonora do filme. Com o toque de urgência criada por Zimmer e Howard, a tensão vai ao teto quando ouvimos o agudo crescente que acompanha as aparições do Coringa. O filme ganhou ainda um Oscar de melhor edição de som.

 

Nolan dirige o filme com maestria, conseguindo provocar a reação desejada a cada momento. O diretor pega o público pela mão e leva para onde quer. O turbilhão de sentimentos é grande, e a sensação que se tem ao sair do cinema é a de sobreviver a um linchamento. Embora não se possa atribuir apenas à direção um resultado como este, sem dúvida foram seu controle e visão que proporcionaram o espetáculo, evitando que o perigoso conceito de um vigilante mascarado lutando contra um vilão pintado de palhaço soe inverossímil. Sua decisão de colocar elementos polêmicos no filme (como a estratégia de Batman de espionar todos os cidadão de Gotham, remetendo ao “Ato Patriótico” de Bush) enriquece a obra como tema de reflexão.

 

Não é nenhuma surpresa constatar que o elenco estelar de coadjuvantes faça bonito outra vez. Mas é a atuação do trio principal que nos arrebata.

 

batman cavaleiro das trevas ressurge o filme

 

 

Bale confere novamente ao seu Bruce Wayne uma sensação de responsabilidade contraposta à uma permanente dúvida sobre a eficácia dos seus meios. E acredite, embora o título do filme seja uma referência ao seu papel, Batman é apenas mais um personagem – que seria facilmente eclipsado neste filme se o ator não representasse com segurança uma pessoa amargurada e cansada pelo enorme peso de seu fardo.

 

Aaron Eckhart nos presenteia com um Harvey Dent cativante. Inspirando confiança e honestidade, entendemos porque Wayne passa a depositar esperança no personagem, com a possibilidade de poder finalmente abandonar a máscara e delegar ao promotor a missão de lutar contra o crime. Preocupamo-nos com o sucesso de Dent – e com sua segurança. Acompanhamos com pesar sua trajetória, quase torcendo para que o destino presente no cânone do Homem-Morcego não ocorra.

 

batman o cavaleiro das trevas

 

 

E chegamos finalmente a Heath Ledger. O visceral com o qual classifiquei o filme acima deve-se muito à sua interpretação mesmerizante do Coringa. Com satisfação, os fãs do Homem-Morcego viram que sua crença na incapacidade do ator para representar o vilão era injusta. Ledger não apenas interpretou – ele transformou-se, entregando-se de tal forma que quando o Coringa surge na tela, torna-se difícil lembrar-se de que por trás da sinistra maquiagem está um ator conhecido por atuar em comédias românticas e aventuras.

 

Para preparar-se para viver o que se acabou por se tornar o papel de sua vida, Ledger permaneceu sozinho em um quarto de hotel durante um mês, anotando em um diário seus treinos de postura e voz para viver (segundo suas palavras) “um palhaço esquizofrênico, psicopata e genocida”. O estudo deu resultado e o ator conseguiu distanciar seu personagem daquele vivido por Jack Nicholson a ponto de muitos considerarem sua interpretação a encarnação definitiva do Coringa nos cinemas. Caótico, imprevisível e perigoso a um nível inimaginável, o personagem definitivamente era a nêmesis do Batman, um enigma difícil de desvendar cujo único objetivo parece ser a destruição absoluta.

 

batman e coringa

 

 

O trabalho de Ledger foi reconhecido por toda a comunidade de cinema internacional e também pela academia, que premiou postumamente o ator com o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua interpretação. Seu Coringa foi eleito com o terceiro maior personagem de cinema de todos os tempos pela revista Empire. E não é exagero dizer que grande parte do êxito do filme deva-se a ele. Assim como pudemos dizer que o filme anterior era “o filme do Batman”, podemos dizer sem sombra de dúvida de que Batman – O Cavaleiro das Trevas é “o filme do Coringa”.

 

Conclusão

 

Com um final impactante e provocativo, Batman – O Cavaleiro das Trevas é para muitos o melhor filme do Homem-Morcego jamais feito até o seu lançamento. Vencedor de vários prêmios, aclamado pela crítica e detentor do título de 11ª bilheteria da história do cinema, acabou criando um desafio ainda maior para Nolan e sua equipe do que aquele que tinham no final de Batman Begins. Seria possível igualar esta obra no terceiro e último filme da sua trilogia?

 

Conversaremos sobre isto no próximo artigo do nosso especial.

 

Perfil Coxinha

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Cyber considera a franquia do Batman de Nolan a obra definitiva sobre o
Homem-morcego, e não aceita imitações.
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Cris Siqueira
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Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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