A melhor maneira de morrer – Capítulo final (Parte II)

-por , em 05/06 -
A melhor maneira de morrer – Capítulo final (Parte II)

 

(…) Aquela tempestade durou um dia inteiro. O tempo que Yabu precisou para se recuperar totalmente do desgaste causado pelo duelo. Em dois dias eles se prepararam para fazer uma viagem às terras da Garça, onde Yabu prestaria contas a Kakita Ichiro pela morte de Kazuki. Enishi o acompanharia escoltado por uma comitiva de dez bushis Tsuruchi escolhidos pelo próprio daimyo e liderados por sua tia Tsuruchi Aya. Nobumoto e Izumi ficaram em Kyuden Ashiganabaki cuidando dos assuntos da família até que Enishi voltasse.


A viagem se mostrou bastante segura e não tiveram maiores complicações, os dias que se seguiram estavam bastante frios, mas a tempestade havia passado já há bastante tempo, só algumas pancadas de chuvas ocasionais trazidas do leste, um tanto estranho para uma estação fria e seca como o outono.

 

A viagem durou cerca de duas semanas. Próximo de chegar às terras da Garça, Enishi fez uma proposta a Yabu. – Yabu-san?

 

– Hai, Enishi-sama!

 

– Você disse que tem um filho. E que criou uma escola de duelos, certo? Perguntou Enishi.

 

– Sim, Enishi-sama. – Afirmou Yabu.

 

– São heimins, não têm nenhum daimyo a quem responder. Vivem numa vila heimin no meio do nada, onde é assolada por inúmeros perigos. Diga-me, é esse o futuro que deseja para seu filho e seus discípulos? – Enishi questionou Yabu pela primeira vez.

 

– Enishi-sama. – Yabu fez uma expressão triste. – Meu filho, Yaemon tem apenas quatro anos. No momento está aos cuidados da irmã de Chichio, minha esposa que morreu há um ano. Meus discípulos se dedicam no desenvolvimento do meu estilo criado por mim e Kenzen é um excelente espadachim. Apesar de ser jovem, apenas dezesseis anos, tem a maturidade de um homem bastante vivido, é inteligente, um gênio com uma katana. Não tem sangue samurai, é um heimin, mas derrotaria muitos samurais em um duelo. Os outros dois discípulos são Jiro e Kouji. O primeiro tem treze anos e o segundo apenas doze, mas já demonstraram grande talento e Kenzen assumiu o treinamento deles. Tudo é muito promissor, mas realmente vivem sob grande perigo todos os dias. Nunca sabemos o que esperar no dia seguinte em Doko no mura.

 

– Alguns ronins foragidos resolveram se unir a nós na proteção da vila e alguns homens e mulheres passaram a cultivar alimentos dentro de nosso próprio espaço. Lentamente, estamos nos tornando autossuficientes. Além disso, eu havia me tornado uma espécie de “daimyo” daquela vila. Era o líder deles, quase todas as questões da vila passavam por mim. Ao sair de lá, deixei tudo nas mãos de Kenzen e a liderança nas mãos de Shougo, pai de Chichio. É um velho bem experiente e justo. Aprendi muito com ele…

 

Enishi por fim falou. – Mas você acha justo deixar seu filho e seu legado a mercê desses perigos, Yabu-san?

 

Yabu sorriu, começando a ter uma ideia de onde Enishi pretendia chegar. – Mais uma vez está certo, Enishi-sama. De fato, viver em Doko no mura é uma temeridade. Mas eu fui abençoado pelas fortunas, apesar do meu karma. Tornei-me um ronin miserável e desonrado. Assassinei uma duelista que me venceu honradamente e assassinei também meu melhor amigo. Tornei-me um pária sem rumo, vagando por Rokugan até ser encontrado pela morte. Mas ao invés dela, acabei sendo encontrado por uma humilde família de heimins que mesmo sabendo que eu poderia ser um samurai perigoso, cuidaram de mim, me deram abrigo. As fortunas estavam agindo, Enishi-sama. Aprendi a respeitar os inferiores, me casei com a filha mais nova dessa família. Veja só como são as coisas, descobri o verdadeiro sentido do bushido ali, na “vila no meio do nada” *.

