A melhor maneira de morrer – Capítulo 3 – O Duelo

-por , em 28/05 -
A melhor maneira de morrer – Capítulo 3 – O Duelo

 

Antes de ler o terceiro capítulo, que tal começar do primeiro? Vá para A melhor maneira de morrer – capítulo 1 – Yabu e delicie-se com esta aventura! Está esperando o que? Vai logo!

 

Era uma manhã fria de outono. Ventava forte no pátio de Kyuden Ashiganabaki, os jardins, apesar de belos, pareciam se encolher diante do frio cortante daquela manhã e estavam cobertos pelas folhas secas avermelhadas que caíam aos montes das árvores. As montanhas ao norte estavam com seu topo encoberto por nuvens e a leste o oceano parecia mesclar-se ao céu numa imensidão infinita com aquela cor tristemente acinzentada. Era certo que uma tempestade se aproximava vindo do mar do leste.

 

Além de alguns servos, estavam presentes no pátio, Tsuruchi Nobumoto, ex-daimyo antecessor de Enishi, Tsuruchi Izumi, ex-dama da Garça que se tornou esposa de Enishi, seus cinco filhos, Kido, a mais velha, os meninos Rekai, Ichiro e Toshiro e a pequena Hana, filha de Enishi com a Shugenja Escorpião Yogo Sumi, que havia se tornado sua consorte, além do próprio Enishi e seu rival, o ronin Yabu, que veio de longe sozinho apenas para buscar redenção através de uma morte honrada digna de um samurai.

 

Yabu acreditava que precisava duelar com Enishi, o qual tinha assuntos inacabados desde anos atrás e que independente do resultado do duelo seu destino era a morte através do seppuku para que pudesse partir com seu nome limpo dos crimes que cometeu. Esta era sua única motivação no momento.

 

Enishi se surpreendeu com a visita repentina de Yabu em seu castelo e se surpreendeu mais ainda quando percebeu um Yabu mais amadurecido e honrado. Seu rosto, antes estampado com arrogância e prepotência, agora tinha um ar mais endurecido, de quem passou por maus bocados nos últimos anos, tinha os olhos de um sobrevivente. Yabu contou um pouco de sua história no dia anterior e Enishi se comoveu, fazendo com que o jovem daimyo o convidasse para um jantar ao seu lado no castelo e que concedesse um duelo com seu inimigo diante daquela linda paisagem.

 

Ambos estavam no centro do pátio, um de frente pro outro. Yabu estava com sua roupa impecavelmente branca, usava um par de sandálias de madeira nos pés, em sua cintura uma fina corda prendia a bainha com sua katana a sua roupa. Seus cabelos desgrenhados estavam bem alinhados dessa vez, puxados para trás amarrados em coque. Pôs uma faixa branca em sua testa com uma figura pintada de um lobo uivando.

 

Enishi já estava vestido de forma elegante, usava um obi verde, preto com detalhes amarelos. Na altura do peito, do lado esquerdo, o mon dos Tsuruchi, antigo clã da vespa, no seu lado direito, o mon do Mantis. No lado esquerdo de sua cintura estava o seu daisho. Sua katana era um presente de seu antigo tutor, Kakita Rekai. A única e inconfundível lâmina Kakita. Seus longos cabelos estavam amarrados em rabo-de-cavalo com uma corda de arco. Seu olhar era sereno, mas sua empolgação estava nítida em seu semblante.

 

Nobumoto e Izumi usavam obis mais simples, uma das servas pessoais de Izumi encontrava-se ao lado dela com uma sombrinha para proteger-lhe da garoa e por cima do obi, Izumi usava um manto para proteger-lhe do frio. Havia pelo menos um servo para cada criança as protegendo com suas sombrinhas. Nobumoto não parecia se importar com o frio e apesar de aparentar tranquilidade estava muito sério. Izumi estava com uma expressão preocupada no rosto, mas não deixou de admirar os dois ali no meio do pátio, um de frente pro outro, entre aquelas folhas que caíam naquela fria manhã de outono. “Daria uma belíssima pintura…”, pensou ela. Olhou para os filhos, todos encapuzados, protegidos do frio. Os mais novos ainda bocejavam de sono. Sentiu dó de suas crianças mais novas, principalmente Toshiro e Hana, que eram muito novos, mas eles são samurais e precisam acompanhar o pai neste duelo. Será uma ótima lição para eles.

