Assombro. Essa era a expressão de todos ali presentes. Nobumoto mantinha a expressão séria e serena de sempre, mas estava claro que se encontrava tão surpreso quanto todos ali. Izumi estava com a boca entreaberta e os olhos arregalados. Toshiro e Hana estavam de mãos dadas e Kido, a mais velha, abraçava os irmãos Rekai e Ichiro. Todos com a mesma expressão. Os filhos estavam mais horrorizados, pois por um breve momento acharam que ele iria mesmo morrer. As servas, mais assustadas do que todos, colocavam uma de suas mãos sobre a boca enquanto tentavam proteger Izumi e as crianças da chuva que agora caía bem forte. Todos, com exceção de Nobumoto se protegeram na varanda que ficava na porta de saída do castelo para o pátio, se afastando mais.

 

Os dois estavam ali, imóveis, tão surpresos quanto os espectadores. Enishi estava com o corpo mais inclinado para frente, sua famosa lâmina Kakita a meio palmo de distância do pescoço de Yabu. Este se encontrava também inclinado para frente, sua katana desembainhada encostara de leve no lado direito do rosto de Enishi, o suficiente para fazer um fino corte e um pequeno filete de sangue escorrer pelo rosto. Era um ferimento bem artificial e pequeno, e o sangue escorrido rapidamente sumiu em meio às gotas de chuva, Yabu parou no momento certo, preciso. Ele havia vencido o duelo.

 

Yabu caiu de joelhos com sua katana jogada ao chão. Parecia respirar com dificuldade. Enishi olhou-o surpreso, não entendia porque ele caiu de repente, ele nem o atingiu.

 

– O desgaste… Foi muito grande… – Yabu falou. Suas palavras parecendo um sussurro, mal davam para serem ouvidas com o barulho da forte chuva que caía. Mas mesmo assim ele continuou. Enishi podia ouvi-lo apenas porque estava bem próximo. – Enishi-sama… Eu venci o duelo… Mas nunca me desgastei tanto me concentrando em um… Adversário. Dei tudo de mim… Daria a minha vida para vencê-lo… Apenas por isso eu o venci… Enishi-sama…

 

– Sim, essa foi a nossa diferença não é Yabu-san? Eu estava determinado a vencê-lo para vingar a morte de uma amiga assassinada por você, mas você colocou toda a sua alma neste duelo. O duelo foi desgastante para mim também, demos tudo de si. Jogamos todas as nossas energias para conseguir uma boa análise nossa nesse duelo. Qualquer um poderia ter vencido este duelo. – Enishi continuou. – Seu plano era morrer em sua terra natal. Cometer seppuku nas terras Bayushi seria um tanto humilhante para você, não é mesmo? – Enishi fitava Yabu, sua autoridade sendo restabelecida novamente. Não era mais um duelista. Estava falando o daimyo Tsuruchi. Yabu percebeu a mudança de postura.

 

– Sim, Enishi-sama… Preciso recuperar minha honra diante da Garça. Se eu me dedicasse menos do que me dediquei, não teria a menor chance. Sua imensa honra o tornou imprevisível no duelo. – Yabu, ainda de joelhos, se prostrou diante do daimyo, pondo sua testa encostada no chão e tornou a falar. – Obrigado, Enishi-sama. Obrigado por me conceder a honra de duelar com você. Este foi o duelo mais importante da minha vida, e o mais difícil também. Quero que saiba que em relação a isso, me sentiria honrado da mesma forma se tivesse perdido para você.

 

Enishi olhou para Yabu ali, prostrado. Estava se sentindo leve, como se tivessem lhe tirado um peso dos ombros. Não imaginava o quanto esse desejo de vingança pesava. Agora realmente acabou. Apesar da derrota, Enishi tinha a sensação que Bayushi Kido havia sido vingada, pois aquele Yabu de outrora definitivamente morreu. Pôde imaginá-la ali, de pé, de frente para ele, jovem como da última vez, com suas roupas excêntricas de cor vermelho-sangue com detalhes negros que destacavam seu charme exclusivo do clã Escorpião, seus longos cabelos negros jogados sobre os ombros. Sua máscara, característica marcante do clã, que não passava de um par de fitas vermelhas, uma amarrada na testa e a outra atravessando o nariz bem abaixo dos olhos. Pôde imaginá-la fazendo uma mesura em agradecimento.

 

Enishi conteve a emoção e se recompôs. O daimyo assumindo novamente.

 

– Levante-se Yabu-san! Levante-se! Você venceu o duelo! Pelo acordo, deverá cometer seppuku nas terras da Garça e eu serei seu kaishaku!

 

Yabu sentiu a mudança de postura do homem a sua frente e obedeceu. Sentindo o desgaste diminuir, se levantou, pegou sua espada e a embainhou. Em seguida fez uma mesura a Enishi se inclinando até a altura da cintura. Enishi apenas assentiu com a cabeça…

 

(Continua amanhã…)