(…) Enishi foi recebido de acordo com sua honra. Era muito bem visto entre os Kakitas por ter vivido com eles durante nove anos e Ichiro era amigo do daimyo Tsuruchi.

– Enishi-san! Seja muito bem vindo a minha humilde residência. – Ichiro recebeu os visitantes pessoalmente. Vestia um obi branco com estampas de flores em variados tons de azuis e seus longos cabelos negros estavam soltos e úmidos, como se tivesse acabado de sair do banho. Seu daisho elegantemente preso ao seu lado esquerdo, mas era possível notar a ausência de uma katana.

 

– Ichiro-san, meu amigo! – Enishi retribuiu-lhe a gentileza com uma mesura. – É bom vê-lo, igualmente.

 

Ichiro convidou Enishi para a cerimônia do chá. Yabu ficou aguardando nos jardins. Ichiro quase não lhe dirigiu a palavra. Quando Kakita Yabu caiu em desgraça, Ichiro não era muito mais jovem do que ele. Conheceu Kazuki. Lembra bem de quando seu pai Noritoshi ordenou, com pesar, os pais de Yabu ao seppuku para impedir uma guerra desnecessária. Seus irmãos mais novos foram mortos, toda a linhagem de Yabu deixou de existir. Ichiro o odiou mais ainda quando seu pai enviou Kenshizens para caçá-lo e eles não retornaram.

 

Enishi passou horas contando elaboradamente toda a história envolvendo ele e Yabu. Contou detalhadamente sobre os crimes, já que ele é a única testemunha viva desse evento. Contou sobre a mudança de postura do Ronin, o período entre os heimins de Doko no mura e o desafio do tão esperado duelo entre os dois. Contou sobre o acordo e em seguida entregou dois manuscritos com o selo Mantis a Ichiro. Um tratava da história escrita envolvendo o duelo entre os dois. O outro era um pedido de desculpas formal e por escrito que Yabu havia entregado a Enishi caso ele perdesse o duelo.

 

Após ouvir tudo o que Enishi tinha pra contar, Ichiro pediu licença para refletir sobre o assunto.

 

Enishi foi procurar Yabu nos jardins do castelo.

 

– Eu já sabia que seria difícil convencê-lo, Enishi-sama…

 

– Sim, Ichiro tem suas razões. Você sabe o que aconteceu com sua família, certo?

 

– Sim, eu sei. – Yabu estava com a cabeça baixa.

 

– Ele não tem nenhuma obrigação de te conceder o seppuku, pois sua família já fez isso pelo clã, mas eu contei toda a história de seu feito, desde Doko no mura até aqui. Ele está refletindo sobre a decisão a ser tomada, afinal não é qualquer um que cria um estilo próprio nas condições que você se encontrava e vence dois Kenshizens em duelo que foram enviados para encontrá-lo e matá-lo.

 

– Obrigado, Enishi-sama.

 

– Não agradeça, estou cumprindo com minha parte no nosso acordo.

 

Duas horas depois um servo chama Enishi e Yabu a mando de Ichiro.

 

– Yabu! – Disse o daimyo Kakita. – Seus crimes já foram expiados pela morte de sua família. Você colocou todo o clã em risco naquele dia. Quase tivemos graves problemas com o Escorpião e com o Mantis, o qual sempre tivemos uma relação amigável. Seu seppuku não teria nenhuma utilidade para a Garça no momento.

 

Yabu assentiu com a cabeça, mas estava com o coração apertado. “Depois de tudo o que passei, será que as fortunas me pregaram uma peça? Apenas para ser em vão no final?”

 

Seu coração estava prestes a se encher de tristeza e frustração, até que Ichiro continuou.

 

– Contudo, Enishi-san é meu amigo e me contou sobre o acerto de contas contigo. Ele me contou toda a história sobre o duelo entre vocês. Ele é parte disso e conversou comigo. Pediu-me como amigo a lhe conceder o seppuku. Então, como amigo de Enishi-san, eu vou lhe conceder a oportunidade de limpar seu nome. Mas quero uma condição…

 

Yabu ajoelhou diante de Ichiro, pôs a cabeça no chão e agradeceu, os olhos marejados. – Obrigado, Ichiro-sama… Obrigado… Nunca duvidei de sua misericórdia! Por favor, diga qual é a condição, senhor…

 

– Mandarei uma comitiva até Doko no mura buscar seu filho. Yaemon ficará sob minha responsabilidade a partir de agora.
Yabu não conseguia imaginar o porquê do interesse de Ichiro em seu filho Yaemon, mas não questionou. Viver aos cuidados do daimyo Kakita é muito melhor do que ficar sujeito aos perigos de Doko no mura. Finalmente disse. – Obrigado, senhor Ichiro-sama. Sua misericórdia e justiça não tem tamanho, senhor. Obrigado… Obrigado…

 

– Agora se levante! – Ordenou Ichiro. – Cometerá seppuku em algumas horas. Vamos resolver isso o quanto antes.

 

Yabu levantou-se, fez uma mesura aos dois daimyos diante dele e se retirou. Se banhou, se perfumou, vestiu seu obi totalmente branco, pôs a faixa com o lobo uivando na cabeça. Foi até os jardins e escreveu seu haikai.

 

Depois se dirigiu até uma parte dos jardins nos fundos do castelo, próximo de uma das torres de vigília. Era lá que cometeria seppuku então. Cumprimentou Enishi e Ichiro e então leu seu haikai.

 

Yabu se ajoelhou sentado sobre seus calcanhares. Antes de desembainhar a wakizashi, concedida por Ichiro para que pudesse realizar o seppuku adequadamente. Olhou para Enishi. Estava sorrindo e com lágrimas nos olhos.

 

– Enishi-sama… Esta… Esta sim é a melhor maneira de morrer…

 

Enishi não disse nada, apenas assentiu com a cabeça, comovido. Posicionou-se atrás de Yabu e desembainhou sua katana, esperando-o iniciar o ritual. O ronin desembainhou a wakizashi e a enfiou no lado esquerdo de seu abdômen. Foi cortando seu abdômen passando do lado esquerdo para seu lado direito. Em seguida mudou a posição da lâmina da wakizashi e continuou o corte para cima, em forma de cruz. Seu rosto estava com uma expressão enrijecida, seus olhos estavam vazios e seus lábios estavam retesados. Não emitiu qualquer som. Quando chegou ao ponto final do corte, Enishi desceu sua katana em direção a nuca de Yabu, decapitando-o. Estava feito. Yabu finalmente limpou seu nome de todos os seus crimes e falhas e morreu em paz.

 

FIM.

 

* ”Vila no meio do nada” é a tradução literal para Doko no mura.

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