 

Yabu deu uma pausa e continuou. – Mas eu havia cometido dois crimes, dois assassinatos. Toda a lição que eu aprendi em Doko no mura não teriam nenhum valor se eu não corrigisse isso. Tinha que pagar pelos meus crimes contra o bushido. Então decidi me preparar para o encontro com você, única testemunha viva daqueles crimes. Desenvolvi um estilo próprio e criei uma pequena escola, onde fiz bons discípulos. Kenzen é uma joia rara, tenho muito orgulho dele. Quando eu o conheci, era um menino que mal sabia falar direito, vivia na rua em meio à lama, se alimentava de restos de comida, mas quando o vi, percebi uma chama acesa em seus olhos. O adotei, dei abrigo e comecei a ensinar o fundamento do kenjutsu. Ele evoluiu mais rápido que qualquer mestre Kakita que jamais vi.

 

Quando percebi que ele finalmente estava pronto, decidi que seria hora de ir ao encontro do meu destino, e meu legado deixei aos cuidados das fortunas, afinal, se elas me permitiram criar isso tudo nessas condições, não deixará se perder assim com qualquer coisa.

 

– Entendo seu ponto de vista, Yabu-san. – Disse Enishi.

 

– Eu tenho uma proposta a lhe fazer. – Continuou. – Chegando a Shiro Sano Kakita, contarei a sua história, nossa história para Kakita Ichiro e lhe enviarei um pedido oficial com o selo Mantis solicitando o perdão a sua pessoa. Com o perdão, convidarei você, sua família e seu legado para fazer parte dos Tsuruchi como uma família vassala. O que acha?

 

Yabu sorriu, mas não era um sorriso de desdém e nem de felicidade.

 

– Enishi-sama, eu agradeço muito pela sua proposta e seria uma honra para mim se isso acontecesse, mas só através da minha morte meu filho terá um futuro digno. Entende isso?

 

– Além do mais, – continuou. – Eu já passei meu legado para Kenzen-san, não tenho mais poder sobre ele…

 

– Compreendo Yabu-san. Enishi assentiu com a cabeça, sorrindo. Entendeu perfeitamente o que Yabu queria dizer.

 

Antes de chegarem ao portão de entrada do castelo Kakita na muralha foram parados por guardas. A autoridade do daimyo Tsuruchi fez com que pudessem passar pela primeira barreira sem maiores problemas. Do lado de dentro passaram por um lindo e extenso jardim de rosas com o castelo ao fundo. Kakita Ichiro, daimyo dos Kakitas, já sabia de sua visita e realizou os preparativos adequados.

 

A morada do daimyo Kakita, apesar de que se comparado a Kyuden Doji parecer de procedência bem mais humilde, conseguia transmitir a sutil elegância da Garça. Os jardins de rosas eram bem elaborados com vários caminhos, onde cada caminho contava a história de alguns de seus daimyos anteriores. Essas “histórias” não eram contadas de forma escrita, mas através de simbólicos objetos que representavam alguma fase da vida dos personagens da história. Era preciso ter alguma sensibilidade para poder captar o significado desses elaborados jardins. Enishi pôde perceber a trajetória de Kakita Noritoshi, daimyo anterior e pai de Ichiro em um dos caminhos do jardim. O castelo ficava no alto de um elevado de pedra, construído há anos atrás para proteger seus moradores de invasões de exércitos inimigos, o clã Leão inúmeras vezes comprovou a necessidade da construção desse elevado. Após o castelo no ponto mais alto do elevado, era possível notar duas altas torres de observação, onde era possível avistar exércitos inimigos a alguns dias de sua chegada.

 

(Continua amanhã…)

Cris Siqueira
por

Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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