Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge

-por , em 01/08 -
Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Batman, O Cavaleiro das Trevas, de 2008, (cuja análise pode ser lida aqui), iniciou uma revolução na indústria cinematográfica, elevando as produções sobre super-heróis a outro patamar. O público não aceitaria mais roteiros simplórios e filmagens mequetrefes. A cartilha pregava agora um nível mínimo de qualidade e, sobretudo para o próprio Batman, uma obrigação de contar uma estória com alguma relevância. A presença ou a falta deste último elemento passou a significar a diferença entre o êxito (vide Vingadores) e o fracasso (vide Lanterna Verde).

 

No caso de uma segunda continuação para o Batman de Christopher Nolan, havia outros desafiadores fatores. O primeiro, óbvio, era o fato de que o seu último filme sobre o Homem-Morcego era indefectível, com um roteiro sensacional e inesperado para um filme do tipo. O segundo é que, em um determinado aspecto, este filme seria insuperável, já que o Coringa, o mais icônico inimigo de Batman, não retornaria ao universo de Gotham. A interpretação única de Heather Ledger (morto pouco tempo após o término das filmagens) havia eliminado qualquer possibilidade de retorno do personagem com outro ator. O terceiro problema era que Nolan tinha em mente um conceito do que seria o roteiro de um terceiro filme desde que escreveu o roteiro de Batman, O Cavaleiro das Trevas. E o Coringa era peça fundamental neste plot. Como manter o arco desejado com um imprevisto desta magnitude?

 

Após o furacão…

 

“Eu tenho que perguntar:”, Nolan chegou a confessar, em 2008, “de quantos bons terceiros filmes podemos nos lembrar?”. A grande questão é que o diretor estava realmente temeroso que uma nova seqüência da sua franquia pudesse ser redundante.

 

Ainda naquele ano, ele e seu co-roteirista David S. Goyer entregaram um esboço para a Warner. A confirmação de que um terceiro filme seria feito ocorreu durante a produção de A Origem. Logo em seguida, o elenco que participou dos dois primeiros filmes também confirmou seu retorno.

 

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Importante observar que, pelo menos desde o lançamento de Batman – O Cavaleiro das Trevas, Nolan sempre deixou bem claro que inicialmente pensava em filmar uma trilogia do Homem-Morcego, e que não faria um quarto filme. O estúdio também sinalizou que a franquia terminaria nesta terceira produção, pois precisava do personagem em um universo não tão realista, para que pudesse incluí-lo em um filme da Liga da Justiça. Com isto, duas coisas ficaram bem claras: teríamos uma conclusão de saga nesta produção e, com a liberdade criada pela falta de uma obrigação de continuidade, qualquer coisa poderia ser feita com Gotham, Batman e os demais personagens, o que enriquecia as possibilidades da trama.

 

Foi grande a especulação sobre o roteiro do novo filme na internet. O público ansiava por saber, na falta do Coringa e do Duas-Caras, quem seria o seu vilão. Divertidas hipóteses e montagens muito bem feitas de possíveis cartazes surgiram na rede.

 

Um forte rumor dizia que o Charada seria o vilão da vez, interpretado por Johnny Depp. O boato tinha alguma profundidade, pois foi acrescido até de um plot: Eduard Nigma seria um serial killer que deixaria pistas para a polícia de Gotham sobre qual seria seu próximo crime e sobre sua identidade. Outra que inventaram é que Philip Seymour Hoffman viveria Oswald Cobblepot, o Pingüim, que no universo realista de Nolan se tornaria um traficante internacional de armas. E até Angelina Jolie foi aventada como a Mulher-Gato. Tudo balela, como ficou sabendo-se depois.

 

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A única proximidade destes boatos com a realidade foi que, devido à semelhança do personagem com o Coringa, a Warner realmente desejava ter o Charada como o vilão principal da seqüência, interpretado por Leonardo DiCaprio. Nolan porém não viu maneira de Nigma caber no fechamento que ele previra para a franquia.

 

Isto porque o roteiro precisava de um implacável “agente do caos”, papel que seria do Coringa. A necessidade, portanto, era de um vilão que ameaçasse não apenas indivíduos, mas a coletividade de Gotham como um todo. E assim Nolan acabou optando por Bane.

