Batman Begins

-por , em 17/07 -
Batman Begins

Depois que a franquia noventista do Homem-Morcego ressuscitou (veja aqui) e quase matou novamente (veja aqui) as superproduções sobre super-heróis, Batman foi colocado de lado por um hiato de alguns anos. A verdade é que enquanto Homem-Aranha e X-Men emplacavam nos cinemas, menções aos filmes do Cavaleiro das Trevas eram acompanhadas por risos e (merecidas) críticas.

 

Porém, Hollywood sempre soube o potencial do personagem e não desistiria facilmente. Com a chegada do novo milênio, o público ansiava por produções mais sérias e com menos pirotecnia do que aquelas que dominaram as duas últimas décadas. E Batman era uma escolha adequada, se fosse utilizada a visão mais soturna do personagem.

 

Mas ninguém estava preparado para o que viria. Batman voltaria… e de forma apoteótica!

 

As propostas recusadas

 

Mesmo depois de quase destruir a reputação de Bruce Wayne, Joel Schumacher não havia desistido. Um quinto filme dirigido por ele, “Batman Triumphant”, chegou a ter roteiro e começou a ser produzido. Mas a Warner acabou pensando melhor e desistiu da idéia.
Outra proposta para um quinto filme da franquia sem Schumacher também foi aventada. Com o nome de “Batman: Dark Knight”, teria como vilão uma criatura criada pelo Espantalho chamada Man-Bat que seria confundida com Batman, obrigando o herói a limpar seu nome. Este roteiro acabou por ser também engavetado, e a franquia foi oficialmente abandonada.

 

Depois disto, surgiram um roteiro que colocaria Batman e Superman em um mesmo filme, que também não foi à frente, e uma outra idéia, esta muito curiosa: a de se produzir um filme com um Batman mais velho, interpretado por Clint Eastwood! Nunca saberemos se o abandono da proposta foi uma coisa boa ou ruim, mas que isto mudaria completamente os rumos do herói do cinema, disso ninguém discorda…

 

Finalmente, começou a se aventar o conceito de filmar Batman: Year One, baseado na série animada de mesmo nome, onde seriam contadas as primeiras aventuras do Homem-Morcego. Esta proposta surgiu e desapareceu algumas vezes, e acabou por tomar forma lentamente. Joel Schumacher (que ainda não tinha se dado por vencido) interessou-se pela idéia, prometendo desta vez um Batman mais real, mas a Warner não lhe deu muita atenção.

 

E a produção começa…

 

Em 2003, a Warner procurou o diretor Christopher Nolan, que já havia filmado o excelente “Amnésia” e o regular “Insônia”, em busca de alguém que pudesse dar uma roupagem mais séria para o Homem-Morcego. Nolan, que apesar de não ser fã de quadrinhos via muito potencial no personagem, não pensou duas vezes. E em dois meses escreveu, em parceria com o também diretor e roteirista David Goyer, o script original do filme. De acordo com Nolan, desde o início pensou-se em contar as origens do Batman, mas de forma mais humana e próxima da realidade.

 

Para viver o personagem título, atores como Jake Gyllenhaal , Billy Crudup e Joshua Jackson fizeram testes. Quando Christian Bale, que já havia expressado interesse pelo personagem alguns anos antes, apareceu para o casting, ainda estava terrivelmente magro por ter interpretado há pouco tempo o protagonista de “O Maquinista” e ainda não havia voltado ao seu peso normal. Nolan fez os testes e chegou à conclusão (segundo suas palavras) de que Bale era “o exato balanço entre escuridão e luz” que ele procurava. Mas havia uma condição: o ator deveria engordar 45kg até o início das filmagens. Bale contratou um personal trainer e conseguiu o objetivo, mas, quando voltou ao set, Nolan assustou-se com o tamanho que o ator atingira. “Ele parecia um urso!”, disse o diretor posteriormente. Como seu físico estava exagerado para viver o Batman, Bale teve que perder peso durante as filmagens.

 

batman begins

 

A produção estava decidida a ter um elenco de peso neste filme. Assim, para viver o fiel mordomo Alfred Pennyworth que criaria Bruce Wayne após o assassinato dos seus pais, foi contratado Michael Caine. O papel do emblemático (e ainda jovem) Tenente Gordon também não podia ser relegado a qualquer ator, e Gary Oldman juntou-se ao elenco. Morgan Freeman viveria Lucius Fox, o funcionário das Organizações Wayne que se tornaria o armamentista do herói, e Rutger Hauer interpretaria William Earle, o ambicioso presidente da companhia na ausência de Bruce.

 

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Um personagem presente nas primeiras versões do roteiro porém eliminado posteriormente foi Harvey Dent. Em seu lugar, representando a justiça de Gotham, foi acrescentada Rachel Dawes, interpretada por Katie Holmes, que também seria o interesse romântico de Bruce Wayne.

