Desde que os livros da coleção 50 tons de cinza foram lançados, uma onda de admiração e preconceito se espalhou pelo mundo. Admiração das mulheres por verem, na história de Anastasia e Christian, tudo o que sempre sonharam para suas próprias vidas (será?). Preconceito, porque muitas outras mulheres não admitem esse tipo de “volta ao passado”, esse tipo de relação em que uma mulher é subordinada a um homem.

Eu não li os livros, mas nem precisei, é muita gente repetindo as mesmas coisas, falando da mesma história e fazendo questão de exaltar Christian e seus olhares enigmáticos o tempo todo. Vi o filme, não enlouqueci e nem morri de amores pela história, como todos haviam dito que aconteceria. Mas, mesmo não fazendo parte do hall de mulheres alucinadas por Christian Grey e seu quarto vermelho, me sinto no direito, na obrigação e, claro, muito à vontade, de falar sobre o assunto.

O brasileiro não é um povo que tem o hábito da leitura, não se ache maioria se você lê e entende minha observação como absurda. Por isso que 50 tons de cinza virou um grande fenômeno. Foi recorde de vendas, de indicação, esteve nos top 10 de várias revistas e sites, enfim, conquistou todo mundo – tipo Harry Potter e outras coleções de fantasia que rolam no nosso mundinho.

anastasia e christian

O mais engraçado é acompanhar as análises que estão sendo feitas por psiquiatras, jornalistas, roteiristas, romancistas e todos os demais “istas” que existem por aí. Todo mundo resolveu pegar a história de romance do livro, transformar em dados e fatos reais e começar a julgar. Claro, porque, depois que lançou Harry Potter, começamos a estudar as possíveis motivações juvenis de comprar vassouras e corujas para levar para a escola todos os dias!

Serei obrigada a repetir o título desse post: 50 tons de cinza não é uma história sobre a sua vida sexual! E serei obrigada, ainda, a complementar: Também não é a história sobre o que vai acontecer com você no futuro, ok?

Quando eu era adolescente e estava no auge dos meus hormônios e sonhos juvenis, comprava (sem vergonha alguma) aqueles livrinhos de banca de jornal da Sabrina, Julia, Bianca, e mais todos os outros nomes com as mesmas histórias. Eram mulheres, geralmente tímidas e bem simples, que se apaixonavam por homens ricos, poderosos, já envolvidos com outras mulheres ou não, já com seus casamentos arranjados ou não, já com suas duras convicções, ou não. O fato é que essas mulheres ficavam perdidamente apaixonadas e encantadas por esses caras, eles viviam um romance com diálogos de contos de fada modernos, e nós, mulheres, leitoras, nos apaixonávamos e sonhávamos junto! Nada contra os fãs de 50 tons de cinza, sério, nada contra mesmo. Só que vocês estão sendo bem previsíveis.

christian grey

Pior do que ser previsível com um romance, ou seja, ficar apaixonada, ter sonhos e imaginar diversas coisas, é acreditar que isso vai acontecer um dia com você. Não estou dizendo que sua vida será vazia e sem romance, posso garantir que não é assim que funciona. Sou casada, meu marido é romântico, carinhoso, me oferece tudo o que pode e consegue, mas não é o Christian Grey – e posso dizer que sou feliz com essa conclusão. Ele me dá o que é dele, me oferece sua própria personalidade quando estamos juntos, seus olhares, seu próprio enigma, e jamais, em hipótese alguma, posso compara-lo a um personagem de livro de história. Senão, estarei sendo injusta e muito cruel com o que ele tem de melhor – sua alma e personalidade.

Da mesma forma que demoramos anos pedindo e exigindo em determinados momentos o sonhado respeito ao que somos e representamos enquanto mulheres, estou começando a achar que os caras precisam exigir mais respeito também. Seu marido, namorado, amigo, noivo, precisa ser valorizado mais do que qualquer Christian Grey, ele dorme com você, acorda com você, te beija e abraça todos os dias, cuida de seus filhos, é um marido e pai, como se preparou para ser. Valorize isso e só leia os livros como entretenimento. Pare de achar que 50 tons de cinza é sobre sua vida sexual, porque não é. Ok?

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