 

A escolha deu-se porque, além do seu ameaçador porte físico (característica inexistente até então nos vilões dos filmes anteriores), Bane era a antítese do Coringa. Comparando os personagens, Nolan explicou que, enquanto o personagem de Ledger era “um exemplo de caótica anarquia, com um senso de humor demoníaco”, este novo vilão seria “um monstro clássico do cinema com um cérebro prodigioso”. Ele desejava para o terceiro filme o criminoso definitivo, calculista e letal.

 

Mas ele não viria só. O roteiro traria também a Mulher-Gato, a ladra ambígua que ora era vilã, ora aliada de Batman. Nolan explicou em uma entrevista à revista Empire que sua decisão de incluí-la baseou-se no fato de que a personagem era um componente importante do universo do Homem-Morcego, e que sem ela, sua visão do herói seria incompleta – um sacrilégio, segundo suas próprias palavras.

 

Assim como aconteceu com os filmes anteriores, Nolan utilizaria conceitos estabelecidos em importantes obras sobre o Batman nos quadrinhos como elementos do roteiro. Seriam elas as sagas A Queda do Morcego e Terra de Ninguém.

 

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E a produção começa…

 

Todos os personagens que haviam sobrevivido aos dois filmes anteriores retornariam, sendo interpretados pelos mesmos atores, que declararam publicamente seu desejo de atuar no último filme da franquia. Christian Bale, ainda um entusiasta dos métodos de luta keysi, teve que adaptar seu estilo de luta para viver um Batman oito anos mais velho e não tão em forma quanto anteriormente.

 

Como de costume, as dúvidas eram sobre quem interpretaria os personagens novos, mais especificamente, os vilões. Porém, desta vez Nolan contaria com costumeiros colaboradores dos seus filmes para estes papéis. Para viver Bane, Nolan convidou o ator Tom Hardy, com quem havia trabalhado em A Origem. Segundo o diretor, a escolha deu-se pela impressionante capacidade de transformação do ator. O ator (que mostrara que tinha porte físico e personalidade para o vilão nos filmes Bronson e Guerreiro) aceitou o papel, tendo que aumentar seu peso em 14kg para interpretá-lo.

 

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Já para o papel de Selina Kyle, a Mulher-Gato, foi contratada a atriz Anne Hathaway, que impressionou Nolan durante um teste para o papel com sua interpretação precisa de uma ladra sofisticada, dissimulada e enigmática. Durante o processo de pré-produção, Hathaway treinou intensivamente algumas artes marciais, e confessou que seu personagem obrigou-a a dobrar seus esforços na malhação.

 

Do cast de A Origem, Nolan também recrutou mais duas estrelas: Joseph Gordon-Levitt, para interpretar o policial John Blake, admirador do Batman e um fiel agente do Comissário Gordon. Blake representaria o idealismo que o Homem-Morcego inspirou nos habitantes de Gotham. E Marion Cotillard, que viveria Miranda Tate, uma milionária executiva, membro do Grupo Wayne e filantropa. Tate seria o interesse romântico de Bruce Wayne no filme e, de quebra, representaria a alta cúpula da cidade engajada em projetos sociais (como um dia fora o pai de Bruce Wayne).

 

Para compor a trilha sonora do filme, Hans Zimmer mais uma vez estaria de volta, porém desta vez sem James Newton Howard, que achou que seria desnecessária sua participação na obra. Como de praxe, Zimmer compôs faixas para cada personagem importante no longa. Ele declarou que buscou um tom meio ambíguo para a Mulher-Gato e seguiu “uma direção completamente diferente para Bane”. Uma curiosidade: em uma iniciativa muito criativa, Zimmer convidou os fãs a participarem de alguma forma do terceiro filme da trilogia. O compositor precisava gravar o canto que seria entoado pelos prisioneiros em determinados momentos do filme – canto este que continha apenas as palavras marroquinas “deshi basara” ditas em uníssono por centenas de pessoas. Dada a dificuldade de coletar tantas vozes, Zimmer twittou que estava aceitando gravações do público para integrá-las nesta faixa. Foi atendido por milhares de fãs, cujas vozes ficaram eternizadas no filme!

 

(Você pode ouvir a trilha no Facebook através deste link aqui.)