 

Apesar de ainda não estarem em posição, o duelo já havia começado.

 

– Prontos? – Disse Nobumoto.

 

– Hai! – Respondeu Enishi sem tirar os olhos de Yabu.

 

– Hai! – Respondeu Yabu sem tirar os olhos de Enishi.

 

– Então que comece o duelo! – Exclamou Nobumoto.

 

Ambos se prepararam. Avançaram com sua perna direita para frente e inclinaram seus troncos, puseram suas mãos sobre o tsubo e se fitaram.

 

Em um duelo, ambos procuravam analisar seu adversário com extrema destreza e sabedoria. O objetivo é procurar um sinal de quando o oponente vai desembainhar a espada para que ele possa interromper seu movimento e sacar a sua antes. Para isso é imprescindível que o duelista saiba analisar os pontos fortes e fracos do adversário. O que determina a vitória no duelo é justamente essa leitura. Muitos samurais depois de analisar o adversário e concluir que o mesmo é bem superior a ele, concedem honradamente a vitória ao seu adversário, sem necessidade de desembainhar a katana. O duelo termina quando o mais rápido atinge primeiro o adversário com sua lâmina. Não precisa necessariamente ser até a morte, e tampouco precisa haver corte. O duelista pode simplesmente colocar a lâmina próximo do rosto do adversário apenas para mostrar que ele foi mais rápido e que se quisesse, teria o cortado ao meio. O duelo é um desafio muito importante, levado extremamente a sério para qualquer Rokugani. Um simples duelo pode decidir o desfecho de uma guerra, por exemplo. Também é travado em silêncio e o único som a se ouvir naquele momento era o uivo melancólico daquele vento vindo do leste.

 

“Vencer Enishi é essencial.” Pensava Yabu enquanto fitava seu adversário. “Preciso saber a força do legado que eu deixei para Kenzen e meu filho, o pequeno Yaemon. Por enquanto tudo o que fizemos não passa de um potencial. Enishi é o verdadeiro desafio. Se eu conseguir vencê-lo, então morrerei com a missão cumprida. Kenzen passará meu legado adiante e eu viverei através de sua espada. Viverei através das espadas dos lobos uivantes. Não odeio mais Enishi-san, nem tenho mais vontade de lhe tirar a vida, mas preciso vencê-lo nesse duelo…”.

 

Quando Enishi se portou de forma com que a mão sobre o tsubo ficasse com a palma virada pra cima, como se tivesse oferecendo um presente, Yabu não conseguiu conter a surpresa. “O que é isso? Então Enishi foi treinado na escola Kakita! Na escola onde eu treinei. Quem será que permitiu isso? Bom, muito possivelmente Rekai. Aquele velho o tratava como um filho, além do mais, Enishi deve ter feito por merecer, sua relação com meu antigo clã era das melhores possíveis. E ainda conseguiu casar-se com Izumi, a “mais bela das garças”, segundo muitos dos que eu conheci. Antiga paixão de Kazuki, meu velho amigo Kazuki. Enishi sabe onde está se metendo, é um duelista de fato. Mas eu conheço esse estilo, Enishi-san. Sei do que os Kakitas são capazes. Você não conhece o meu. Sou um total mistério pra você…”.

 

“Esperei por esse dia ansiosamente desde que você colocou essa cicatriz em meu rosto, Yabu-san…” Pensava Enishi. “Percebi que se surpreendeu com a minha postura. Não esperava que eu tivesse sido treinado pela sua antiga família, não é, velho inimigo? Apesar da surpresa, ele agora sabe o que esperar de mim, sabe o que está enfrentando. Se estava pensando em me subestimar antes, agora com certeza mudou completamente de ideia. Apesar de sua honra e de ser um novo homem, Yabu-san, o sangue de Bayushi Kido ainda está em suas mãos…”.