 

Quanto aos vilões, Nolan tinha uma preocupação. Em todos os filmes anteriores do Homem-Morcego eles roubaram a cena, sobrando para o intérprete de Bruce Wayne um insosso papel, muito menos interessante. O diretor desejava mudar isto, fazendo uma obra que pudesse chamar de “o filme do Batman”. Assim, ele optou por escalar um personagem com menos expressão no universo do herói. E acertou na mosca com o Espantalho, que além de menos conhecido pelo grande público, não tinha ainda sido utilizado em nenhum outro filme. De quebra, por ser um vilão clássico, não atrairia a ira dos fãs. Para vivê-lo, Nolan não titubeou: contratou Cillian Murphy,que também tinha feito testes para interpretar Batman e, apesar de não ser sido escolhido, impressionou o diretor.

 

Os demais vilões da história seriam Ra’s al Ghul (Ken Watanabe) e o mafioso Carmine Falcone (papel de Tom Wilkinson). E Liam Neeson interpretaria Henri Ducard, mentor do herói.

 

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A trilha sonora desta vez ficaria a cargo de Hans Zimmer e James Newton Howard. Zimmer decidiu dar ao filme uma música que ajudasse o diretor em sua tentativa de humanizar Batman. Tendo isto em mente, compôs uma trilha com sentido de urgência – e um toque de psicose.

 

Com todos estes elementos, o filme foi lançado em junho de 2005, ao custo de US$ 150 milhões de dólares.
O morcego retorna… vitoriosamente!

 

O filme foi um sucesso instantâneo. Arrecadando cerca de US$ 372 milhões nas bilheterias, recebeu inúmeros elogios da crítica especializada em todo o globo. Batman Begins colocou mais uma vez o personagem no panteão de heróis mais cultuados do cinema e deu início a uma lucrativa franquia, mostrando ao mundo que a trágica e perturbadora trajetória do Homem-Morcego poderia render filmaços.

 

O êxito artístico e comercial da película deu-se por um conjunto de fatores, a começar pela atmosfera adotada por Nolan, que tentou não se afastar da realidade ao contar uma estória de super-herói – e a primeira coisa que ele fez foi mostrar que a única coisa super em Bruce Wayne é a sua determinação. O personagem é totalmente tridimensional, com medos, dúvidas e fraquezas bem visíveis.

 

No filme, o próprio conceito de vigilante mascarado é um constructo do próprio Batman, que vive em um mundo onde não existem outros como ele. Nolan queria que a idéia de Bruce Wayne vestir um uniforme e combater vilões fosse original (impossibilitando com isso qualquer chance de seu Batman fazer parte de uma Liga da Justiça posteriormente). Interessante notar que na origem do Batman criada por Bob Kane, os pais de Bruce eram mortos ao saírem do cinema após ver um filme do Zorro (o que teria dado ao garoto a idéia de se tornar um ícone semelhante), detalhe que Nolan não aproveitou em seu filme para manter a originalidade do conceito criado por seu personagem.

 

Sua Gotham é sombria, mas não muito diferente de Chicago, Berlim ou Rio de Janeiro. Sua violenta criminalidade é comum e seus vilões mascarados são loucos ou paródias do próprio herói. Nolan contou que o visual da metrópole foi inspirada em “Blade Runner”. Mesmo os apetrechos de Batman são factíveis e a função de Lucius Fox é justamente a de equipar o Homem-Mocego. Seu Batmóvel, agora chamado de Tumbler, é um tanque. O uniforme é um conjunto de peças adquiridas em separado que formam uma armadura.

 

As interpretações são um espetáculo à parte. Bale provou-se o melhor Bruce Wayne até então, vestindo bem o uniforme do Morcego e passando a credibilidade exigida pelo personagem. O time composto pelas demais estrelas esbanja talento (ponto para Nolan, que parece ter exigido o melhor de todos), com destaque para o Alfred de Michael Caine e o Gordon de Gary Oldman, sensacionais!
O roteiro é outro ponto a favor. Acompanhamos com interesse o que leva um milionário optar por se tornar um combatente do crime ao invés de um playboy arrogante, tendo que se passar pelo segundo para não revelar-se o primeiro. Entendemos suas motivações, compreendemos o porquê de se tornar um símbolo, torcemos a seu favor e tememos seus inimigos. Conhecemos melhor a personalidade íntegra e visionária de seus pais – e com isto percebemos porque os valores de Wayne lhe são tão caros.

 

 

Conseqüentemente, nos preocupamos quando percebemos que as habilidades de um homem apenas podem não estar à altura do desafio representado pelos vilões.

 

Denso o suficiente para nos fazer perceber nuances diferentes a cada vez que o assistimos, capaz de nos levar a reflexões sobre a sanidade do personagem e a violência de uma sociedade muito semelhante à nossa, Batman Begins provou-se digno de trazer de volta às telas um personagem complexo como aquele das graphic novels da década de 80.

 

Em sua última cena, o filme ainda nos indica que veremos mais daquele universo, com a expectativa de também retratar futuramente o maior algoz do Homem-Morcego. O melhor ainda estava por vir…

 

Perfil Coxinha

Cyber

Cyber considera a franquia do Batman de Nolan a obra definitiva sobre o
Homem-morcego, e não aceita imitações.
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Cris Siqueira
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Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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