 

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Marketing

 

Assim como ocorreu com Batman – O Cavaleiro das Trevas, o terceiro filme também teve o seu viral. Embora não fosse tão contagiante quanto o anterior, dado que já não era nenhuma novidade, deu também sua parcela de criatividade ao mundo do cinema. Consistia de um website cuja página inicial era totalmente negra (com o canto “deshi basara” como fundo musical). A cada vez que a hashtag “#TheFireRises” era twittada, um pixel negro era substituído pelo de uma imagem oculta. Quando todos os pixels foram substituídos, a primeira imagem oficial de Bane foi revelada.

 

Aurora, Colorado

 

Assim como aconteceu com seu antecessor, contudo, o filme teve uma promoção indesejada, causada por outra tragédia. No dia 20 de julho de 2012, o americano James Eagan Holmes disparou na platéia que assistia a uma seção noturna do filme na cidade de Autora, no Colorado, vitimando 12 pessoas e ferindo outras 58. Holmes, que usava uma máscara de gás no momento do atentado, foi preso no local, alegando ser o Coringa.

 

O crime fez com que vários comerciais do filme fossem retirados do ar, e algumas premieres programadas ao redor do mundo foram canceladas. Christopher Nolan declarou publicamente seu repúdio pelo que chamou de “violência intolerável” e o ator Christian Bale chegou a visitar pessoalmente sobreviventes do atentado e o memorial erguido na cidade por causa do crime.

 

O fechamento de um ciclo

 

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“Épico!” “Brilhante!” “Incrível!”

 

Assim a crítica especializada definiu Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Ovacionada, a obra foi muito bem recebida e, tal qual seu antecessor, foi quase uma unanimidade entre os profissionais da área. Ao custou de US$ 250 milhões, a produção tornou-se o mais caro filme de super-herói feito até seu lançamento, estreando em 16 de julho de 2012. Até o momento em que estou escrevendo este artigo faturou US$ 544 milhões (com duas semanas de exibição), o que já o configura também como sucesso de público.

 

Afinal, Nolan entregou o esperado? Sim, caros leitores, cumpriu. Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filmaço! Ainda mantendo o tom cru e violento de Batman, O Cavaleiro das Trevas, a seqüência continua a investir em temas pesados e controversos, como a necessidade de sacrifícios pessoais para a obtenção de resultados. E se o desafio de superar o seu antecessor talvez não tenha sido atingido, não se pode dizer que a desconstrução de Batman não tenha sido mais profunda.

 

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Gotham vive, no início da película, uma sensação de paz como há muito não se via. Passados oitos anos após a morte de Harvey Dent, que deu nome e incentivo a uma lei que colocou atrás das grades os maiores criminosos da cidade, encontramos seus habitantes reagindo exatamente como planejado por Batman no final do filme anterior: acreditando que Dent morreu como herói, assassinado pelo Homem-Morcego, desaparecido desde então. É neste cenário de conforto e prosperidade, ameaçado pela chegada de um mal de proporções nunca vistas antes, que Nolan irá mostrar pela derradeira vez que filme de herói é coisa séria.

 

Pela primeira vez na trilogia, podemos contemplar Gotham na sua totalidade, em panorâmicas e planos que circundam a cidade mostrando todos os seus principais pontos. E é esta semelhança com uma cidade real que causa impacto no público quando Gotham começa a ser destruída, ao som da trilha eficientemente assustadora de Zimmer, em cenas que fariam inveja aos produtores dos filmes-catástrofe da década de 70.

 

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O afiado elenco secundário não podia deixar a desejar no último capítulo da saga, e não é exagero nenhum dizer que sua exigência neste filme foi a maior de toda a trilogia. Gary Oldman passa boa parte da película sem grandes desafios, já que o Comissário Gordon desfruta da relativa paz de uma cidade pacificada. Na segunda metade do filme, no entanto, diz ao que veio, e sua interpretação de um homem comum de meia idade durante as cenas de ação é convincente e natural.

 

Mas é Michael Caine quem protagoniza as cenas mais tocantes da obra, no papel de um Alfred que é muito mais um pai temeroso e sofrido que um mordomo. A interpretação do oscarizado ator é comovente, e quase sentimos raiva de Bruce Wayne por não ceder aos pedidos do velho serviçal e deixar de se expor ao perigo.

 

Joseph Gordon-Levitt dá a vida a um John Blake perfeito em todos os aspectos. Valoroso e corajoso, até um pouco imprudente, demonstra eficazmente o legado que Batman deixou aos cidadão de Gotham. Não à toa, suas atitudes e palavras são capazes de devolver esta mesma motivação a um desesperançado Bruce Wayne. Ponto para o ator que, assim como fez em A Origem, demonstrou seu talento para cenas de ação.