 

Já havia passado dez minutos desde o início do duelo e ninguém se movia. Nobumoto observava calmamente o duelo diante dele, mas estava apreensivo e preocupado interiormente. “Não sei se Enishi é capaz de ver o que eu vejo, mas Yabu me parece muito determinado a vencê-lo. Tem algo além do perdão do seu clã que ele não revelou que o tem motivado neste duelo. Yabu não quer de jeito nenhum morrer nas terras Escorpião. Apesar de ter se desgraçado há anos atrás, em seu coração ainda se sente um Garça. Quer morrer diante de sua campeã. Será que Enishi já percebeu isso? Yabu visivelmente se surpreendeu ao observar a postura Kakita de Enishi. Mas essa é uma vantagem pequena, meu sobrinho. Yabu, além de ter sido um duelista Kakita promissor um dia, conseguiu diante de circunstâncias adversas, desenvolver um estilo próprio, que é um mistério para Enishi. Mas Enishi triunfou em situações onde seu fracasso era tido como certo, é imprevisível e as fortunas sempre sorriem pra ele. Realmente não consigo fazer qualquer previsão desse duelo.” A incapacidade de Nobumoto de fazer qualquer leitura sobre os dois o frustrava imensamente. De relance, seus olhos desviaram-se do embate a sua frente e procuraram os arqueiros escondidos nas varandas do castelo que davam vista para o pátio. Apenas uma precaução para o caso de Yabu ter alguma estúpida armadilha em mente. “Enishi é nosso daimyo e toda segurança não é suficiente…”. Pensou por fim.

 

Já havia passado aproximadamente vinte minutos desde o início do duelo e as primeiras gotas de chuva finalmente caíam carregadas pelo forte vento. O frio ficava cada vez mais intenso, anunciando a tempestade que se aproximava ameaçadoramente vinda do oceano. As servas tiveram que segurar as sombrinhas com mais força por causa do vento forte para que Izumi e as crianças não se molhassem.

 

Nobumoto permanecia imóvel observando atentamente os duelistas a sua frente. O forte vento e a chuva não pareciam incomodar, assim como os dois duelistas. Enishi e Yabu permaneciam do mesmo jeito, apenas seus obis e cabelos balançando com o vento agressivo.

 

“Você se alimentou bem ontem, Yabu, mas está fraco, debilitado. Não tem como um samurai ficar em perfeitas condições do jeito que você estava vivendo, naquela vila de maltrapilhos. Apesar de tudo isso conseguiu criar um estilo próprio. Bom, não importa. Vai provar do seu antigo veneno, Yabu-san. A escola Kakita é insuperável no duelo…”.

 

“Enishi parece muito confiante, muito convicto de que irá me vencer. Não consigo saber o quanto ele está graduado no estilo Kakita, mas dá pra perceber que possui reflexos muito rápidos e sua capacidade de concentração é muito boa. Mas o meu estilo é como esse vento que corta nossas faces, Enishi-san. Minha lâmina encontrará seu rosto da mesma forma que esse vento. Frio e cortante…”.

 

Enishi estreitou os olhos de leve. Parecia perscrutar cada respiração de seu adversário. Já não sentia mais o vento e a chuva assolar-lhe o corpo. Estava com a mente vazia. Único foco em seu adversário bem a sua frente. Jurou ter visto uma leve torção nos lábios de Yabu, como se este esboçasse um sorriso. “É agora!”, Pensou.

 

Yabu, ao contrário, sentia o vento bater em seu corpo, preferiu se tornar uno ao elemento e buscou as forças da natureza para se concentrar inteiramente no que seu adversário iria fazer. Percebeu alguma coisa diferente em Enishi, alguma mudança repentina. Decidiu que era a hora de ser guiado pela violência daquele vento que vinha do leste. “É agora! Eu venci”, Pensou Yabu.

Cris Siqueira
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Cris Siqueira

Nerd, administradora, RPGista, apaixonada por gastronomia, curiosa sobre todos os assuntos e acha que Darth Vader é Deus. Gasta seus “bons tempos” escrevendo, lendo, vendo seriados e viajando. Reza todos os dias para tirar sempre 20 nos dados e nunca morrer no meio de uma batalha!

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