 

Por outro lado, Marion Cotillard pouco tem a fazer como Miranda Tate, que parece estar sobrando ali o tempo todo, ganhando certa importância apenas ao final do filme. Não exatamente culpa da atriz, mas do papel que lhe deram.

 

Já Anne Hathaway como Selina Kyle consegue ser sensual e ambígua no nível correto, mas o roteiro também não é muito generoso com a ladra, que não chega a representar nem um perigo de verdade, nem um autêntico interesse amoroso de Wayne/Batman para se contrapor à Miranda Tate. No entanto, suas excelentes cenas de ação talvez tenham garantido um spin-off a ser produzido em breve para a personagem.

 

Christian Bale por sua vez nos entrega sua melhor interpretação de Bruce Wayne de toda a trilogia, fazendo-nos entender definitivamente o porquê da escolha de Nolan em tê-lo como protagonista. Encontramos seu amargurado personagem inicialmente magro, combalido e dependente de uma muleta para então testemunharmos uma verdadeira transformação, primeiramente no campo psicológico, quando Wayne percebe que não tem o direito de envelhecer como um recluso e se empolga (genuinamente) ao voltar à ativa, e, num segundo momento, em sua aparência física, quando ele começa a voltar à sua antiga forma. Bale definitivamente é uma estrela fadada a encontrar em breve o papel que lhe dará o Oscar.

 

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Quanto a Tom Hardy, o ator tinha um desafio duplo pela frente. O primeiro era o de substituir o Coringa como vilão. O segundo era o de atuar por baixo de uma enorme focinheira que não deixava quase nada do seu rosto para ser visto, com exceção dos olhos e das sobrancelhas. E o resultado foi que ele conseguiu superar ambos os problemas e deu ao Batman um vilão à sua altura.

 

Não que seja justo comparar sua atuação a de Heather Ledger. A sua interpretação de Coringa foi absolutamente singular. Para sorte (ou azar, dependendo do ponto de vista), Bane exigia outro nível de interpretação. E Hardy encontrou o tom certo.

 

O Coringa era um psicopata imprevisível; Bane é a personificação de um terrorista frio, meticuloso e impiedoso. Se o vilão do filme anterior é insuperável em quase todos os quesitos, justiça seja feita: Bane acabou por representar uma ameaça muito maior para Batman e para Gotham que o seu antecessor. Estivesse Ledger vivo, a estória podia ser outra. Na falta dele, Tom Hardy cumpriu o seu papel muito bem.

 

Prova disso é que sua atuação consegue superar a dificuldade da máscara. Todo o trabalho de interpretação é feita com seus olhos e sua voz – e aqui cabe uma importante observação: quem assistir à versão dublada do filme perderá o espetáculo que é ver o ator demonstrar a mudança de humor apenas com alterações no tom e inflexão da voz. Dificilmente o dublador irá investir o mesmo tempo de treinamento que Hardy despendeu para definir a forma como mudaria do sarcasmo ao desprezo apenas com mudanças na cadência da fala.

 

Embora este capítulo da trilogia não seja tão impecável quanto o anterior, com alguns pequenos deslizes de roteiro (como o fato de quase todos os policiais de uma cidade estarem nos esgotos ao mesmo tempo) e algumas polêmicas escolhas (a saída de cena de um importante personagem não está à altura do que o mesmo representou para a obra), definitivamente Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge complementa satisfatoriamente a franquia dirigida por Nolan.

 

O diretor fecha assim sua trilogia de forma coesa e eficiente, e a sensação que se tem ao sair da sala de projeção é de ver um ciclo se fechar de forma perfeita. Com algumas revelações e cenas finais capazes de levar igualmente fãs do personagem e espectadores eventuais ao delírio, o encerramento da saga reserva para o filme lugar de honra entre as melhores produções de heróis já filmadas.

 

E a trilogia do Batman de Christopher Nolan, como um todo, eleva desde já o diretor ao panteão de um dos melhores profissionais de sua geração. Uma salva de palmas para todos os que participaram dessa fantástica empreitada!

 

Perfil Coxinha

Cyber

Cyber considera a franquia do Batman de Nolan a obra definitiva sobre o
Homem-morcego, e não aceita imitações.
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Cris Siqueira
por

Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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